No universo de garrafas de Filipa Garcia

Filipa Garcia é CEO da Garcias, uma das maiores empresas nacionais de distribuição e logística de vinhos e espirituosos do mercado nacional. Depois de ter adquirido a totalidade do capital no início deste ano, está a executar um ambicioso plano de investimentos que prevê profundas transformações na organização interna da empresa, que já conta mais de 40 anos de história. 

Filipa Garcia é CEO da Garcias.

Filipa Garcia, 36 anos, CEO e presidente da Garcias, passou a deter a totalidade do capital social da empresa este ano, depois de o seu irmão, João Garcia, ter alienado a sua posição de 50%. Trata-se de uma das maiores empresas nacionais de distribuição e logística de vinhos e espirituosos do mercado nacional, com 82,5 milhões de euros de faturação em 2021.

Também em 2022, contratou uma nova diretora de marketing, Raquel Almeida, vinda da Active Brands, outra distribuidora do sector, e uma nova diretora financeira, Joana Silva, docente de contabilidade na ISCTE Business School e também auditora da Deloitte. “Numa altura de grande dinâmica no mercado, acreditamos ser o momento certo para modernizar a empresa e investir nas equipas e na melhoria dos serviços que prestamos”, diz Filipa Garcia, acrescentando que está empenhada na melhoria de processos da Garcias, para que atinja os objetivos que delineou para o seu futuro.

A abertura de mais lojas e a implementação de um sistema de logística cada vez mais organizado e eficiente são os objetivos principais da gestora para a sua empresa. “A Garcias tem sido uma empresa sólida, muito estável financeiramente, com histórico no mercado e queremos manter esse caminho, com adaptações às mudanças que vão surgindo”, defende a gestora.

 

Uma mudança inesperada

Pouco mais de um ano após o pai, Arnaldo Garcia, um dos fundadores da empresa, ter falecido repentinamente, a gestora continua, assim, a implementar um processo de mudança interna, “algo natural em qualquer transição geracional, necessário para que a empresa reflita uma visão mais atual, a nossa, e essencial para preparar a empresa para enfrentar e superar os desafios do presente e do futuro”, explica Filipa Garcia, acrescentando que  isso implica mudanças nos procedimentos e formas de trabalhar da Garcias, que foram estabelecidos há muito, e, por isso, também alguma reciclagem de pessoas.

Apesar de trabalhar na empresa há dez anos, quando perdeu o pai, “deixar de ter o apoio de uma pessoa visionária, que acompanhou 40 dos 40 anos da Garcias e fez da empresa aquilo que é hoje devido às suas capacidades e ao seu esforço, trouxe consigo vários desafios de gestão”, conta, acrescentando que “depois de as decisões deixarem de ser tomadas a três, para passarem a ser a dois”, ela e o marido, Sérgio Azevedo, 37 anos, diretor comercial da empresa há oito, na altura, tiveram de pegar nela e procurar fazer uma transição suave para um novo ciclo.

Licenciada em Gestão pela Universidade Católica de Lisboa, Filipa Garcia tem um mestrado em Estratégia e Empreendedorismo pelo mesma escola.

 

Um estágio que não aconteceu

Como sempre gostou do mundo das garrafas, tinha um estágio de pós-graduação marcado na Diageo, multinacional do sector de bebidas, em Madrid, depois de se graduar. Só que, entretanto, despoletou a crise do subprime, que se iniciou em 2007 com base em problemas nos empréstimos à habitação nos Estados Unidos e teve efeitos recessivos que se estenderam rapidamente à economia mundial, com as exportações globais a cair quase 20% entre 2007 e 2009.

Uma das consequências desta crise foi o congelamento dos estágios, incluindo o de Filipa Garcia, facto que o seu pai aproveitou para a ir recrutando para a Garcias, “devagarinho”, pedindo ajuda para uma campanha pontual de marketing, para decisões de publicidade ou ações de comunicação. “Eu queria ter outras experiências, para trazer mais valias para a empresa quando entrasse alguns anos depois, mas não foi isso que aconteceu”, conta a gestora.

Entretanto, como sentia que tinha lacunas de conhecimento em relação ao mundo dos vinhos, fez uma pós-graduação sobre Wine Business ,desenvolvida pelo ISEG em parceria com o Instituto Superior de Agronomia, naquela que foi a sua primeira edição, que decorreu na Escola Agrária de Santarém. E também frequentou o Wine & Spirit Education Trust (WSET), para se educar mais um pouco sobre este universo.

Mas não tem sido só através de formações que tem alargado os seus conhecimentos nesta área, pois também diz que aprende, muitas vezes, com os seus clientes. “Já me aconteceu várias vezes, quando vou apresentar uma referência de champanhe Gosset, por exemplo, perceber que a pessoa com quem estou a falar, não só sabe mais sobre a marca e a casa do que eu, como também sobre champanhe em geral”, conta Filipa Garcia, defendendo, em seguida, que “é essencial estudar e também ser humilde para aprender com quem sabe mais do que nós”.

 

Gestão de pessoas e talento

É sobretudo para preencher lacunas de conhecimento que costuma fazer formações curtas, pelo menos uma vez por ano, porque não tem tempo para mais. Foi precisamente para compreender melhor as mudanças causadas pela pandemia na forma de trabalhar das pessoas e no modo como estas passaram a encarar o trabalho, após um período significativo das suas vidas em trabalho remoto, que frequentou um curso sobre gestão de pessoas e talento. “É um tema conceptual na ordem do dia”, numa altura em que a gestão de recursos humanos das empresas se tem de adaptar a um novo paradigma, que a gestora teve de aprofundar, para se educar um pouco mais sobre os novos conceitos nesta área e refrescar ideias sobre o tema, no ano em que teve de assumir a direção geral da empresa.

