Maria de Fátima Nunes, maestrina

Cantora e assistente da direcção artística no Coro Gulbenkian e maestrina do Ensemble de São Tomás de Aquino, que acaba de lançar o seu primeiro disco, nesta entrevista Maria de Fátima Nunes revela os segredos da sua profissão.

Maria Fátima Nunes é maestrina e cantora.

Licenciada em Fisiologia Clínica pela Escola Superior de Tecnologias da Saúde de Lisboa, realizou os seus estudos musicais no Instituto Gregoriano de Lisboa, é e mestre em Direcção Coral – ensino e performance, sob orientação de Paulo Lourenço, pela Escola Superior de Música de Lisboa. Cantora e assistente da direcção artística no Coro Gulbenkian, membro reforço do Officium Ensemble e Choeur du Chambre de Namur (Bélgica), e cantora e maestrina do Ensemble de São Tomás de Aquino, que acaba de lançar o seu primeiro disco, nesta entrevista a maestrina e mezzo-soprano Maria de Fátima Nunes revela os segredos da sua profissão.

Como descreve a sua profissão?

É uma profissão exigente, que pede muito ao corpo e à alma. É um trabalho muito gratificante que, ao mesmo tempo, pode ser muito ingrato, como em todas as áreas artísticas. Num dia podemos ser bestiais e no dia seguinte bestas. E se for preciso, no dia seguinte, bestiais de novo, e assim sucessivamente.

Quem acha que um músico, a nível profissional, tem uma vida fácil, que só faz aquilo que gosta e que quer, está redondamente enganado. Temos uma vida de muitos sacrifícios, como os desportistas de alta competição. Renunciamos muito ao descanso para poder preparar mais e melhor as partituras das obras em montagem dos agrupamentos que dirigimos; para desenhar um programa de concerto ao qual nos estamos a candidatar; para orientar um aquecimento vocal de um coro que precisa de alguns exercícios específicos para determinada dificuldade; para preparar melhor uma determinada dinâmica de ensaio que ajude a montar uma peça mais rapidamente, sem trazer problemas maiores ao agrupamento. Depois, não podemos esquecer que estão pessoas do outro lado e não queremos falhar nem deixá-las sem rumo: estão à espera da nossa orientação para poderem seguir com o seu trabalho ou para melhorarem a sua prestação.

Que formação é necessária para se ser maestro?

Há que estudar muito, dedicar muitas horas ao trabalho da partitura e conhecer bem o grupo que se irá preparar ou ensaiar. É essencial uma formação sólida e muito consistente: licenciatura, mestrado, cursos de formação complementar com bons maestros. A observação de ensaios dados por outros maestros de grande carreira, tanto a nível performativo como pedagógico, é necessária para desenvolver a optimização e a eficácia do trabalho de um maestro, seja em frente a um coro, orquestra ou ambos.

Como foi o seu percurso profissional? 

O meu percurso foi um pouco diferente daquele que será o normal ou expectável para um maestro ou outro músico. Desde cedo percebi que a música teria de estar presente na minha vida a 200%. Nessa altura, antes dos 15 anos, não sabia se o meu futuro passaria por fazer música a tempo inteiro, mas tinha a certeza que não podia deixar de contactar com a música. Tocar ou cantar teria de ser uma prática regular dos meus dias.

O que sonhava ser quando fosse grande?

Quando estava a frequentar o ensino secundário tinha a ideia que medicina seria um curso difícil de alcançar, mas que se ajustaria perfeitamente à vocação profissional que gostaria de ter. Rapidamente esse desejo desvaneceu, pois percebi que o esforço e estudo requeridos da minha parte para alcançar notas altíssimas não se vislumbraria fácil se continuasse a dedicar o meu estudo diário ao piano e às restantes disciplinas do secundário do ensino especializado de música, que frequentava ao mesmo tempo, no Instituto Gregoriano de Lisboa. A vida musical foi sempre essencial em mim, faz-me viver. Assim, no final do 12.º ano entrei na Escola Superior de Tecnologias da Saúde (IPL), para o curso de Fisiologia Clínica, na variante de Cardiopneumologia (era um curso cujo horário me permitia manter o estudo na música e, apesar de saber que seria uma loucura manter os dois cursos ao mesmo tempo, sabia que iria conseguir com a motivação em alta e com os hábitos e ritmos de estudo que já trazia desde cedo).

Não me preparei para entrar no ensino superior em música e muito menos pensei em candidatar-me para escolas fora do país (uma prática comum no nosso meio) porque os meus pais não achavam bem que me dedicasse apenas à música. E assim foi: apenas com a licenciatura em Cardiopneumologia concluída e com a ideia de começar a trabalhar em hospital ou em clínicas é que ponderei, na verdade, estudar música a nível superior.

Como seu deu, então, a sua entrada no mundo profissional da música?

Depois de ter realizado alguns cursos de verão de direcção coral, em 2010 entrei para o mestrado em música – variante direcção coral na Escola Superior de Música de Lisboa (ESML). Aí, sim, tive o meu primeiro ano na vida em que me dediquei só ao estudo em música e a fazer música. Continuava como coralista no Coro Ricercare, frequentava o Coro de Câmara do IGL, fazia parte de mais alguns projectos corais que iam surgindo e continuava a integrar o Coro Gulbenkian (desde 2009). Foram dois anos maravilhosos.

