Melinda Gates preocupada com a desvantagem feminina no investimento

As startups fundadas por mulheres só angariaram 2% do financiamento concedido por fundos de capital inicial de risco, em 2016. A falta de mulheres partners de firmas de venture capital também é gritante. Aumentar estes números é uma das prioridades de Melinda Gates.

Melinda Gates tem na igualdade de oportunidades uma das suas cruzadas.

Melinda Gates está preocupada com as disparidades enormes que existem na concessão de financiamento às startups fundadas por mulheres, sobretudo na área da tecnologia. Este foi o pensamento central do artigo de opinião que escreveu para o site Recode.

Os números falam mais alto, lembra Gates: o ano passado, as fundadoras de startups só receberam 2% de todo o financiamento concedido por fundos de venture capital. Enquanto o investimento concedido a startups lideradas por homens aumentou 12%, alcançando a média de 10,9 milhões por empresa, ele diminuiu 26% para as startups lançadas por mulheres — uma média de 4,5 milhões. As estatísticas dizem ainda que, em média, as mulheres só conseguem cerca de ¼ do investimento que pedem, enquanto para os homens esta média chega a metade.

 O venture capital continua a ser um velho clube de rapazes em que as mulheres têm muita dificuldade de entrar.

As diferenças refletem-se também entre as empresas e fundos que atribuem o capital inicial: apenas 7% dos partners nas 100 maiores empresas de venture capital são mulheres e menos de duas em cada cinco têm uma única partner apenas. “Por outras palavras, o venture capital continua a ser um velho clube de rapazes em que as mulheres têm muita dificuldade de entrar. Elas têm mais dificuldade no networking e menos acesso às redes informais de informação e recursos do que os seus colegas homens.”

Não é que estas empresas de financiamento com capital inicial de risco estejam determinadas a discriminar abertamente as mulheres, diz Gates, mas mantêm enviesamentos inconscientes. Um dos exemplos mais conhecidos é aquele em que um jovem empreendedor é descrito como “promissor”, enquanto uma empreendedora na mesma faixa etária é vista como “inexperiente”.

“Precisamos de mais investimento em firmas de venture capital e empresas em fase inicial lideradas por mulheres”, escreve Melinda Gates. “E falo por experiência própria. Desde o princípio do ano procuro fundos de capital inicial de risco liderados por mulheres e orientados para o retorno do investimento. Não porque é uma coisa simpática de se fazer, mas porque se podem fazer investimentos inteligentes e com grandes retornos. E espero que outros investidores sigam o exemplo.”

“Dizer que a falta de mulheres partners nas companhias de venture capital  ‘é um problema de pipeline’ é o mesmo que dizer ‘não é problema meu’ e que não se importam com as desigualdades de género e o sexismo”, diz Reid Hoffman, fundador do LinkedIn e partner da Greylock.

Melinda Gates juntou ainda, no mesmo artigo, as opiniões de alguns nomes ligados ao setor da tecnologia e do investimento. Para Katherine Minshew, fundadora e CEO do site de carreira The Muse, as empresas têm de investir mais na qualidade do recrutamento, procurando ter um leque de candidatos a cargos sénior ou especializados com maior diversidade, ou apostando mais na formação dos seus recrutadores para que tomem consciência dos seus enviesamentos inconscientes.

Medidas também advogadas por Reid Hoffman, fundador do LinkedIn e partner da Greylock Partners, uma das principais e mais antigas firmas de venture capital dos EUA. Para o empresário e investidor, justificar a falta de mulheres como partners de venture capital dizendo que “é um problema de pipeline” já é um argumento gasto. “É o mesmo que dizer ‘não é problema meu’. O que, francamente, é o mesmo que dizer que não se importam com as desigualdades de género e o sexismo.”

Hoffman aconselha ainda as empresas que produzem conteúdo multimédia e que organizam conferências ou eventos similares a procurarem a paridade de género entre os autores, oradores e participantes que convidam. Outra medida proposta para as companhias de venture capital é a de encorajar uma maior diversidade entre as empresas do seu portfolio de investimento, para que contratem mais mulheres e pessoas de minorias sub-representadas, colocando-as como membros independentes do conselho de administração.