Maternidade e carreira são incompatíveis?

A experiência de duas millennials, Filipa Ribeiro, da PwC, e Ana Sanches, da EDP, mães há cerca de um ano.

A maternidade e a carreira são incompativeis? Na Executiva sabemos que não. Não só contratámos uma jornalista no dia em que nos disse que estava grávida, como já conversámos e entrevistámos dezenas de mulheres que ocupam cargos de liderança em importantes empresas e que são a prova de que não tem de ser necessariamente assim. Isabel Vaz tem dois filhos e é CEO da Luz Saúde. Maria João Carioca, tem duas filhas e é administradora da CGD. Vera Pinto Pereira, tem 6 filhos (juntando os seus e os do segundo marido) e é administradora da EDP. Soledade Carvalho Duarte tem 5 filhos e gere (sozinha) há 26 anos a Invesco/Transearch. Maria João Sales Luís, administradora da Multicare, tem 5 filhas.

Estes são apenas alguns exemplos de mulheres que nunca se questionaram se tinham se desistir da carreira para ter filhos ou se para investirem na carreira teriam de os adiar. “Não vale a pena dizer: ‘Estou a pensar em ter um filho, por isso vou começar a abrandar a carreira’. Tem um filho, continua a tua carreira e, se precisares de abrandar, abrandas depois. Não te autocondiciones”, diz Maria João Carioca, da CGD. Por seu lado, Isabel Vaz, confirma que tudo é possível, sem dramas: “Tive os meus dois filhos quando trabalhava na McKinsey. Eu queria muito ter filhos e a verdade é que não me atrapalharam nada a carreira”.

Esta é a perspetiva de mulheres que já chegaram ao topo. E quem vai a caminho, como é que pensa? Entrevistámos duas millennials, que foram mais há cerca de um ano, Filipa Ribeiro, 32 anos, M&A Tax Senior Manager na PwC, e Ana Sanches, 32 anos, HR Manager na EDPpara saber o impacto da maternidade nas suas carreiras.

Adiou a maternidade com receio de que pudesse prejudicar a sua progressão profissional?

Filipa Ribeiro – Não. Chegámos a uma fase da nossa vida em que entendemos que faria sentido passarmos para a “próxima etapa” – sermos pais. No entanto, não nego que em termos profissionais, sempre achei que seria desejável já estar numa determinada posição na firma (manager ou acima) antes de ser mãe. Felizmente, tudo se conjugou. Mas na PwC temos sócias que foram promovidas quando estavam em licença de maternidade, pelo que, temos vários exemplos como a maternidade não limita a progressão da carreira na empresa.

Ana Sanches – Não. A maternidade surgiu depois de um passo importante para nós como casal, que foi o casamento. O facto de trabalhar numa empresa que apoia a parentalidade de diferentes formas ajudou a que essa questão não se colocasse.

“Não nos devemos ‘anular’ como pessoas só porque somos mães, nem deixar que os outros ditem o que é ‘normal’ e ‘aceitável’. Decidi ser mãe mas continuo a ser uma pessoa com sonhos, ambições e vontades próprias”, Filipa Ribeiro, M&A Tax Senior Manager, PwC.

Quanto tempo esteve fora em licença de maternidade?

Filipa Ribeiro – Estive 5 meses em casa. Não posso dizer que foi por opção, mas por um conjunto de situações que me levaram a tomar esta decisão. Sinceramente, para mulheres com uma personalidade e atividade profissional ativa, não recomendo. E não estou a falar apenas de carreira. Termos a cabeça ocupada com outras coisas, termos rotinas próprias, é muito bom. E nada tem a ver com o amor que sentimos por um filho. Não nos devemos “anular” como pessoas só porque somos mães, nem deixar que os outros ditem o que é “normal” e “aceitável”. Decidi ser mãe mas continuo a ser uma pessoa com sonhos, ambições e vontades próprias. Mas, mais importante do que tudo, cada pessoa deve fazer, sempre que possível, o que a faça feliz.

Ana Sanches – Estive fora seis meses, mas os últimos dois foram intercalados com 15 dias de trabalho em cada mês, numa tentativa de fazer uma transição mais “suave” (correspondente a um part-time, que é pouco frequente em Portugal). Acho que é algo que nos faz bastante falta como mães, pois passar de 5 ou 6 meses a 100% com o bebé para 20% ou 30% num dia, é muito violento numa fase em que eles ainda dependem tanto de nós. Depois desta experiência percebo perfeitamente porque existem países onde a licença se pode prolongar até um ano ou mais pois é muito importante estarmos presentes neste início das suas vidas e da nossa como pais.

