Mathilde Thomas: “É muito difícil manter um negócio familiar”

Mathilde Thomas criou, com o marido, a marca de cosmética Caudalie, apoiada em parcerias com equipas de cientistas. Numa indústria de gigantes, trabalha para manter a sua empresa 100% independente. Esteve em Portugal no passado dia 8 para lançar o seu livro, "Os segredos de beleza das francesas".

Mathilde Thomas, co-fundadora da marca de cosméticos naturais, Caudalie.

Mathilde Thomas já não vinha a Lisboa há 8 anos, mas Portugal é um país que lhe diz bastante, também por causa das nossas tradições vinícolas. Foi no meio de vinhas, em Bordéus, que cresceu e do negócio familiar da produção de vinho viria a nascer o da cosmética, com a criação da marca Caudalie, que fundou em 1995, com apenas 23 anos, juntamente com o então namorado e hoje marido, Bertrand.

Esse ponto em comum com o nosso país e o facto de a Caudalie ter, em Portugal, uma considerável base de fãs e dois spas com tratamentos à base de polifenóis de uva — os Vinotherapie Spas do The Yeatman, no Porto, e do L’And Vineyards, em Montemor-o-Novo — podem ajudar a explicar o facto de o nosso ser o segundo país no mundo em que publica o seu livro, “Segredos de beleza das Francesas”. Originalmente escrito e editado nos Estados Unidos durante o período de 5 anos em que ali residiu para internacionalizar a sua marca de cosmética, o livro esteve na lista de best sellers do New York Times. O lançamento da edição portuguesa aconteceu em Lisboa, na Livraria ler Devagar, no passado dia 8 de novembro e contou com a presença da autora e empresária francesa.

O segredo está nas uvas

Foi durante uma visita à propriedade vinícola da família de Mathilde, o Château Smith Haut Lafitte, que Joseph Vercauteren, então professor e investigador da Universidade de Farmácia de Bordéus, lhe disse a ela e ao marido: “O vosso vinho é delicioso, mas sabem que estão a deitar fora a parte mais interessante das videiras?” Explicou-lhes que as grainhas, pele e talos das uvas, que são rejeitados durante o processo de produção de vinho, estavam carregados de polifenóis — sobretudo o resveratrol — que caracterizou como “o mais poderoso dos antioxidantes produzidos pela natureza”, excelentes a travar os radicais livres responsáveis pelo processo de envelhecimento. Mathilde e Bertrand formaram uma parceria com Vercauteren desde então e estabeleceram-se como uma das marcas de renome em cuidados de pele, lançando produtos revolucionários baseados nas pesquisas sobre a ação destes nutrientes.

O sucesso da Caudalie tem-se sustentado, aliás, em muito nas parcerias com equipas de cientistas como Vercauteren ou David Sinclair, da Universidade de Harvard, cujo trabalho de investigação nos últimos cinco anos levou à descoberta de moléculas já patenteadas que prometem revolucionar o mercado dos produtos de cuidado de pele e rejuvenescimento.

Mathilde Thomas, durante o lançamento do seu livro, em Lisboa.

“Quando saímos de França, em 2010, queríamos manter-nos como uma empresa independente, não queríamos ser comprados pelos grandes players da indústria da beleza, porque é um negócio de família — eu e o meu marido criámos a empresa, esta é a nossa paixão”, contou durante o lançamento em Lisboa. “Se quiséssemos continuar independentes tínhamos de tornar-nos uma marca internacional.” Decidiram sair de França e estabelecer-se em Nova Ioque, para internacionalizar a marca nos Estados Unidos, Canadá, México e Brasil, em parceria com a cadeia Sephora para a distribuição. “Para os norte-americanos é tudo uma questão de soluções rápidas e satisfação imediata. Se uma mulher tem uma ruga, quer algo que a resolva imediatamente. Querem o retorno rápido dos seus investimentos. Por isso é que vendem tanta maquilhagem e menos cuidados de pele. Foi quando pensei: ‘A maquilhagem é divertida e importante, mas tenho muitas coisas a ensinar-lhes.’ Por isso decidi que tinha que escrever algo sobre cuidados de pele para lhes ensinar que eles devem ser divertidos.”

Mas a estratégia de internacionalização não ficou por aí. Fascinada pelo conceito da K Beauty — o conceito coreano de cosmética e beleza e um dos mais dinâmicos e interessantes mercados do mundo para esta indústria —decidiu explorar e alargar contactos na Ásia, fixando residência em Hong Kong por três anos. Este ano regressou a Paris com a família e, em setembro passado, foi condecorada pelo governo francês com a Legião de Honra.

Aproveitámos a sua passagem por Lisboa para uma breve conversa com a fundadora da Caudalie.

O que a fez acreditar que poderia empreender num negócio como a cosmética, diferente do negócio de família?
A ciência por trás da molécula que lançámos, a 100%. Realmente foi o professor Vercauteren que nos falou sobre todos os conhecimentos científicos por trás desta molécula e nós então acreditámos que tínhamos algo fantástico em mãos. Porque, se olharmos para o mercado, está saturado de competição e, de outra forma, nunca o teríamos feito. Mas também tínhamos apenas 23 anos e talvez fossemos um pouco loucos e ingénuos.

Ao longo dos anos, a Caudalie tem recusado fazer parte de grandes grupos de cosmética. É esse o segredo do vosso sucesso e qualidade?
É muito difícil manter um negócio familiar, porque trabalhamos contra gigantes da indústria. Mas é isso que queremos continuar a fazer, por isso estamos a trabalhar arduamente para nos mantermos 100% independentes. E não é fácil…

Patentearam recentemente duas outras moléculas, resultado de uma parceria com a Universidade de Harvard. Pode falar-nos um pouco deste avanço e como poderão revolucionar o mercado do rejuvenescimento?
Sim, iniciámos uma parceria com a equipa do Dr. Sinclair em 2012. A primeira patente é uma associação entre o resveratrol e a betaína, que é muito interessante porque multiplica por três os níveis naturais de ácido hialurónico presentes na nossa pele. O ácido hialurónico é o que torna a nossa pele mais preenchida e firme. A segunda molécula atua sobre a mitocôndria, a ‘fábrica’ de energia que temos em cada uma das nossas células. Se nos derem o Ferrari para conduzir, mas não tivermos gasolina para encher o o depósito, de nada nos adianta. Por isso precisamos de pôr boas moléculas na nossa pele para que ela tenha a capacidade de sintetizar estas moléculas. É essa a nossa patente e o resultado da investigação por trás do nosso Premier Cru Sérum, lançado em parceria com a Universidade de Harvard. Acabámos de patentear uma 3.ª molécula e acredito que pode ser o início de uma revolução, sim.