Mariana Matos e o brilho do azeite

Olhando para a situação actual do setor, dificilmente se imagina que a produção esteve quase a desaparecer, nos anos 1980. A Secretária-Geral da Casa do Azeite revela que os investimentos feitos permitiram a inversão do saldo da balança comercial.

Mariana Matos: a balança comercial da fileira do azeite passou de 60 milhões de euros negativos para 150 milhões de euros positivos em poucos anos.

Portugal produziu cerca de 100 mil toneladas de azeite em 2015. Este valor recorde nas seis últimas décadas não significa que os preços irão baixar este ano, já que os stocks da matéria-prima foram quase a zero em 2014, quando a produção baixou para metade. A ocorrência de condições climatéricas adversas e o ataque de pragas e doenças, não só em Portugal, mas também noutros países da bacia mediterrânica, incluindo Espanha, o maior produtor de azeite do mundo, contribuíram para a contra-safra desse ano. No entanto, o nosso país beneficiou bastante da falta deste produto em Espanha e Itália, pois tem aumentado as exportações a granel para estes dois destinos.

Em 2015 as exportações de azeite cresceram 15% em valor.

Mariana Matos, secretária-geral da Casa do Azeite, explica que as vendas de azeite para o estrangeiro cresceram em valor cerca de 15%, para os 431,5 milhões de euros em 2015. Trata-se de “uma performance interessante, sobretudo se atendermos a que o Brasil e Angola, os principais destinos do azeite engarrafado português, se debatem com graves dificuldades internas”, explica. As vendas para o Brasil cairam 9,5% para 149 milhões de euros e a quebra em Angola foi de 14%, para se situar em 15,4 milhões de euros, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística.

Estudos sobre os benefícios da dieta mediterrânica ajudaram a mudar a percepção sobre esta gordura.

Quem olha para a situação actual do setor nacional do azeite, dificilmente imagina que a produção nacional desta matéria-prima esteve quase a desaparecer, nos anos 80, quando o consumo nacional era baixo. A situação começou a mudar na década seguinte, com a noção de  que o setor não deveria cair, pois começava a crescer a apetência mundial em relação ao azeite. Em particular, nos Estados Unidos tinham saído diversos estudos sobre os benefícios da dieta mediterrânica, que ajudaram a mudar a percepção dos consumidores sobre esta gordura. “Ainda bem que isso aconteceu, pois estudos realizados na Europa não teriam certamente o mesmo impacto”, defende Mariana Matos. Passou, então, a haver mais atenção, até do poder político nacional, sobre este setor e começou a pensar-se na melhor forma de dinamizar a fileira oleícola.

A Casa do Azeite

A Casa do Azeite é uma associação patronal privada, formada por empresas que têm pelo menos uma marca de azeite no mercado. Ou seja, o critério para ser membro não é produzir azeite; é vender azeite. No início, a Casa do Azeite era, na sua essência, uma associação da indústria, que comprava à produção. Hoje em dia cerca de metade dos cerca de 60 associados são produtores embaladores, englobando toda a cadeia de valor. É o caso da Sovena, o maior produtor de azeite do mundo em termos de área e volume de produção. Algumas cooperativas, que têm um peso cada vez maior na comercialização de azeite, também se juntaram a esta organização. Já as pequenas empresas apenas “têm vantagens em aderir à Casa do Azeite quando começam a ir para o mercado de forma mais profissional”, diz Mariana Matos.

Os investimentos realizados por grupos espanhóis despertaram os empresários nacionais para a viabilidade do olival.

Apesar disso, a produção em Portugal era escassa em 1999, data em que Mariana Matos começou a trabalhar na Casa do Azeite. Foi apenas em meados da primeira década do segundo milénio que as plantações de olival começaram a ser implantadas com mais intensidade, beneficiando de ajudas comunitárias. A conclusão da barragem do Alqueva e “alterações na Política Agrícola Comum (PAC) vieram permitir que os agricultores alentejanos deixassem de fazer cereais e começassem a olhar para outro tipo de produções, também devido à maior disponibilidade de água”, conta Mariana Matos. E uma das opções melhores e mais rentáveis era o olival.

Os primeiros investimentos, realizados por grupos espanhóis, também contribuíram para despertar os empresários agrícolas nacionais para a sua viabilidade. Rapidamente se seguiram outros em novas áreas de olival, de tal forma que o interior do Alentejo se cobriu rapidamente com um manto verde. De realçar, em particular, o investimento feito pelo Grupo Sovena produtor, em Portugal, das marcas Oliveira da Serra e Andorinha, na implantação de um olival com 10 mil hectares, o maior do mundo até hoje.

Portugal beneficiou por ter arrancado mais tarde que os outros países produtores. Aproveitou as tecnologias modernas de plantação e maneio do olival e plantou variedades mais produtivas e adaptadas à colheita mecânica. Isso trouxe grandes benefícios em relação à qualidade e sanidade do fruto à chegada ao lagar, onde são usadas as melhores técnicas de extração.