 

Como organizou a sua nova rotina no regresso ao trabalho?

Filipa Ribeiro – Em primeiro lugar, tentámos garantir condições para que o nosso filho estivesse (sempre) bem, e nós (os pais) continuássemos a desenvolver o nosso percurso profissional. Ao longo do tempo fomos fazendo ajustes na logística para garantir o melhor para todos. Estamos sempre à procura de um maior equilíbrio. É tudo novidade, logo temos de ir gerindo vários “desequilíbrios”. E, claro, o apoio, suporte e afeto familiar ajudam muito.

Ana Sanches –Nos primeiros meses tive que me organizar para tentar ir a casa à hora de almoço (felizmente moro perto) e sair cedo, para conseguir manter a amamentação exclusiva. Depois tive a sorte de ter o pai a fazer uma licença parental mais alargada, o que me permite por agora ter horários mais parecidos com os que tinha anteriormente.
Procuro chegar mais cedo ao escritório, pois isso permite-me aproveitar melhor o dia e sair mais cedo para conseguir estar com o meu filho antes de ele ir descansar. No entanto, tenho a vantagem de trabalhar numa equipa que valoriza a entrega de resultados e não tanto o horário fixo definido, o que me permite flexibilizar a minha presença no escritório e gerir alguns dias de trabalho em casa por mês.

“Como diz um dos meus pediatras preferidos ‘ter um filho é para muitos de nós o primeiro exercício real de liderança’ e é inacreditável as competências que ganhamos ao exercê-la”, Ana Sanches, HR Manager, EDP.

O que mudou na sua forma de trabalhar desde que foi mãe? 

Filipa Ribeiro –Sinto uma maior necessidade de programar o dia-a-dia (e, no entanto, está bem mais confuso!). Mas agora um dos objetivos, é sempre que possível aproveitar ao máximo o meu filho, pelo que tento manter o foco no que é essencial e ser o mais eficiente possível. Sempre que possível, o ideal é ao fim do dia ir para casa, aproveitar a família e quando o meu filho vai dormir, ligar o computador (se necessárioclaro, porque todas as horas são poucas para dormir).

Ana Sanches –Procuro chegar mais cedo ao escritório, pois isso permite-me aproveitar melhor o dia e sair mais cedo para conseguir estar com o meu filho antes de ele ir descansar. No entanto, tenho a vantagem de trabalhar numa equipa que valoriza a entrega de resultados e não tanto o horário fixo definido, o que me permite flexibilizar a minha presença no escritório e gerir alguns dias de trabalho em casa por mês.
Acredito que o facto de sermos mães e pais melhora substancialmente a nossa eficiência e capacidade de planeamento, pois o nosso tempo e atenção passa a estar repartido por mais alguém por quem temos responsabilidade total fora da esfera profissional. Sabemos priorizar melhor e sabemos também relativizar mais as “urgências” e “importâncias” que nos surgem.
Também treinamos a empatia pois temos que tentar perceber um ser que não consegue comunicar connosco na mesma “linguagem” e entender o que sente e como lhe dar resposta. Como diz um dos meus pediatras preferidos “ter um filho é para muitos de nós o primeiro exercício real de liderança” e é inacreditável as competências que ganhamos ao exercê-la. Tenho a certeza de que vou aprender muito nos próximos anos e que isso me vai permitir fazer paralelismos relevantes para a minha função como profissional e gestora de pessoas.

“É fundamental que a participação ativa dos homens na parentalidade seja incentivada pois só assim será mais comum e natural que tanto homens como mulheres sejam pais e mães com o mesmo tipo de responsabilidades”, Ana Sanches.

Que práticas tem a sua empresa para impedir que a maternidade afete a progressão profissional das mulheres?