De repente, entrei no mundo dos professores, logo no 2.º ano do mestrado: iniciei esta função a leccionar na Academia de Amadores de Música como professora de classe de conjunto – coro. Tinha cerca de 90 alunos… eu que nunca tinha pensado em ser professora! Mas, na verdade, foi tudo tão natural que me surpreendi. Estava a fazer aquilo que tinha visto fazer durante todo o meu percurso: as aulas que tive desde os 9 anos, com o Professor Armando Possante — uma das minhas maiores inspirações, um dos meus maiores tutores –, a experiência coral adquirida nos coros em que tinha estado, a forma de ensinar e pôr em prática as dinâmicas de ensaio vistas em maestros como Pedro Teixeira, Paulo Lourenço (meu querido professor e grande referência para mim) e no contacto que tinha tido com maestros de renome (Michel Corboz, John Nelson, Esa-Pekka Salonnen, Ludwig Wicki, Joana Carneiro, entre tantos outros).

Para além de ter começado a leccionar, actividade que mantenho hoje, comecei a fazer alguns projectos como maestrina, em alguns coros amadores na grande Lisboa, a substituir colegas ou em trabalho por temporadas. Em 2015 fiz o meu primeiro programa como ensaiadora de naipe no Coro Gulbenkian, com uma obra incrível e assustadoramente difícil: Kyrie de G. Ligetti, que veio integrar o concerto do filme 2001 A Space Odyssey com orquestra e coro ao vivo, dirigido por Robert Ziegler. Fui maestrina assistente do coro participativo da Fundação Calouste Gulbenkian (2017 e 2018) e trabalho regularmente como assistente do maestro Paulo Lourenço nos projectos do coro participativo do Summer Choral Festival of Lisbon (desde 2017).

Quando pensei que poderia ser maestrina, pensei também que isso não se coadunava com ter uma vida familiar, uma intenção que sempre tive. No entanto, sou casada, tenho dois filhos e sou maestrina, tudo em processo de crescimento, que irá continuar assim durante muitos anos, espero.

” O contacto e a simbiose que um maestro cria entre si e entre o grupo fazem com que a arte que se está a escutar naquele momento seja pura e percecionada pelo ouvinte. “, afirma a mestrina Maria de Fátima Nunes.

Ser maestrina sempre fez parte dos seus sonhos?

Nem por isso. Sempre achei que iria fazer música, mas como pianista ou como cantora. A paixão pela direcção coral surgiu mais afincadamente em 2009, quando, num acto um pouco inconsciente, perguntei ao professor de direcção coral do Curso Internacional de Música Vocal de Aveiro (o qual já iria frequentar na vertente de canto-concerto) se poderia inscrever-me, também, na vertente de direção coral, para experimentar dirigir, já que nunca o tinha feito. E assim foi; dirigi, pela primeira vez, no concerto final desse curso de verão. Foi um dos momentos mais marcantes da minha vida!

Quando pensei que poderia ser maestrina, pensei também que isso não se coadunava com ter uma vida familiar, uma intenção que sempre tive. No entanto, sou casada, tenho dois filhos e sou maestrina, tudo em processo de crescimento, que irá continuar assim durante muitos anos, espero. Apesar de saber que conciliar tudo isto por vezes é caótico, são muitos os momentos de alegria e realização, que me fazem sentir uma pessoa completa.

Temos de ter vocação para “ler” as pessoas e saber olhar para dentro delas com respeito. É verdade que há bastantes maestros que, apesar de mostrarem temperamentos muito difíceis, são grandes génios musicais. Todavia, se tentarmos saber se os agrupamentos com quem trabalham são compostos de pessoas felizes e realizadas profissionalmente, talvez não encontremos respostas simpáticas.

Quais os traços de personalidade e as competências necessárias para desempenhar bem esta profissão?

É essencial ser um bom ser humano, no melhor sentido da palavra. Temos de ter vocação para “ler” as pessoas e saber olhar para dentro delas com respeito. É verdade que há bastantes maestros que, apesar de mostrarem temperamentos muito difíceis, são grandes génios musicais. Todavia, se tentarmos saber se os agrupamentos com quem trabalham são compostos de pessoas felizes e realizadas profissionalmente, talvez não encontremos respostas simpáticas.

Um maestro lida com pessoas a todo o momento. Quem temos à nossa frente são músicos, sim! Do mais amador ao mais profissional, não interessa. Estão a fazer música connosco, através de nós. Por trás do músico há um ser humano, uma idade, um género, uma origem, sentimentos e personalidade. A gestão de tudo isto — para se conseguir tirar destas pessoas a melhor música —, será o maior desafio que o maestro pode ter. Posso ter uma partitura completamente dominada e bem trabalhada, posso saber perfeitamente como estruturar o meu ensaio e como a vou dirigir em concerto, mas se não tiver a atenção e o cuidado necessários na forma como abordo as pessoas que tenho à minha frente e das quais vou ser líder, não irei conseguir fazer música com elas. E se essa ligação humana não existir, a música no seu sentido mais vital não passa para a plateia.

