Marta Carvalho Araújo: The Human Race

A propósito de um WhatsApp inesperado, a CEO da Castelbel escreve sobre como os acasos do destino podem gerar oportunidades espetaculares. Mas não basta esperar que eles aconteçam, é preciso ter uma atitude proativa para que produzam resultados.

Marta Carvalho Araújo é CEO da Castelbel.

Texto de Marta Carvalho Araújo, CEO da Castelbel

 

«Look at us – running around, always rushed, always late. Guess that’s why they call it “human race”.

But, sometimes, it slows down just enough for all the pieces to fall into place. Fate works its magic… and we’re connected.

Every once in a while, amid all the randomness, something unexpected happens and it pushes us all forward. And the truth is, what I’m starting to think, what I’m starting to feel, is that, maybe, human race isn’t a race at all.»

(The Switch, uma comédia romântica protagonizada por Jennifer Aniston e Jason Bateman)

 

No final de mais uma semana que passou a correr (e em que eu corri com ela!), fui a Lisboa. No preciso momento em que o avião aterrou e pude, finalmente, ligar os dados móveis, recebi uma mensagem de WhatsApp, proveniente de um perfeito desconhecido, com um indicativo estranho. Dizia: “Olá, sou o Sr. X, moro em Singapura e cheguei agora a Lisboa. Tens tempo para tomar um café comigo na próxima semana? Ou mesmo hoje à tarde?”

Intrigada, perguntei-lhe como tinha obtido o meu contacto; respondeu, simplesmente, “através da App dos alumni da Harvard Business School”.

Fascinada com a abordagem invulgar e, acima de tudo, totalmente inesperada, pensei: “bem, como só tenho compromissos por cá até por volta das 4 e o voo de regresso não parte antes das 7… por que não?”

E foi assim, com a leveza de quem está fora do seu habitat natural, longe das obrigações e solicitações habituais do dia a dia, que decidi aceitar o convite.

Só depois me ocorreu que nenhum de nós conhecia a zona onde combinámos encontrar-nos, o que tornava a escolha do local mais difícil. Percorri, então, mentalmente, a minha lista de contactos, em busca de alguém que ali vivesse ou trabalhasse, e acabei por pedir conselho a uma amiga que conheci há uns anos (também por mera casualidade, diga-se). A resposta não se fez esperar: “Podes sempre usar a nossa sala de reuniões: tens vista para o Tejo, privacidade, café, frutos secos, água com fruta… e Castelbel por todo o lado!”

E assim foi. Depois das reuniões e do almoço que me levaram à capital, tive o meu primeiro encontro profissional às cegas, num espaço generosamente posto à disposição por alguém com quem só me encontro uma a duas vezes por ano.

O que se passou a seguir foi extraordinário. Acontece que o Sr. X era só um dos investidores privados mais reputados a nível global, oficialmente reconhecido como tal pelo Fórum Económico Mundial, e diretamente responsável pela gestão de fundos de vários milhares de milhões. Alto, elegante, educado, com voz calma, mas aperto de mão firme, e uma postura simples, humana e descontraída, em desconcertante contraste com a complexidade e riqueza do discurso. Um verdadeiro gentleman. E eu tive com ele a hora de conversa mais interessante da minha vida. E, depois, a consciência de quão importante é estar no sítio certo à hora certa, com a mente aberta ao desconhecido. E a convicção de que nada acontece por acaso.

Poder-se-á chamar a isto networking? Certamente. Para mim, ao mais alto nível! (Para ele, terá sido meramente uma oportunidade de saber mais sobre Portugal…)

Mas, naquele momento, ele chamou-lhe apenas “serendipity”. E eu, “destino”. E aproveitei para lhe explicar o significado da tão nossa e singular palavra “fado”.

Despedimo-nos pouco depois das 5, com a promessa de alteração da agenda dos Sr. e Srª. X para acomodar uma visitinha rápida ao Porto, uns dias mais tarde.

Horas depois, já a caminho de casa, dei por mim a pensar em tudo o que nos acontece por sorte, e em como temos de estar preparados para agarrá-la. Como daquela vez em que ajudei quatro turistas de Hong Kong que estavam de férias no Porto a comprar bilhetes de comboio na rede Multibanco, num dia em que as bilheteiras da CP estavam em greve, e em como isso ajudou a que, um ano depois, um deles começasse a vender os nossos produtos do outro lado do mundo. Ou daquela, numa feira em Frankfurt, em que passei uma hora a trocar piadas com um chef canadiano hilariante, contribuindo para que uma das empresas que o mesmo detinha viesse a representar-nos em Calgary. Ou, ainda, do almoço de confraternização, no final de um curso da Porto Business School sobre o mercado chinês, em que fiquei sentada ao lado daquele que é hoje o nosso diretor financeiro.

E depois veio-me à memória o meu pai, que partiu recentemente, e que passou a vida a correr. Correu por ele, por nós e pelos outros, sempre atrasado, sem parar para aproveitar acasos, coincidências, desvios que lhe iam sendo oferecidos pelo caminho, ou momentos de pura e simples humanidade, como os que descrevi. Oportunidades que talvez lhe tenham parecido inúteis, desnecessárias ou simplesmente laterais à Grande Corrida, mas que, mesmo sem qualquer objetivo aparente ou intenção de o conduzir mais rapidamente à meta, poderiam ter dado muito mais cor ao percurso.

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