Paula Oliveira: “É na imperfeição que reside a criatividade”

A nova senior partner da SDO Consulting quer provar que melhor do que tentar aperfeiçoar as imperfeições, é aprender a tirar partido delas.

Paula Oliveira, senior partner da SDO Consulting.

Paula Oliveira, senior partner da SDO Consulting, tem mais de 25 anos de carreira e dedicou os últimos 10 ao empreendedorismo estratégico e a apoiar o desenvolvimento de novos negócios em diversas indústrias em mercados emergentes e mercados maduros.

É fundadora da Youcall, fundadora e diretora geral do Grupo OonDah, fundadora e mentora da Fábrica Digital, fundadora e diretora estratégica do projeto de responsabilidade social JUNTOS. Licenciada em Gestão de Recursos Humanos e Psicologia do Trabalho, tem uma pós-graduação em Gestão, pela Universidade Católica Portuguesa.

Com forte vocação para a inovação estratégica no desenvolvimento sustentável de negócios e pessoas, tem criado projetos que refletem a transformação das empresas, dos processos, da qualidade de entrega e, consequentemente, nos seus resultados operacionais e comerciais. Fundou também a Academia UCALL, projeto que reflete vários anos de gestão e identificação de jovens potenciais talentos, que tem sido repetido em clientes com resultados nas pessoas e na notoriedade das empresas.

Paula Oliveira diz-se otimista por natureza e impulsiva no que toca a agarrar oportunidades, desafia o status quo com naturalidade e garante que não tem medo de arriscar. A SDO Consulting é a sua mais recente aposta.

Tem feito a sua carreira na área de gestão de pessoas, mas também tem alguns projetos como empreendedora.  O que a apaixona em cada uma destas duas áreas?
A minha paixão são as pessoas; compreender o mundo de cada uma, o que as desperta ou apaga, perceber o potencial e competências de cada um. Cada pessoa é uma peça única, “handmade” e conseguir trabalhar essa singularidade é um caminho complexo, profundo e diariamente desafiador. O que me move são os desafios, ultrapassar obstáculos e ganhar. Tal e qual como empreender; criar um projeto é igualmente um caminho longo, complexo e profundo – desde identificar a necessidade no mercado até a realização da ideia existem imensas variáveis e imponderáveis a interpretar e gerir. O sucesso de um novo projeto é sempre consequência da composição ideal das pessoas, sempre! A ideia pode ser genial, o capital pode ser significativo, mas sem uma equipa formada da divergência perfeita entre competências complementares e personalidades compatíveis… nada acontece. Na minha vida, a paixão pelas pessoas e o empreendedorismo são um binómio de causa e consequência permanente.

Sabendo gerir as pessoas e a sua diversidade, é tão fácil pôr cabeças a pensar e saírem da sua zona de conforto! E daí veem sempre ideias novas.

Em que medida a sua experiência nos Recursos Humanos foi importante no empreendedorismo e vice-versa?
Empreender é criar negócios, produtos ou iniciativas inovadoras. Eu tenho tendência a desafiar o status quo, porque havemos de fazer todos as mesmas coisas? Sabendo gerir as pessoas e a sua diversidade, é tão fácil pôr cabeças a pensar e saírem da sua zona de conforto! E daí veem sempre ideias novas, nem todas resultam em produtos ou projetos, mas basta que 1% resulte. Para transformarmos uma ideia num negócio, entram as pessoas novamente! Portanto voltamos ao binómio: PESSOAS —> geram ideias —> empreender—>PESSOAS

O que a atraiu na SDO Consulting e qual a sua missão nesta nova função de senior partner?
A qualidade técnica da equipa. A singularidade de cada uma das pessoas, a equipa SDO tem pessoas completamente desformatadas, o oposto da consultoria convencional. Temos pessoas de 21 anos e temos de 62 anos; temos pessoas de fato escuro e gravata e temos outras  de ténis com jeans russos. Temos mundo e temos lar. E é desta diversidade que resulta a capacidade de nos reinventarmos frequentemente. Isso foi o que me atraiu na compra da SDO.

