Marta Pereira da Costa,
guitarrista de fado

Formou-se em Engenharia, mas a paixão sempre foi a música. Depois de aprender com os melhores, mudou de vida e tornou-se instrumentista. Hoje é a única guitarrista profissional de fado em todo o mundo.

Marta teve a coragem de deixar a Engenharia para apostar na música

Toca piano desde os 4 anos, guitarra clássica desde os 8, e iniciou-se na guitarra portuguesa aos 18, incentivada pelo pai, que viu no facto de este ser um feudo masculino, uma oportunidade de se distinguir. Apesar de a música sempre ter sido a sua paixão, Marta Pereira da Costa, jogou pelo seguro e optou pela Engenharia. Trabalhou sete anos nesta área, sem nunca deixar de dar aulas de piano e praticar guitarra. Sem medos, nem vergonhas, calcorreou as casas de fado para aprender com os melhores, até que se sentiu preparada para arriscar. Guardou a Engenharia na gaveta e investiu numa carreira como instrumentista. Hoje, com 32 anos, dois gémeos de 5 anos e um marido fadista (Rodrigo Costa Félix), não tem dúvidas: apesar de trabalhar muito mais, é muito mais feliz!

Formou-se em Engenharia e fez investigação no LNEC. Durante quanto tempo é que exerceu?
Terminei o curso em 2005 e até 2012 exerci engenharia civil. Logo a seguir ao curso trabalhei num gabinete de projetos de pontes e depois surgiu a oportunidade de ir para o LNEC, onde fiz investigação em engenharia sísmica. Foi na altura em que nasceram os meus filhos e eu precisava de um emprego que me desse mais tempo para estar com eles, e para continuar a dar aulas de piano e a praticar guitarra. Mas a música estava apenas à espera…

Escolhi o curso de Engenharia, mas sabia que mais tarde iria recuperar a música.

Então a música sempre esteve em primeiro lugar?
Sim, já quando tirei Engenharia, queria ter feito o curso superior de Música, mas na altura por encaminhamento dos meus pais – o meu pai é engenheiro civil – acabei por optar por fazer Engenharia primeiro, mas sabia que mais tarde iria recuperar a música.

Até porque o seu pai foi quem a incentivou a dedicar-se à guitarra portuguesa…
Sim, ele é o grande responsável!

Mas o curso de música estava fora de questão?
Estava, porque não dava para fazer tudo e a Engenharia foi a opção mais segura. Não era a opção que eu queria ter tomado, mas com 18 anos não tive maturidade para seguir em frente e tirar o curso que eu queria, e joguei pelo seguro, procurando uma profissão boa. Sempre fui muito boa aluna e sabia que se tirasse o curso de Engenharia as coisas iriam correr-me bem. Depois comecei a pensar que não era bem isso que queria e as oportunidades com a guitarra portuguesa começaram a surgir e eu precisava de mais tempo para me dedicar a elas, para poder dar uma boa resposta. Precisava de ter mais aulas, de praticar mais, porque a guitarra exige muitas horas de estudo, e eu não conseguia dar mais. Andava muito cansada. Tinha a Engenharia, tinha os meus filhos, tocava à noite, tinha de me preparar para tocar, não havia tempo para tudo.

Foram assim dois anos em que eu me estava a preparar para fazer a mudança. Foram dois anos de muito trabalho e também de algum investimento, de poupança, porque na música as coisas são muito incertas. E para arriscar eu precisava de algum conforto para os primeiros tempos. Até porque esperava que as coisas fossem difíceis, porque eu não tinha experiência com a guitarra que me pudesse dar o retorno financeiro que eu precisava.

Ao gravar com o meu marido percebi que era aquilo que gostava de fazer e em que poderia marcar a diferença.

Quando percebeu que era o momento certo?
Preparei-me durante dois anos, com muito trabalho e a fazer alguma poupança, mas o que me fez decidir que esta era a opção, foi a gravação do disco ‘Fados de Amor’, com o meu marido, Rodrigo Costa Félix, em 2012. Quando ele me fez a proposta para tocar guitarra portuguesa, eu não me sentia preparada para poder gravar 12 ou 13 temas do principio ao fim, preparar os arranjos e as introduções. E então tive de deixar a Engenharia de lado – felizmente foi nas férias –, porque tive imenso trabalho. Mas percebi que precisava de tempo para fazer estas coisas e com a Engenharia não conseguiria. Não iria fazer bem nem a Engenharia, nem o resto, e como o projeto foi uma experiência tão gira, decidi que tinha de ser naquele momento.

Foi um projeto decisivo?
Sem dúvida, foi o momento em que percebi que era aquilo que eu gostava de fazer e que poderia fazer bem se tivesse tempo para praticar e em que poderia marcar a diferença, porque não havia mulheres a tocar guitarra portuguesa.

E por que é que não há mais mulheres?
Por tradição. Mas agora já há mulheres a começar a aprender. É um instrumento muito chato e muito difícil. É preciso muita persistência, porque há dores na mão esquerda, porque são precisas muitas horas para se conseguir tirar um bom som da guitarra, para se conseguir ver resultados. A guitarra portuguesa não é um instrumento imediato. Por exemplo, com umas aulas de piano podemos logo começar a tocar alguma coisa que é agradável de ouvir, mas na guitarra os primeiros tempos são uma chatice. Os primeiros 10 anos foram para ganhar alguma técnica, perceber como é que as coisas funcionam, recolher repertório e começar a aprender as coisas de forma muito simples … Por isso há muita pouca gente com paciência para esperar tanto tempo até ver resultados.

Foram 10 anos duros, sobretudo porque tinha outras atividades…
Sim, mas a música sempre foi o meu escape, até mesmo quando dava aulas de piano num colégio. Estar com a música sempre foi a parte do dia em que me sentia mais leve – a dar aulas, a tocar sozinha ou a brincar com os meus filhos no piano.

