Paula Rios: Era uma vez uma empresa nos tempos do Covid-19

Paula Rios partilha uma história de sucesso nos tempos que correm.

Paula Rios é jurista e profissional de seguros.

Texto de Paula Rios, jurista e profissional de seguros

 

Todas as histórias de encantar, e algumas delas bem assustadoras, começam com “Era uma vez…”. E muitas, para mal dos nossos pecados, porque nos fazem acreditar que só há finais felizes – especialmente para as histórias de amor –  terminam com “…e foram felizes para sempre”.

Esta não é uma história de encantar, é uma história real, dos nossos dias.

Era uma vez uma empresa que, como todas as outras, foi apanhada de forma brutal no turbilhão do Covid-19, vendo-se confrontada com a necessidade de tomar medidas drásticas e urgentes.

Inserida num sector da área financeira, em que a maioria do trabalho se pode fazer à distância, a empresa desencadeou, em tempo recorde, todas as acções necessárias para que a quase totalidade dos seus colaboradores pudesse trabalhar desde casa. Os colaboradores com computadores portáteis levaram os seus (alguns até mesmo os monitores), e rapidamente se arranjaram portáteis para os que os não tinham, disponibilizando acessos ao sistema central.  Acredito que a equipa de IT não tenha dormido durante algumas noites, mas ao fim de poucos dias os escritórios da empresa estavam multiplicados por um número igual ao dos seus colaboradores que trabalhavam desde casa. Não eram três, nem cinco, nem dez: eram centenas.

Da liderança de topo, foram chegando mensagens encorajadoras; animando o esforço, e afirmando que a empresa estava com todos, apoiando-os naquilo de que necessitassem.

Em cada escritório ficaram os colaboradores estritamente essenciais, dois ou três, observando todas as precauções e distâncias de segurança, com o apoio de um responsável  porque “onde está um soldado tem de estar um capitão ou general”.

Todavia, a empresa procurou, e bem, reduzir o risco para estes trabalhadores que,  num sistema de roulement, diariamente continuam a ir às suas instalações: de transporte, suportando a gasolina para que possam deslocar-se nas suas próprias viaturas; de saídas do escritório, providenciando-lhes almoço. E, um detalhe, porque a magia está muitas vezes nos detalhes – oferecendo-lhes duas vezes por semana um cabaz com fruta e legumes frescos, agradecendo assim o seu esforço e reduzindo uma possível ida à mercearia. Escusado será dizer que lhes forneceu máscaras, produtos de desinfecção, etc.

Mais ainda, antecipou o pagamento do subsídio de férias e assegurou  o processo de avaliação de desempenho como faz, por esta altura, todos os anos.

Dir-se-á que esta empresa está num sector que lhe permite continuar a desenvolver a sua actividade, com uma dimensão que torna possível este tipo de reacções, gestos e atitudes. É certo. Mas aqui há mais. Sente-se uma empatia, sente-se uma vontade de manter o ânimo, de mostrar aos colaboradores que a empresa está lá, e que os apoia nestes momentos tão difíceis e desafiantes para todos.

E o que espera a empresa dos seus colaboradores? Reciprocidade. Empenho. Dedicação. Responsabilidade (no trabalho à distância). Manter o foco nos objectivos (possíveis). Manter as ideias, a criatividade, a comunicação; não desanimar, porque esses escritórios pequeninos que hoje fazem a empresa vão voltar a reunir-se nos grandes, e a alegria do reencontro vai ser tão genuína, vai saber tão bem, que se vão esquecer questiúnculas e problemas do passado, e todos se irão unir para reconstruir aquilo que se possa ter perdido, e para recuperar o mais rapidamente possível a velocidade de cruzeiro.

Louvo a atitude desta empresa, e também dos seus colaboradores, porque sei que estão a corresponder, e vão continuar a fazê-lo. Quem dá, recebe, e neste momento sente-se uma corrente de solidariedade e força, tão necessária num tempo tão difícil. E depois, quando tudo terminar, não sei se vão viver felizes para sempre, mas porque não? Acho que têm condições para ser felizes durante bastante tempo, como aqueles casais que, fazendo jus às promessas nupciais, desfrutam dos tempos bons e cerram fileiras nos mais difíceis. E, poucos é certo (mas ainda conheço alguns), esses sim, vivem felizes para sempre.

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