Marta Carvalho Araújo: Treino de super-heróis

Marta Carvalho Araújo, CEO da Castelbel, apela a que na falta de Corona Bonds sejamos nós James Bonds.

Marta Carvalho Araújo é CEO da Castelbel.

Texto de Marta Carvalho Araújo, CEO da Castelbel

 

Possivelmente inspirado pel’A Vida É Bela – o filme italiano de guerra que é a obra-prima de Roberto Benigni e, a meu ver, a melhor comédia dramática jamais apresentada no grande ecrã – um dos meus irmãos improvisou um circuito de treino para convencer os filhos pequenos de que a casa em que estão fechados há três semanas é, na verdade, um refúgio secreto para super-heróis.

O Super-herói AntiCovid-19.

Vê-los assim, num vídeo amador e ternurento que me chegou pelo WhatsApp, a treinar de fato e capa, primeiro fez-me rir e, depois, pensar.

De facto, se há momento em que precisamos de heróis, é este. Figuras corajosas e honradas, especialistas em gestão de crises, protagonistas da luta do bem contra o mal, com um propósito claro e uma missão inabalável: derrotar um supervilão.

Hoje, mais do que nunca, precisamos de ações concertadas, assentes nas competências de cada um e na generosidade de todos, sem hierarquizar importâncias, dos profissionais de saúde aos de segurança, higienização e limpeza, educação, produção alimentar ou distribuição e venda de bens essenciais. Afinal, nem todos os super-heróis têm o mesmo superpoder: enquanto uns recorrem à força, outros socorrem-se da velocidade ou da flexibilidade, da durabilidade ou da agilidade, da autorregeneração ou mesmo da imortalidade… e todos são importantes.

Precisamos de seres altruístas que estejam dispostos a dormir sozinhos e longe da família, a comer pizza fria todas as noites, a render quem já fez demasiados turnos seguidos, ou a fazer trabalho voluntário. De gente consciente e responsável, que não se exponha desnecessariamente para evitar expor quem não tem alternativa. De bons comunicadores, que ajudem os menos letrados a vencer a espécie de “jogo do telefone estragado” que passa em alguns meios de comunicação e redes sociais, ao decifrar, discernir ou, simplesmente, traduzir para linguagem coloquial o fogo cruzado de factos, opiniões, especulações e termos inacessíveis a que estamos sujeitos diariamente.

E precisamos de relembrar que é quando o contexto se torna difícil, as condições adversas e os recursos escassos que nos damos conta do que tínhamos. E do que continuaremos a ter, apesar de eventuais perdas materiais. Porque é nos momentos maus que o melhor das pessoas vem ao de cima. Que deixamos as diferenças de lado e nos unimos em torno de uma causa partilhada, contra um inimigo comum (“inimigo do meu inimigo, meu amigo é!”). E que percebemos com quem podemos, realmente, contar.

Eu, por exemplo, só desde que decidimos, em consciência, encerrar temporariamente a fábrica (onde o trabalho de mais de cem pessoas é puramente artesanal), já recebi dezenas de mensagens e telefonemas solidários de colegas, fornecedores e clientes:

gente boa (“Se tiveres de ir buscar ou levar coisas a algum sítio, diz-me, que eu faço de estafeta.” ou “Concentra-te na empresa, que eu vou por ti para a fila do supermercado.”);

gente preocupada (“Estás bem? Precisas de alguma coisa?”);

gente generosa (“Posso ir contigo para o armazém ajudar a preparar os donativos?”);

gente grata (“Obrigado por estarem do nosso lado. Obrigada por fazerem o melhor que sabem e podem.”);

gente carinhosa e disponível (“Sabias que há clientes que estão a enviar-nos mensagens e emails apenas porque estão sozinhas e a precisar de conversar? Ontem passei a noite a fazer companhia a vários, no Messenger e no Instagram!”).

É claro que, no meio deste verdadeiro stress test, toda e qualquer ação tende a ser criticada (“Péssima escolha de palavras! Devias ter publicado a outra imagem. Doaste a esses, mas não aos outros? Não devias ter fechado! Que vergonha, só fechares agora…”), mas, citando Aristóteles, “há apenas uma maneira de evitar críticas: não faça nada, não diga nada e não seja nada”. Pois façamos, digamos e sejamos tudo o que pudermos para ajudar. De perto (ainda que mantendo uma distância de segurança!) ou ao longe (via Zoom, Teams, Meet, Skype ou similar). Ofereçamos aquilo de que dispomos: produtos, serviços, conhecimento, compreensão, tempo. E reduzamos o fosso entre os fortes e os mais fracos.

A propósito dessa desigualdade: ao preparar a doação de milhares de artigos de higiene e cuidado corporal a instituições que estão na linha da frente do combate ao vírus, tocou-me particularmente a conversa que tive com um responsável pelo aprovisionamento do Hospital de Bragança, que partilhou comigo a tristeza e frustração que sentia por toda a gente falar dos grandes centros hospitalares de Lisboa e Porto, mas ninguém se lembrar dos pequeninos, da periferia, que também têm de cuidar, mas não a quem recorrer quando falta material. Que as grandes marcas estavam todas a entregar equipamentos de proteção e outros consumíveis nas unidades de saúde do litoral, mas a condenar ao esquecimento as do interior do país.

E isto levou-me a tentar imaginar o drama de muitos sócios gerentes de microempresas, que têm sido relegados para segundo plano, apesar de corresponderem a 96% do universo de empresas nacionais: de cafés sem mesas a treinadores sem ginásios, músicos sem concertos, atores sem teatros, floristas sem funerais, cabeleireiros sem festas, esteticistas sem praias, comissionistas sem vendas, atletas sem competições, ou pirotécnicos sem arraiais. Sociedades por quotas plurais ou unipessoais votadas ao abandono, em que os empregados são simultaneamente patrões ou cujos gerentes não são “colaboradores”, porque não têm propriamente com quem colaborar.

Ora, enquanto, numa sociedade anónima de média dimensão como a nossa, até concordo com a falta de proteção dos administradores porque “o lay-off é para a situação dos trabalhadores, não é para os próprios empregadores.”, já não posso dizer o mesmo das Braganças empresariais. Nestes casos, a frase “Um gerente de uma sociedade não tem um contrato de trabalho, não é um trabalhador.” deixa de fazer sentido, pela escala micro. É que, se “o lay-off é uma medida de banda larga para os trabalhadores” do setor privado se ligarem ao ventilador do Estado, então nada mais resta às empresas-pessoas que uma linha analógica convencional – o próprio bolso! – para se manterem on.

Por todas as razões e mais algumas, neste momento e no que virá a seguir, temos de apoiar o que é nacional e bom. Temos de nos unir para proteger a nossa economia e os postos de trabalho locais.

Na falta de Corona Bonds, sejamos nós James Bonds. Estejamos à altura do desafio, galgando as escadas desta provação com a agilidade de um Rocky Balboa, e – ficando em casa ou indo trabalhar – façamos tudo o que está ao nosso alcance para “achatar a curva”!