 

Promoção integrada

É verdade que os custos de implantação de um olival intensivo ou semi-intensivo, regado e com maior densidade de plantação de árvores, são bastante superiores aos dos tradicionais. Mas usam muito menos mão-de-obra e o investimento na colheita e poda mecanizada é diluído quanto maior fora a área e, consequentemente, o volume de azeitona colhida. Normalmente o azeite é extraído 24 horas após a apanha, garantindo a sua frescura.

Os investimentos feitos pelo setor contribuíram para que a produção triplicasse em pouco tempo. Das 30 mil toneladas, o país passou para as actuais 90 a 100 mil toneladas de azeite por ano. Em paralelo, o saldo da balança comercial da fileira passou “de 60 milhões de euros negativos para 150 milhões de euros positivos em meia dúzia de anos, algo inédito”, defende Mariana Matos.

O Brasil e Angola são os principais destinos de exportação.

Entretanto, o projecto Portuguese Choice & Taste, de promoção integrada de produtos portugueses no estrangeiro, onde estiveram envolvidas diversas organizações setoriais, como a Casa do Azeite, ajudou a dinamizar a área agro-alimentar. “Foi um projeto de grande dimensão, que contribuiu para criar sinergias entre as diversas associações envolvidas”, diz Mariana Matos, acrescentando que marcou um ponto de viragem na internacionalização do azeite português e na comunicação do setor no exterior. É evidente que o trabalho principal é feito pelas empresas, principalmente pela Sovena e pela Victor Guedes, que produz o azeite Gallo, no mercado principal de exportação, o Brasil. Mas “não é de desprezar aquilo que tem sido feito em conjunto, porque fala do azeite português”, defende a secretária-geral da Casa do Azeite.

 

Consumo cresce nos Estados Unidos

Os principais destinos de exportação têm sido tradicionalmente o Brasil e Angola. Mas hoje Portugal exporta azeite embalado para cerca de 70 mercados. Produto ainda apenas reconhecido pelos consumidores nos países onde se fala português, já começa a ganhar notoriedade entre especialistas.É o que acontece em Espanha e Itália, onde há o reconhecimento de que aqui se produzem muito bons azeites”, explica Mariana Matos. “De tal forma que vêm cá buscá-los para os lotear com os deles”. Garante que o compram a bom preço, apesar de ser inferior ao do azeite embalado.

Atualmente a Casa do Azeite , em conjunto com a Comissão Vitivinícola Regional do Alentejo, está a desenvolver um projeto de promoção, “com resultados bastante positivos”, em alguns países do norte da Europa, como Reino Unido, Alemanha, Suécia e Polónia. Estados Unidos e Canadá são outros mercados que esta organização considera terem grande potencial para exportação de azeites nacionais. “O Canadá é um mercado conhecedor, que tem crescido, para onde exportamos marginalmente”, diz Mariana Matos. O mesmo não acontece com os Estados Unidos, que têm alguma expressão, essencialmente para o mercado da saudade. O objetivo da Casa do Azeite é promover o produto de origem nacional junto dos norte-americanos, já que este país é o segundo maior consumidor de azeite a seguir à Europa, e continua a crescer.

Alentejana de gema

Mariana Matos nasceu em Garvão, no Alentejo. Aos 10 anos ingressou no colégio interno, primeiro, no do Alto, em Faro, mais tarde no de Nossa Senhora da Graça em Vila Nova de Mil Fontes. Diz que foi uma experiência que contribuiu para estar mais bem preparada para enfrentar a vida, as mudanças em particular, e ser mais flexível e independente.

Como é tradição na sua família, todos com costelas alentejanas e com ligações à agricultura, tirou o curso de Agronomia. Diz que “gostaria mais de ter sido veterinária”, mas naquela altura foi uma opção natural, já que o pai e o irmão também tinham a mesma formação.

Quando estava a terminar a licenciatura no ramo de produção animal, o mais próximo de veterinária, pelo Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, recebe uma bolsa Erasmus e partiu para Córdova, onde esteve durante seis meses para fazer o trabalho de fim de curso. Quando regressou, esperava-a uma entrevista de emprego, na Cuf Rações, onde acabou por ficar.

Começou de imediato a trabalhar, numa área ligada à formulação de alimentos, ao crescimento e a ganhos de produção. Foi um período muito importante , devido às pessoas com quem se cruzou e ao contributo que deram para a sua forma de encarar a profissão e o trabalho. Mas a produção animal não lhe agradava. “Era mesmo um grande sacrifício, pois estava habituada à produção extensiva de gado bovino no Baixo Alentejo”, conta Mariana Matos. Decidiu mudar de vida.

Entrou na Casa do Azeite para assessorar a secretária-geral, na altura, Maria Oliveira Fernandes, que um ano depois saiu para o Conselho Oleícola Internacional. Nessa altura  Mariana Matos assumiu o cargo de secretária-geral da Casa do Azeite.