Papa-léguas aos 82 anos

Faz viagens de aventura a destinos exóticos. Não se furta a qualquer experiência, mesmo que implique dormir numa tenda ou numa palhota de bambu. Em Lisboa, os dias de Maria José Sousa Lobo Elias começam cedo com o tai-chi e chi kung e podem terminar numa milonga (baile de tango). Não gostava de ser como ela "quando fosse grande"?!

Maria José na Indonésia, onde "os barcos e as ilhas encontram-se sempre em diálogo no nosso horizonte".

O que faz uma viúva aposentada, com os quatro filhos independentes e os sete netos crescidos, que pode dispor de todo o seu tempo? A maior parte das pessoas na sua situação entedia-se; Maria José Sousa Lobo viaja pelo mundo.

Quando se reformou aos 58 anos, sobrava-lhe tempo e energia que não sabia como usar. Quase duas décadas mais tarde, tudo isto mudou, por acaso. Regressada do Canadá, onde estivera numa reunião das Soroptimist [organização global de voluntárias que tem como missão melhorar as vidas de mulheres e raparigas através de programas de empowerment social e económico] no ecrã do computador aparece o desafio lançado por uma senhora do Mississipi: quantas cidades visitou? Curiosa, Maria José percebeu que a sua conhecida soroptimista estivera já em 30 cidades. Na Europa, aparecia as Cinque Terre, que Maria José desconhecia e cujo nome despertou o seu interesse.

Dois dias mais tarde, provavelmente por virtude de campanhas de remarketing que através das pesquisas que fez detectaram um interesse especial por viagens, apareceu-lhe a informação de uma viagem para essa porção da Riviera italiana, organizada pela Nomad, agência de viagens de aventura do Porto, e que era acompanhada por Gonçalo Cadilhe. “Achei que era uma coisa importante. Resolvi inscrever-me.” Em 2012, Maria José Sousa Lobo, então com 76 anos, iniciava desta forma uma série de viagens que a levariam a conhecer muitos recantos da Terra.

Em 2012, por um acaso, Maria José mudou toda a sua vida futura.

Ao longo de toda a sua vida, contabiliza já 63 países visitados, alguns dos quais mais do que uma vez.“Sem que as fosse buscar, é como se as coisas que eu tinha cá dentro viessem à superfície”, explica enfaticamente. Magra, loura e de olhos azuis, dir-se-ia de aspecto frágil se não a ouvíssemos falar com tanta rapidez que as palavras se atropelam e caminhar com desenvoltura dentro de confortáveis ténis.

Estava em Itália quando percebeu que a próxima viagem da Nomad seria fazer o Transiberiano. Maria José partiu de novo, seguindo os passos de Júlio Verne, cujos livros devorara, com uma dezena de pessoas, liderada por Jorge Vassalo. Desde então, foi com ele à Turquia e à Birmânia e deixou-se convencer a ir também à Indochina.

A partir do momento em que entrou na base de dados da agência, os desafios não param de chegar e não são só de viagens. Ao inscrever-se num curso de sketch para principiantes, ministrado por Eduardo Salavisa em Guimarães, em 2012, nascia outra paixão, a de desenhar.

Foi também nesse ano que começou a dançar tango. Por sugestão do filho, fez um curso de formação de formadores de 90 horas, em Alcochete, onde conheceu quem a desafiou a fazer um programa de desenvolvimento pessoal em Évora. Mais uma vez não recusou a oportunidade. “Fez-me muito bem. Nesse grupo estava um senhor que no fim disse que eu havia de ir dançar tango, que abria a pessoa. Eu fui experimentar”. Como era perto de casa, começou a receber aulas na Casa do Concelho de Tomar.

Hoje, aos 82 anos, Maria José continua a fazer três ou quatro grandes viagens por ano. O fim de ano será passado em Florença, onde já esteve na Páscoa de 2018, com um grupo de desenho. “Inscrevi-me numa viagem com o Mateus Brandão, com quem fiz a África toda, desde a Cidade do Cabo até à ilha de Zanzibar: vamos fazer o Expresso do Oriente, que começa em Viena e acaba em Istambul. Já conheço Viena e Istambul, mas não faz mal. Eu gosto muito de andar de comboio”, conta, recostando-se no banco do jardim do Museu da Cidade, no Campo Grande, onde nos encontrámos para conversar.

No dia anterior inscrevera-se para em fevereiro voltar à Índia, desta vez para viajar de comboio de Nova Deli para Calcutá, passando por Varanasi, a cidade sagrada do Ganges, e seguir rumo ao Nepal. Mas adiou este regresso, pois irá na Páscoa à Argélia.