Senior partner é a função que me permite intervir em projetos que eu escolho e gosto, sem ter que me preocupar com a gestão do negócio (teoricamente). Já faço consultoria há muitos anos e hoje posso ter o “luxo” de escolher os projetos que realmente me realizam enquanto pessoa e profissional.

É o ‘unfit’ que acrescenta valor. Quando alguém na SDO lança uma ideia à equipa, e todos estão de acordo… é porque não é uma boa ideia!

O que traz de novo ao mercado o conceito “the power of imperfection”?
O facto de olharmos para as nossas imperfeições como o nosso valor acrescentado. A tendência do ser humano é reprimir a imperfeição, ou tentar “aperfeiçoar” a imperfeição. Passamos anos da nossa vida “frustrados” a olhar para o que poderíamos ter de melhor. Nós queremos, e estamos, a quebrar esses mitos. Não somos perfeitos! Perfeita é a tecnologia, os prédios, os carros, os robots… isso tudo pode e deve ser perfeito. Mas é na nossa imperfeição, na nossa vontade de fazer mais e melhor, na nossa sensibilidade e vulnerabilidades que reside a nossa essência criativa e intelectual. Queremos elevar ao máximo essa essência.

A diversidade nas equipas é outro dos vossos temas fortes. Quais são as mais-valias da diversidade de género nas equipas?
Divergência de opiniões. Discussão. Desacordo. Diferentes ângulos da mesma “peça”.
A tendência natural dos líderes, quando escolhem as suas equipas é criar empatia, o chamado “fit to culture” ou “fit to team”. Discordo totalmente! Nós queremos o “unfit” , é esse que nos vai levar a argumentar, a aprofundar a nossa tese, que nos obriga a testar, provar. É isso que acrescenta valor. Quando alguém na SDO lança uma ideia à equipa, e todos estão de acordo… é porque não é uma boa ideia!

As mulheres com competência, que trabalharam e dedicaram o seu tempo à sua carreira estão em posições de liderança e não precisaram de leis.

Na sua opinião, por que razão as mulheres ocupam ainda menos de 30% dos cargos de liderança em Portugal?
Por questões culturais, história. Porque são as mulheres que procriam. Porque as mulheres começaram a estudar muito mais tarde do que os homens, porque em Portugal os cargos de liderança não são ocupados por pessoas com menos de 45/50 anos! Porque quando as pessoas de 30/35 anos conseguirem ocupar cargos de liderança nas grandes empresas portuguesas, essa percentagem vai subir muito rapidamente. Nas gerações de 30 para baixo as quotas começam a ser muito diferentes. Estamos em desigualdade de número e não de género. Não gosto desta lei.

Acho que esta lei trata as mulheres como se elas fossem menos capazes; nunca aceitaria um cargo num conselho de administração especificamente por ser mulher! As mulheres com competência, que trabalharam e dedicaram o seu tempo à sua carreira estão em posições de liderança e não precisaram de leis. É uma questão de foco, de compromisso, de paixão e principalmente de vontade! Eu respeito inteiramente uma mulher que decide gerir o seu tempo em função da sua família. Mas essa mulher também não vai querer ir para um cargo de liderança que a obriga a trabalhar fora de horas, falhar a jantares ou viajar com frequência, portanto a lei não vem mudar o que cada uma de nós quer da sua vida.

Que conselho deixaria a uma jovem que está a iniciar a carreira e ambiciona chegar a uma posição de topo?
Em 1.º lugar, que tenha confiança em si própria; 2.º que encare a sua carreira como a prioridade da sua vida; 3.º que dê sempre o seu melhor, que dedique tempo a aprender continuadamente, que seja competitiva, ambiciosa e trabalhadora;  4.º que tenha orgulho e vaidade nos seus sucessos e que celebre cada vitória;  5.º que respeite o contexto em que se move de forma a ser igualmente respeitada. E para isso não precisa de deixar de ser mulher, de se apaixonar e de ter filhos e de os educar. Antes pelo contrário! Irá fazê-lo muito melhor porque será uma mulher realizada, bem consigo própria e com o mundo.