Era o que a fazia feliz?
Sim.

Gosto imenso de desafios e não tenho medo do desconhecido ou do não haver mulheres a tocar.

A Marta terá entusiasmado essa geração de pessoas que agora se começam a dedicar à guitarra?
Tenho tido algum feedback nesse sentido. Já vi um concerto no Museu do Fado com uma menina que devia ter uns 15 anos e notava-se que ela estava com vontade de mostrar o que estava a aprender. Eu incentivo. Mulheres ao poder!

E como foi para si entrar no meio do fado, ser aceite, impor-se pela sua qualidade…
Tudo aconteceu de forma muito natural. Gosto imenso de desafios e não tenho medo do desconhecido ou do não haver mulheres a tocar. A guitarra era um instrumento e eu queria aprender esse instrumento. E as primeiras vezes em que apareci nas casas de fado, com o meu pai atrás e com a guitarrinha, queria mostrar o que estava a aprender e pedia aos outros guitarristas para me mostrarem como faziam as coisas, e como sou uma esponja eles achavam piada e ficavam surpreendidos porque eu aprendia no momento. A guitarra aprende-se a ver alguém tocar e a imitar. Felizmente as coisas correram sempre muito bem.

Nunca se sentiu mal-vinda, nem discriminada?
Não, pelo contrário! Tive imenso charme dos homens (risos)

A singularidade nesse caso pode ajudar…
Foi tudo bom. Se calhar hoje já posso sentir alguns comentários, comparações, mas tento abstrair-me disso, faço o meu caminho. Tento ser instrumentista como eles e quero chegar ao topo. Quero tocar tão bem como os melhores.

Hoje tenho uma vida muito mais exigente. Ando estoirada, cansadíssima, mas é um luxo ganhar dinheiro a fazer o que mais gosto!

E que balanço pode fazer desta reconversão profissional? Olhando para trás, fez a opção correta?
Sem dúvida. É uma vida muito mais exigente e cansativa. Agora não há fins de semana. À noite também estou a tocar, e tenho muitas viagens, o que me parte o coração por que tenho de deixar os meus filhos. Eles são gémeos, estão com 5 anos, já estão habituados, mas há vezes que eles também precisam de nos ter por perto, e nós não estamos lá.

E têm muitos espetáculos fora?
Sim, temos muitos, Estes dois anos têm sido mesmo uma loucura! Não estava à espera que as coisas corressem tão bem. Pensava que nos primeiros tempos ia ter de trabalhar mais em casa, preparar mais aquilo que tinha para apresentar, mas começaram a aparecer muitas oportunidades para fazer concertos e eu penso que se calhar isto é um sinal de que as coisas deveriam ter seguido este caminho. Porque eu faço a minha parte e as coisas têm acontecido, E estou tão feliz porque as coisas não podiam ter corrido melhor. Ando estoirada, cansadíssima, mas é um luxo ganhar dinheiro a fazer o que mais gosto!

 Desde pequena sempre encaixei 1001 coisas no meu horário e não me fez mal nenhum! Sempre conciliei tudo muito bem.

Desde muito jovem que consegue conciliar uma série de atividades… Acha que esse é o segredo do sucesso?
Faço com os meus filhos o que os meus pais fizeram comigo, sempre me deram muitas atividades a experimentar. As crianças que chegam a casa e se sentam a ver televisão, amolecem, não estimulam o cérebro e eu acho que é muito importante estarmos despertos e sermos organizados, porque o tempo dá para tudo. Com os meus filhos tento que os dias sejam muito preenchidos. Vamos à natação, jogamos futebol, andamos de bicicleta, tocam piano comigo, ouvimos músicas, brincamos com ritmos, porque isso depois dá mais vontade de fazer mais coisas. Desde pequena sempre encaixei 1001 coisas no meu horário e não me fez mal nenhum, e dormia bem! (risos). E tinha ótimas notas, porque sempre conciliei tudo muito bem.

E é curioso porque as pessoas que têm uma atividade mais intelectual ou artística como a música, não são muito dadas ao desporto…
A música é uma atividade muito sedentária. Passo muitas horas sentada na cadeira e sempre gostei imenso de desporto. Quando era mais nova até dizia que queria ser professora de educação física. Era o meu sonho de criança. Adorava competir com os rapazes, conseguir ser melhor do que eles.

O facto de o marido ser também artista facilita a gestão da sua carreira, até pelas viagens que têm de fazer?
Nós temos a facilidade de nos podermos articular e gerir bem as nossas ausências. Quando eu saio eu sei que ele consegue dar conta do recado perfeitamente. Eu preciso de trabalhar muito mais do que ele. É claro que fazemos ensaios para pensar nos arranjos e na produção dos espetáculos, mas há uma parte muito solitária minha. Ele percebe o tempo que preciso de dedicar à guitarra, e completa-me muito nas tarefas da casa. E tem o outro lado, que é ótimo podermos sair os dois, as nossas viagens são como luas de mel, apesar de também haver algumas discussões pelo meio (risos). Mas acho que isso também nos enriquece muito. Porque somos os dois muito diferentes e completamo-nos dessa maneira. Eu sempre a puxar para cima e ele com um lado criativo muito desenvolvido, mas mais relax.

Qual é o seu grande sonho de carreira?
Quero ser uma artista reconhecida nacional e internacionalmente. E quero ser uma imagem de Portugal. Sou muito patriota. Quero fazer isso em nome de nós e do nosso país e ser reconhecida por isso. Quero estar lá em cima. Acho que com a saída do meu disco, que tem artistas de peso que nunca pensei conseguir, vou dar um primeiro grande salto, e a partir daí é seguir caminho.