Quais as viagens mais marcantes? A Etiópia, que gostava de repetir, a Indonésia e o Irão, que já repeti, enumera sem hesitações. “São viagens especiais: pelas pessoas a atmosfera, a diferença. Outro país extraordinário é a Arménia, onde já fui três vezes. A Islândia, onde espero voltar.”

Maria José no Irão, no Dasht-e Lut, o deserto povoado de Kahluts, formações rochosas avermelhadas.

O meio de transporte em que percorreu o norte desértico da Colômbia.

Alma de andarilha

Maria José, a mais velha de seis irmãos [entre os quais Sousa Lobo, o ex-reitor da Universidade Nova], cresceu até aos 15 anos em Alhandra, onde o pai era diretor da Cimentos Tejo, do empresário António Champalimaud. Por ocasião da morte do pai, a família regressou a Lisboa e a mãe pediu-lhe que tirasse boas notas para beneficiar de uma bolsa de estudos na Universidade. Ganhou o prémio nacional de melhor aluna, um montante que entregou à mãe, e foi com a nota mais elevada que concluiu o curso de Físico-químicas pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

“Na função pública trabalhei em dez sítios diferentes porque não gosto de estar muito tempo no mesmo sítio”, resume. A alma de andarilha já lá estava. Começou aos 21 anos como professora no Liceu Pedro Nunes, de onde saiu para ingressar como professora assistente na Faculdade de Ciências.

Daí transitou para apoiar a investigação de José Contreiras na Estação Agronómica. Quando a Estação Agronómica mudou de Sacavém para Oeiras Maria José, recém-casada aos 28 anos, transitou para o Ministério da Agricultura. Quatro filhos, três rapazes e uma rapariga, todos de seguida, até aos 35 anos, levaram-na a colocar a carreira em lume brando. Na Tapada da Ajuda, fazia investigação sobre o café e o cacau de São Tomé. Quando a filha atingiu os dois anos, tirou o mestrado em química orgânica dos produtos naturais na Universidade Nova, “para estudar a química de plantas que existiam no país”. A investigação foi realizada nas instalações cedidas pelo Instituto Ricardo Jorge, pois a Universidade Nova, recém constituída, não tinha então laboratórios. Ainda tentou o doutoramento, mas a investigação foi interrompida e esse projeto foi, pela conjugação de várias circunstâncias, posto de parte.

“O meu marido era o primeiro a dar-me corda aos sapatos!”

Quando se dá a revolução de 25 de Abril,estava na Defesa do Consumidor, a que se seguiu a Direção Geral do Comércio, e mais tarde o Instituto do Consumidor onde esteve dez anos. No Instituto do Consumidor foi “apanhada” pela prevenção do tabagismo, cujo Conselho ali tinha também a sua sede. Enquanto membro de um grupo de prevenção do tabagismo representante na CEE (actual União Europeia), assistiu e fez comunicações sobre o tabaco em congressos mundiais da Organização Mundial de Saúde (OMS). Foi neste contexto que, por exemplo, foi à Austrália.

Estas viagens, bem como aquelas em que acompanhava o marido, investigador coordenador do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) foram um abrir de janelas para o mundo. “Ele ia também a congressos e eu gostava de ir com ele. Tirava uns dias de férias, fazíamos uns fins de semana, íamos à Holanda, Dinamarca… Quando ia estudar para o Mar de la Plata, no Uruguai, eu não ia”, recorda. “Quando se aposentou, disse-lhe que agora podia ir comigo, mas ele não queria andar de avião para não ter de deixar de fumar”, diz soltando um sorriso, recordando o marido falecido há onze anos.

Outras viagens foram propiciadas pela Soroptimist Internacional. Maria José foi fundadora e presidente do segundo clube existente em Portugal, o Clube Lisboa Sete Colinas, e fundou também os Clubes de Setúbal e das Caldas da Rainha. Como independente ou como delegada de Portugal, foi a vários congressos europeus e mundiais da rede. Nas últimas três Convenções Mundiais, realizadas em Helsínquia, Sydney e Montreal, foi repórter fotográfica da Convenção. “Ganhei duas bolsas de amizade: com uma fui ao Estado de Washington e ao Alasca, e com a outra ao Japão, a Nara e Kyoto. Onde concorria ganhava e não quis concorrer a mais. Concorriam do mundo inteiro e só duas pessoas ganhavam. Essa também foi uma experiência fabulosa. E o meu marido era o primeiro a dar-me corda aos sapatos!”

