O que mudou quando mudei: Paula Ferreira Borges

Depois de 24 anos no setor financeiro, Paula Ferreira Borges sentiu que estava na altura de mudar de vida e de recarregar baterias. Ponderou, acordou a sua saída, mas a pausa durou menos do que previra. Em pouco tempo, assumia a gestão executiva da SRS Advogados.

Paula Ferreira Borges é diretora geral da SRS Advogados.

Licenciada em Organização e Gestão de Empresas e com uma pós-graduação em Gestão de Instituições Financeiras, Paula Ferreira Borges iniciou a sua carreira em 1995 na KPMG, como auditora financeira, tendo ingressado em 1998 no universo BES, atual Novo Banco, onde permaneceu até janeiro de 2019. Nesta instituição bancária, assumiu funções de liderança em diversas áreas: Operações, IT Services, Desenvolvimento das Unidades Internacionais, e foi, de 2015 até à sua saída, a diretora de Capital Humano e Fit and Proper Officer, nomeada pelo Conselho Geral de Supervisão.

Este percurso profissional muito diverso e intenso, levou a que ao fim de mais de duas décadas, sentisse que estava na altura de mudar de vida. Depois de um longo processo de reflexão, acordou a sua saída do Novo Banco com o objetivo de recarregar baterias e fazer muito do que não tivera tempo para fazer até ali. Mas afinal a pausa foi curta, pois não resistiu ao desafio que lhe foi lançado pela SRS Advogados para assumir a sua direção geral.

 

O que a desafiou a aceitar esta nova função
Antes da decisão de aceitar a posição como Directora Geral da SRS houve uma outra decisão fundamental, estrutural e muito amadurecida… a decisão de parar e mudar. Ao fim de 24 anos no sector financeiro, e apesar de muito grata por tudo o que vivi e aprendi nesse período, sentia um profundo desgaste físico e emocional que foi “amadurecendo” em mim até se transformar numa convicção de que teria de mudar de vida.

Foi um processo algo longo, muito pensado e muito rezado, como costumo dizer, e durante o qual procurei a opinião de algumas (poucas) pessoas que, não só me conhecem bem, como também já tinham vivido experiencias semelhantes. E assim fui construindo o caminho da mudança. Não sou pessoa de me atirar para o desconhecido, gosto de avaliar os prós e contras, de sentir que estou a seguir um rumo definido por mim.

A dada altura a decisão de sair do banco foi acordada com a Administração, com uma data definida, e partilhada com a minha Equipa de reporte directo.

O meu plano seguinte era parar durante uns meses, recarregar baterias, fazer uma série de coisas que queria fazer e para as quais nunca tinha tido tempo, e depois investir nos meus projetos pessoais, mas entretanto a vida foi acontecendo. Surgiram alguns convites para novos desafios profissionais e surgiu o convite para assegurar a gestão executiva da SRS, que me procurou apesar de saber que eu não tinha experiência no sector da advocacia, pois considerou que o meu percurso profissional e as minhas competências estavam em linha com o que pretendiam: profissionalizar a gestão executiva do escritório nas diversas áreas (Financeira, Marketing, RHs, IT, Logística, Knowledge Management…).

O que me desafiou a aceitar a proposta?…um misto de racionalidade e de voz do coração. Gostei do projecto que me foi apresentado – um escritório de média dimensão, reconhecido e premiado em algumas áreas de prática lado a lado com os escritórios Tier 1, com um grupo de profissionais de elevadíssima qualidade (alguns dos quais eu tinha já conhecido enquanto Cliente), com uma cultura que me pareceu integrar a diversidade, apostar no equilíbrio e com atenção genuína à Responsabilidade Social, e um com muita vontade de crescer Bem, ie, de crescer forma sustentada…e não crescer a qualquer custo. A minha voz cá de dentro disse-me que eu poderia aportar valor aqui e também continuar a aprender: win-win!

O acolhimento e as principais mudanças na forma de trabalhar
Embora tenha iniciado funções em junho, fui apresentada ao escritório em maio e marcou-me muito o acolhimento caloroso que me fizeram. Fui recebida com champagne, entre brindes e sorrisos. Senti os braços abertos à minha chegada e isso foi um boost de boa energia, logo para começar. Registei também desde logo a proximidade do Managing Partner – Pedro Rebelo de Sousa – a todos os colaboradores do escritório, como se de uma Familia se tratasse.

Continuo a trabalhar muitas horas por dia, mas sinto que sou mais dona da minha agenda. Sinto que tenho maior disponibilidade para reflectir sobre os assuntos e discuti-los com a minha equipa directa, e isso é positivo.

A dimensão de uma organização acarreta formas de trabalhar inerentes a essa dimensão. Há de facto muitas diferenças no dia-a-dia de uma estrutura com milhares de colaboradores, com um Modelo de Governo muito formal e uma estrutura hierárquica pesada, diversos fóruns para a tomada de decisão, e onde a gestão é muitíssimo escrutinada, interna e externamente (Entidades Reguladoras, de Supervisão, Sindicatos, Comissão de Trabalhadores, Autoridade para as Condições de Trabalho, Comunicação Social, etc, etc…) e o dia-a-dia de uma organização com cerca de 130 pessoas, que conseguem estar focados no serviço ao seu cliente, sem serem constantemente “desviados” para assegurar uma miríade de obrigações, reportes e afins. Pessoalmente, continuo a trabalhar muitas horas por dia, mas sinto que sou mais dona da minha agenda. Sinto que tenho maior disponibilidade – física e mental – para reflectir sobre os assuntos e discuti-los com a minha equipa directa (6 directores), e isso é positivo.