Filipa Ribeiro – Em primeiro lugar, há sócias da PwC que foram promovidas em licença de maternidade. Ter estes exemplos é melhor do que qualquer prática estabelecida. Mais, termos mulheres sócias na PwC, permite que haja uma maior sensibilidade para questões que só nós (mulheres) temos, nomeadamente na sugestão de práticas/políticas favoráveis à maternidade (e, não só).
Respondendo mais em concreto à questão, a PwC atribui 5 dias por ano para resolvermos questões pessoais (além das férias). Temos flexibilização do horário de trabalho, sobretudo durante a gravidez e no regresso ao ativo e uma série de outros benefícios relacionados com os filhos, como seguro de saúde e direito à tarde do dia de aniversário, entre outros. Nos últimos 4 meses de gravidez, as colaboradoras têm lugar pago no parque dos escritórios da PwC – esta medida foi apresentada à Comissão Executiva pelo nosso novo líder da Diversidade e Inclusão em Portugal, o Paulo Ribeiro, uma prova de que a PwC está a começar a envolver os homens nestes temas.

Ana Sanches – Não só temos benefícios adicionais na fase mais crítica da gravidez (com estacionamento no último trimestre de gestação e hipótese de ir para casa 15 dias antes da data prevista para o parto), como recebemos também um valor e um mimo no momento em que anunciamos o nascimento do nosso bebé. Por outro lado, a empresa tem tentado assegurar que na fase de regresso ao trabalho seja possível às mulheres exercerem as suas funções com maior flexibilidade e capacidade de conciliação, conhecendo e exercendo os direitos que têm e tendo algumas medidas adicionais como por exemplo o trabalho à distância.
Algo que acho que é fundamental é que a participação ativa dos homens na parentalidade seja incentivada pois só assim será mais comum e natural que tanto homens como mulheres sejam pais e mães com o mesmo tipo de responsabilidades, que permitirá que seja cada vez mais normal conciliar a vida familiar com a vida profissional, seja em que fase da carreira estejamos, homens e mulheres.

“Se trabalham para uma empresa em que sentem que se forem mães serão deliberadamente prejudicadas, e toda a vossa dedicação deixa de ser valorizada, é altura de procurar um novo trabalho”, Filipa Ribeiro.

O que diria a uma jovem que receie que a maternidade possa prejudicar a carreira?

Filipa Ribeiro – Diria que a vida não é matemática. Acredito sempre que as decisões devem ser, dentro do possível, ponderadas, mas nunca vai existir um momento certo. Pelo que, se sentem que é o momento, avancem. No entanto, não nego que a vida fica mais confusa e muda (muito!), há novas prioridades e preocupações. No entanto, se trabalham para uma empresa, em que sentem que se forem mães serão deliberadamente prejudicadas, e toda a vossa dedicação (passada e presente) deixa de ser valorizada, é altura de procurar um novo trabalho. Não estão no sítio certo.

Ana Sanches – Que é possível ter os dois. Não é fácil, implica cedências e uma melhor gestão de tempo, mas é possível. Conheço muitos casos de mulheres que foram promovidas no período de licença, voltando ao ativo com um desafio acrescido em casa mas também no trabalho, algo que pode ser muito recompensador.

Se realmente a maternidade for um desejo penso que nenhuma perspetiva de carreira deve anular essa vontade pois temos uma janela pequena (que é cada vez maior com o avanço da medicina) para poder fazê-lo de forma natural.

Acho que os exemplos de outras mulheres bem sucedidas que conseguem gerir uma carreira de sucesso e uma vida ativa de mães é muito importante. Penso sempre no caso da Sheryl Sandberg e nas mensagens que ela deixa no livro “Faça Acontecer”. Porque nós também temos que ser owners da nossa carreira e a maternidade é mais uma peça no puzzle da nossa vida que pode ser encarada como um adquirir de competências relevantes e não tanto como uma condicionante negativa que as empresas desvalorizam.

Há algo que me preocupa bastante nesta nova geração – o facto de existir menos estabilidade / mais precaridade na forma como os profissionais se vinculam às empresas é sem dúvida um fator que atrasa muito a decisão de ter filhos e isso é algo que não beneficia as necessidades que o nosso país tem de rejuvenescimento da população. Por outro lado, acho que hoje se procura ter tudo garantido e “seguro” com muitas condições e se fizermos o paralelismo com os nossos avós e pais eles tiveram os seus filhos com muito menos e muito piores condições. É uma questão de perspetiva e de relativização que muitas vezes não fazemos. Mas acima de tudo, fico contente de observar que na nossa sociedade e nesta geração mais recente a escolha por uma parentalidade ativa e presente é cada vez mais natural para os dois géneros e isso é claramente um passo no sentido da igualdade de género em Portugal.