Em 2022, numa altura em que Portugal ainda recupera dos efeitos na sociedade e na economia da pandemia causados pela Covid-19, começou uma nova guerra, que está a decorrer na zona leste da Europa. Para além dos efeitos devastadores causados por qualquer confronto bélico no local do conflito e dos fluxos migratórios de pessoas, a incerteza gerada, em particular em relação ao fornecimento de energia, tem contribuído para elevar os preços da energia para níveis nunca vistos e, por consequência, de matérias-primas e produtos acabados. Em paralelo, as cadeias de fornecimento do mercado não estão a suprir as necessidades de um mercado de vinhos e espirituosos em franca expansão em Portugal, após dois anos de confinamento. Tudo isso está a originar aumentos pouco controlados nos preços dos vinhos e das bebidas no mercado nacional.  “Não há um dia em que não recebamos comunicados dos fornecedores nacionais e internacionais, dentro de todos os segmentos de preço, que não nos tragam esse tema para cima da mesa”, diz Filipa Garcia, salientando que a sua empresa tem de repercuti-los nas margens e preços de venda e o mercado até ao consumidor final. “Somos todos nós, como consumidores finais, que estamos a levar com as consequências do que está a acontecer”, afirma.

 

Crescimento e insegurança

Filipa Garcia.

“As pessoas estão a voltar aos restaurantes, aos hotéis, ou seja, estão a consumir ainda mais após a pandemia”, diz Filipa Garcia.

Para além do aumento de preços, a indisponibilidade de alguns produtos está a contribuir para o crescimento de outros, como está a acontecer na categoria de espumantes, com os mais mediáticos produzidos na Região de Champanhe, em França, a começarem a ser substituídos por cavas espanholas e espumantes nacionais, por exemplo, “o que já se está a notar no mercado”.

Mas o aumento dos preços a e incerteza do fornecimento não tem afetado, segundo Filipa Garcia, o negócio da empresa nem o dos outros distribuidores, já que a Garcias está a crescer cerca de 40% face a 2019, o melhor ano de sempre da empresa.  “As pessoas estão a voltar aos restaurantes, aos hotéis, ou seja, estão a consumir ainda mais após a pandemia”. Mas como há falta de produto no mercado, “estamos a viver uma liquidez falsa que nos poderá afetar negativamente daqui a um ano ou dois”.

A incerteza é um dos grandes problemas atuais das empresas e da economia em geral. O outro é, segundo Filipa Garcia, a falta de pessoas para trabalhar a todos os níveis, que começam, na empresa que dirige, no armazém e vão até aos cargos diretivos. Diz que essa é uma das suas preocupações principais, que implica, entre outros, procurar estabelecer os melhores incentivos remuneratórios e outros para atrair novos e manter os colaboradores, algo essencial numa empresa comercial e de logística, onde qualquer falha de pessoal pode significar atrasos nos prazos de entrega. Mas também capacidade de adaptação, humanização e liderança pelo exemplo, “porque as pessoas também se mantêm nas organizações pela identificação que têm com os seus valores”, defende Filipa Garcia. “Por isso temos de saber passar, sobretudo para as chefias intermédias, as pessoas que tomam muitas decisões no dia a dia, aquilo que valorizamos, os valores da gestão de topo, para que se revejam neles e transmitam isso às suas equipas”, acrescenta.

 

O próximo negócio

O próximo negócio da Garcias serão as garrafeiras de luxo. A primeira Garcias Wine & Spirits Boutique, que abrirá ainda este ano, ficará mesmo no centro da Comporta, e terá cerca 400 metros quadrados de área. À venda estarão os vinhos disponíveis na Garcias Gourmet, plataforma que Filipa Garcia lançou quando começou a trabalhar na empresa, é distribuidora de algumas marcas em exclusivo em Portugal. Distribui marcas como a Gosset, uma das primeiras casas da denominação de Champagne ou o Chateau Petrus, da denominação do Pomerol, perto de Bordéus, cujos vinhos custam milhares de euros, entre outras.

A escolha da Herdade da Comporta foi, segundo Filipa Garcia, uma oportunidade que surgiu quando fechou o acordo para distribuir os seus vinhos. “Ao passar pelo edifício, olhámos para dentro e começámos a sonhar”. Depois de proporem, ao responsável da Herdade da Comporta, alugar o espaço, decidiram implementar, naquela localização, a primeira loja de produtos de luxo, que incluirá uma pequena zona para provas especiais, “onde vamos poder apresentar todos os produtos nacionais e internacionais que trabalhamos neste segmento, incluindo algumas referências de produtos gourmet, como caviar ou foie gras”, conta Filipa Garcia, que tem casa em Troia. A escolha da zona não foi por acaso. É uma região cada vez mais frequentada por pessoas das classe média-alta nacional, mas também italiana, francesa e norte-americana, em férias ou de fim-de-semana. “Como não há muita hotelaria na Comporta e em Troia, a maioria fica em casas alugadas e muitos vão jantando na casa uns dos outros, para onde levam habitualmente bebidas. “São estes os clientes que espero ter na loja”, diz Filipa Garcia.

O QUE É HOJE A GARCIAS

. é uma das maiores empresas nacionais do sector de comercialização e distribuição de vinhos e bebidas espirituosas

. 350 colaboradores, dos quais 60 são vendedores

. 82,5 milhões de euros de faturação em 2021

. 100 milhões de euros é a previsão de faturação para 2022

. 6 bases logísticas

. 15 mil produtos no portefólio

. 14 mil clientes ativos

. sede e armazém principal em Alcochete

. 7 cash & carries em Portugal

. 1 loja online

. vai abrir Garcias Wine & Spirits Boutique, garrafeira de luxo na zona da Comporta com cerca de 400 metros quadrados de superfície

 

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