A minha resiliência e força emocional foram postas à prova em tantos momentos que acabei por conhecer cada vez melhor as minhas forças, mas também as minhas fraquezas e limitações.

De que forma as experiências anteriores foram importantes nesta fase inicial
Considero que todas as experiências são relevantes, desde que vividas com verdade e entrega, mas acredito plenamente – por vivência própria! – que os momentos em que mais crescemos e evoluímos são aqueles em que somos forçados a sair da nossa zona de conforto, em que nem tudo corre bem, em que temos de “dar a volta”, em que trabalhamos com pessoas difíceis… momentos em que a nossa resiliência é mesmo posta à prova e em que percebemos de que fibra somos feitos!

Eu tive a sorte de ter um percurso profissional muito diverso – Auditoria & Consultoria, Operações, IT, Desenvolvimento Internacional, Recursos Humanos – de ter trabalhado com pessoas de diferentes gerações (alguns com idade para serem meus pais e alguns com idade para serem meus filhos), com formação académica distinta, e em contextos culturalmente muito diferentes (Líbia, Venezuela, Macau, Moçambique…) e penso que este trajecto me trouxe muito crescimento, e acima de tudo, humildade!

A minha resiliência e força emocional foram postas à prova em tantos momentos que acabei por conhecer cada vez melhor as minhas forças, mas também minhas fraquezas e limitações. E este caminho de cada vez maior auto-conhecimento tem feito a diferença na minha vida. Mantem-me focada, ajuda a relativizar, reforçou o meu sentimento diário de gratidão por tudo o que tenho.

Aprendi que não consigo chegar a todo lado e que não faz mal assumir isso. Que dizer “não” pode ser muito libertador e que o meu corpo falha mas vai-me dando avisos … é preciso é que eu esteja atenta!

As principais aprendizagens que fez e a nova rotina
Aprendi que não sou imortal! Que não consigo chegar a todo lado e não faz mal assumir isso. Que dizer “não” pode ser muito libertador e que o meu corpo falha mas vai-me dando avisos … é preciso é que eu esteja atenta!

Na verdade não mudou assim muita coisa. Continuo a levantar-me às 6h30, tomo o pequeno almoço entre as 7h15 e as 7h30, em casa, sentada à mesa com a família – embora nem sempre consigamos estar os 4 sentados em simultâneo 🙂 – e procuro sair de casa antes das 8h para chegar ao trabalho por volta das 8h30.

A caminho do trabalho faço as minhas orações, defino as intenções para o dia e ainda ouço um podcast. Aproveito bem os 30 a 40 minutos de viagem de Oeiras até à SRS!

Perco pouco tempo a almoçar, mas tento almoçar com amigos uma ou duas vezes por semana (procuro não fazer almoços de trabalho, mas nem sempre é possível).

Algo que mudou na minha rotina semanal é que passei a fazer Pilates às sextas-feiras às 8h da manhã, em aula individual com uma Professora fantástica, num estúdio de dança que fica walking distance da SRS e estou mesmo contente comigo! Para mim é uma mega-vitória pois sempre detestei ginásios e tinha aquele complexo de não fazer nada com regularidade pelo meu bem estar físico. A verdade é que já sinto melhorias nos meus níveis de energia e, acima de tudo, já noto menos dores nas costas!

Saio do trabalho entre as 19h e as 20h e a caminho de casa faço um balanço do dia, e começo a desligar do registo “Diretora-geral” para tentar chegar a casa num registo “Mãe” e “Mulher”. Aqui ainda falho bastante – o desligar não é automático :-).

[Antes de mudar de emprego] deve tentar fechar os olhos e imaginar com o maior detalhe possível a sua mudança: a que horas chega ao trabalho, onde se vai sentar, o que vai fazer, com quem vai interagir, quem vai liderar, a quem vai reportar, etc.

Conselho a quem vai mudar de emprego
Já muitas vezes me pediram opinião quando pretendem mudar de função ou sair da empresa ou do sector onde estão e eu aconselho quase sempre o seguinte: antes de mudar, procure avaliar objectivamente tudo aquilo que tem hoje (a função que desempenha, a equipa com que trabalha, a relação que tem com a sua hierarquia, o ambiente de trabalho e os benefícios que a sua empresa lhe dá (tangíveis e intangíveis!), valide se ainda sente que está a aprender, etc.) e depois procure avaliar com igual detalhe o que vai ter na nova função/ novo emprego.

Antes de mudar é fundamental ter a máxima clareza quanto ao que vai fazer, a quem vai reportar e em que formato, que equipa vai ter e se pode ou não fazer alterações a essa equipa (caso necessite), em que modelo vai ser avaliado o seu desempenho e em que momentos. Costumo dizer meio a brincar, que a pessoa deve tentar fechar os olhos e imaginar com o maior detalhe possivel a sua mudança: a que horas chega ao trabalho, onde se vai sentar, o que vai fazer, com quem vai interagir, quem vai liderar, a quem vai reportar, etc. Este exercício ajuda a colocar questões que se calhar não nos lembraríamos num primeiro momento mas que se revelam importantes para a decisão final.

O outro conselho que também dou é: depois da decisão tomada, nada de arrependimentos! Para a frente é que é o caminho.

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