Patrícia Teixeira de Abreu: O meu maior desafio

Patrícia Teixeira de Abreu é diretora financeira da Cares e também influencer na área da dislexia. Neste testemunho explica como e porquê tem conciliado estas duas atividades.

Patrícia Teixeira de Abreu é diretora financeira da Cares.

Patrícia Teixeira de Abreu é responsável pela área financeira da CARES, uma empresa do grupo Fidelidade. Licenciada em Economia pelo ISEG, iniciou o seu percurso profissional na Bosch, onde a auditoria e o controlo de gestão foram a base da sua formação. Em 2004 abraçou um novo projecto na publicidade com a responsabilidade da área financeira da Grey (grupo WPP). Cinco anos mais tarde aceitou o desafio da Effico, uma empresa de recuperação de crédito do BNP Paribas, para reestruturar a área financeira da empresa, desenvolver novos indicadores de negócio e contribuir para redesenhar a estratégia da empresa. Ao longo dos últimos 20 anos, Patrícia Teixeira de Abreu  focou-se na produtividade das empresas por onde passou e na transformação dos departamentos financeiros no sentido de alavancarem o negócio através de uma ligação cada vez mais próxima às áreas de negócio e efectiva criação de valor.

 

“O meu maior desafio de vida não foi na área profissional, foi pessoal. Num dia frio de Novembro soube que a minha filha mais nova era disléxica. Notícia de profundo impacto sobre uma alteração neurológica da qual nada sabia. Pensava que era, simplesmente, uma troca de letras sem importância. Fiquei incrédula quando depois de uma bateria de testes infindável, ouvi a terapeuta dizer que teria de trabalhar com a minha filha numa base diária e que afinal a dislexia não era tão simples como pensava, mas sim uma dificuldade na descodificação na leitura e na escrita com forte impacto na memória.

Explicou-me então que o pouco aproveitamento escolar não era falta de inteligência, ou desinteresse. Afinal a parte do cérebro ativada  na leitura era diferente na Francisca em relação às outras crianças. Foi com confiança que a terapeuta afirmou que a minha filha chegaria onde chegam todos os outros mas, com muito mais trabalho. Para além da terapia semanal, onde eu teria de estar presente, teria igualmente de garantir um acompanhamento diário se quisesse que ela evoluísse.

Recordo-me que pensei que o mundo ia ruir à minha volta e na altura entrei numa espiral de emoções, onde senti que não estava à altura deste tão grande desafio.Como iria acrescentar ao meu dia a dia, sempre tão intenso, tempo de trabalho individual, em 365 dias por ano, com a Francisca de 7 anos, em que poderia oscilar entre 20 minutos a 2 horas  dependendo da minha competência para a inspirar a uma atitude colaborativa?

A dislexia da minha filha mostrou-me que tinha em mãos um problema de gestão e liderança, que precisou de muita planificação e desenvolvimento de soft skills para garantir resultados.

Na verdade acredito que a nossa vida pessoal e profissional se misturam, e a dislexia da minha filha mostrou-me que tinha em mãos um problema de gestão e liderança, que precisou de muita planificação e desenvolvimento de soft skills para garantir resultados.

Trabalhando há 20 anos na área financeira, o foco é uma das minhas características, pelo que identifiquei à partida duas áreas de melhoria que teria de desenvolver rapidamente: a criatividade e paciência. Como em qualquer processo de aprendizagem falhei inúmeras vezes, e fui construindo com a Francisca um processo interativo , numa fase inicial com muita resiliência, frustração e cansaço extremo.

O medo, a insegurança e a sensação de incompetência fizeram parte de todo este processo, mas com uma certeza, teria de encontrar a melhor forma de aumentar a minha produtividade porque desistir não era opção. Eu precisava do meu trabalho intenso e a minha filha precisava do meu apoio diário para aprender e evoluir. Teriam de conviver os dois, e com resultados.

Demorámos a acertar a estratégia, mas finalmente o instinto de sobrevivência obrigou-me a avançar e passei a inventar novas formas para ensinar a minha filha a ler, a escrever e a memorizar. Mais uma vez o profissional e o pessoal se misturaram  e o  coaching e PNL foram ferramentas muito importantes para mim neste processo.

Sempre gostei muito de escrever, e fui registando os nossos progressos em textos ao final do dia para me automotivar e na expectativa de tornar mais claros os nossos progressos. Um dia a minha filha mais velha desafiou-me a partilhar a nossa experiência e assim ajudar outros pais e crianças com as estratégias que funcionavam connosco. E foi a partir daqui que com o apoio e incentivo da agência de comunicação Milenar surgiu o projeto probono de responsabilidade social  para apoiar pais de crianças disléxicas: o blog Dislexia Day by Day.

Estas crianças [com dislexia] sentem-se  profundamente tristes e inferiores aos outros quando têm de ler em voz alta na escola. Não se sentem compreendidas pelos colegas.

O blog Dislexia Day by Day nasceu em  fevereiro de 2020 e é um espaço de partilha onde os pais podem encontrar o nosso dia a dia, informação sobre a legislação, coaching, terapia da fala e várias entrevistas a disléxicos  de sucesso. O meu profundo agradecimento às várias empresas que se foram juntando a este projecto, de forma probono. Com a ajuda da Abreu Advogados  desenvolvi uma área de apoio legislativo, a  Sofia Lopes Rosa inspira os pais a não desistirem através do coaching, e a Sara Lourenço Gomes tem sido fundamental para dar a muitos pais os insights técnicos ao nível da terapia da fala. O objetivo desta abordagem holística é sem dúvida ajudar pais e professores a  proporcionarem uma aprendizagem mais leve e feliz a estas crianças, tudo isto condensado num só espaço desenvolvido pela Milenar.

Ao longo deste processo percebi que as escolas não estavam preparadas para a dislexia, e que estas crianças se sentem  profundamente tristes e inferiores aos outros quando têm de ler em voz alta na escola. Não se sentem compreendidas pelos colegas. Há talvez uma sensação de bullying (ainda que não intencional) que está dentro do silêncio destas crianças.

Desta forma surgiu a ideia de criar uma banda desenhada para crianças para a sensibilização da dislexia nas escolas. A Fidelidade apoiou este meu projecto, o que me permite disponibilizar gratuitamente o material a muitas escolas do país. Neste momento temos já mais de 10 mil crianças que vão ser sensibilizadas para esta realidade, mas queremos ter muitas mais.

Aproveitando esta oportunidade, que muito agradeço e, para que cada vez mais possamos estar atentos e sensibilizados para esta realidade ainda tão escondida, deixo o link, para  divulgação e para inscrição das escolas. O projeto irá ser lançado a nível nacional em várias escolas de todo o país no dia da Dislexia no próximo dia 10 de outubro de 2021. A participação das escolas é gratuita, mas sujeita a inscrição antecipada para reserva do material e preparação da atividade.

Nada se faz sozinho e o caminho faz-se caminhando, pelo que a ajuda de todos na partilha deste projecto fará toda a diferença. Também será muito bem vindo todo o tecido empresarial que queira contribuir para a divulgação desta causa.

A todos que dedicaram o seu tempo para ler este meu testemunho,e a todas as pessoas e empresas que contribuem para tornar tudo isto possível o meu mais sincero obrigada.”

 

Parceiros Premium
Parceiros