Maria José regista as viagens com os seus desenhos e com a câmara fotográfica. Nesta foto, as as ilhas da Indonésia.

Desenhar o mapa mundi

Aposentada aos 58 anos do Instituto de Defesa do Consumidor, “a poder dispor do seu tempo e a recusarem a ajuda que podia dar”, as grandes viagens de aventura surgiriam anos mais tarde. “Nunca tive a ânsia de ir viajar. Não foi nada que eu planeasse. Era qualquer coisa que eu tinha cá dentro, mas não sabia, e que encontrou a oportunidade. Vivo cada momento à medida que as oportunidades surgem e que agarro”.

“Tenho mais coisas para fazer do que horas.”

Hoje podemos encontrar Maria José às 7 horas a praticar tai chi ou chi kung, a fazer workshops de desenho ou enquadrada nos Urban Sketchers, em viagem a desenhar ou a fotografar as pessoas e os locais que a inspiram, a fazer aulas de tango ou, à noite, numa milonga (baile de tango). Com as netas mais jovens, calcorreia Lisboa e os seus encantos. “Tenho mais coisas para fazer do que horas.”

Ainda tem tempo para escrever artigos de viagens no jornal Voz de Melgaço, já com 70 anos de edição, cujo diretor foi o padre que celebrou o casamento de um dos seus filhos. Começou a colaborar há cinco anos, escrevendo artigos sobre alimentação, pois ministrara wokshops sobre alimentação anti-envelhecimento no Inatel, mas depressa perceberam o sucesso dos textos de viagens que enviava para publicação, pois “vai a sítios onde as pessoas pensam que nunca irão”. Cada viagem grande pode resultar em quatro artigos. “É uma boa forma de não me esquecer do que vi. Ao redigir, temos de rever e consolidar a informação. Eu gosto de contar histórias. Durante as viagens tiro notas e faço fotografias.”

Qual a viagem de sonho que ainda lhe falta fazer? “É o que aparecer. Eu não ando atrás do sonho. Não viajo sozinha por isso não sou eu que planeio ir a um sitio. Ando a ver a oferta que há e o que posso fazer”.

Para Maria José, a idade e uma tendência para o ritmo cardíaco acelerado não são desculpa para responder aos desafios que surjam. Só não a veremos  a fazer trekking a 4000 metros de altitude – “isso é para quem tem energia a mais para gastar”. Quando o ritmo de andamento do grupo não dispensa tempo para desenhar, Maria José saca da máquina fotográfica e a sua lente capta com sensibilidade os locais que visita. Nunca se perdeu e só foi furtada uma vez: ficou sem o telemóvel em Adis Abeba, na Etiópia, apanhado a socapa por uns miúdos que pululavam em torno do grupo que se deslocava a um café.

Numa aldeia zulu com o seu chefe octogenário, encantado com o sketch do seu “retrato”

Sketch dos ghers mongóis.

Conselho de passageira frequente? “Comecem a desenhar porque para comunicar não há melhor, abre portas e quebra gelo. É melhor que saber a língua do país. As pessoas têm medo das máquinas fotográficas, mas quando as desenhamos sabem que nos estamos a interessar por elas”, assegura. Conta que na China gerou muito interesse em seu redor sempre que se sentava com o bloco e lápis. O mesmo sucedeu em Istambul, enquanto desenhava o minarete da Mesquita Azul. Os miúdos espreitavam, a mãe estava à distância igualmente curiosa. Maria José aproximou-se para lhe mostrar os desenhos e pediu para tirar uma fotografia com ela. “Só se o meu marido deixar”, respondeu. Ele exigiu também posar para a posteridade, mas Maria José conseguiu a sua fotografia.

No sul de Marrocos, o rufar de tambores e os sons de pandeiretas atraíram o grupo a um local onde homens vestidos de branco, sentados no chão, marcavam o ritmo. As mulheres conversavam ou observavam no corredor. Maria José aninhou-se entre elas e começou a fazer um sketch dos músicos. De novo, os miúdos espreitaram e cochicharam com as mães, que vieram espreitar também. “Até que um dos detentores da autoridade masculina vem perceber o que se passa. Todo o grupo foi convidado a entrar e a provar iguarias que iam servindo”, conta Maria José. Só conseguiram despedir-se quando o funcionário da hospedaria os descobriu, porque era meia noite e precisava de fechar as portas. Maria José procura o desenho nos seus cadernos de sketches e confirma a data: 25 de Março de 2013. Um ano depois do ano que mudou a sua vida.