Um maestro é, sem dúvida, um líder.

Costuma associar-se um maestro a um líder. São necessárias competências de liderança para desempenhar esta função?

Um maestro é, sem dúvida, um líder. Por isso, diria que as competências de liderança são essenciais na nossa profissão. Precisamos de saber gerir pessoas, gerir a música que está a sair de nós e que está a ser feita em conjunto com 4, 8, 40, 100 pessoas ou mais, se for o caso. Tenho bastante experiência em ensaiar grupos com grandes quantitativos, tanto crianças como adultos. Liderar um grupo em ensaio, em pré-concerto e em concerto é uma experiência muito exigente e em adaptação constante.

Acredita que há uma forma masculina e feminina de reger orquestras?

Não acredito muito na forma masculina ou feminina de dirigir: penso que o toque mais feminino ou masculino de dirigir é como cozinhar com diferentes condimentos, escolhidos de uma forma especial e bem balanceados: são pratos igualmente bons, com o seu toque especial, somente com sabores diferentes.

Trabalha apenas com músicos ou tem de envolver outros profissionais que estão fora da sua alçada?

Sim, praticamente tenho trabalhado sempre com músicos. Num momento ou outro tive oportunidade de contactar com bailarinos ou artistas plásticos, para fazer uma ou outra produção. É sempre enriquecedor juntar outras formas de arte: sinto que são momentos de aprendizagem, por vezes fracturantes, sobretudo quando realmente se quer compreender uma determinada linguagem a fundo, linguagem essa que, até então, não se havia refletido suficientemente sobre ela.

O maior desafio é conseguir exteriorizar, ao máximo, a musicalidade e a música que estão em cada membro do grupo que estou a dirigir. Outro desafio que talvez esteja equiparado a este é conseguir tirar da partitura tudo aquilo que o compositor, um dia, deixou escrito.

Qual a parte mais desafiante da sua função?

O maior desafio é conseguir exteriorizar, ao máximo, a musicalidade e a música que estão em cada membro do grupo que estou a dirigir. O contacto e a simbiose que um maestro cria entre si e entre o grupo fazem com que a arte que se está a escutar naquele momento seja pura e percecionada pelo ouvinte. Outro desafio que talvez esteja equiparado a este é conseguir tirar da partitura tudo aquilo que o compositor, um dia, deixou escrito. No fundo, conseguir chegar ao âmago daquele pedaço de música e passá-lo ao ouvinte é um desafio estratosférico.

De que mais gosta no seu trabalho?

De contactar com pessoas e poder fazer parte das suas vidas através da música ou do ensino da música. Cada uma delas faz parte da minha vida. Há uma reciprocidade muito interessante! Continuo a ser professora no ensino especializado de música, no Instituto Gregoriano de Lisboa e num projecto muito querido da Escola de Música de Nossa Senhora do Cabo, Oficina Coral, na EB Alto de Algés, dois locais que me fazem muito feliz. Adoro trabalhar com crianças e jovens. Por isso, poder deixar, de alguma forma, a minha marca musical em cada um deles é muito gratificante e desafiante. Poder também, ao mesmo tempo, continuar a fazer performance é vital para mim. Sinto-me privilegiada por poder fazê-lo como cantora e assistente da direcção artística no Coro Gulbenkian, bem como fazer parte do Officium Ensemble e Choeur du Chambre de Namur (Bélgica), onde trabalho como membro reforço, desde 2014, com o maestro Leonardo García Alarcón. E, claro, no maravilhoso Ensemble de São Tomás de Aquino, ao lado do meu grande amigo João Andrade Nunes, onde sou cantora e maestrina.

Aquilo que a música litúrgica pode fazer ao cristão, neste caso, é tão grande que não consigo expressar por palavras.

Como surgiu o interesse pela música litúrgica?

Desde cedo que o interesse pela música litúrgica surgiu. Assim que me apercebi disso, tornou-se um processo em crescendo. Neste momento sinto, ainda, que continua a crescer e que é, de facto, uma paixão muito maior do que pensava ser. Aquilo que a música litúrgica pode fazer ao cristão, neste caso, é tão grande que não consigo expressar por palavras.

Tive uma educação cristã católica que fez com que os meus pais me levassem sempre à missa, desde pequena. Fiz todo o percurso da catequese acompanhada da participação activa nas missas dominicais da minha paróquia: Santos Reis Magos, Campo Grande (Lisboa). Com 6 anos já cantava na missa. Poucos anos mais tarde, comecei a ser responsável pelo coro da missa das crianças. O facto de ter entrado aos 9 anos para o Instituto Gregoriano de Lisboa, onde fiz todo o meu percurso musical até entrar na ESML, fez com que contactasse com a música erudita, muitas vezes ligada à música sacra, que em tempos foi a música usada nas eucaristias. Cantar obras sacras de compositores como Palestrina, Duarte Lobo, Bach, Mozart, Poulenc, entre tantos outros, também fomentou este gosto. Tudo isto fez com que o meu interesse por este género musical crescesse e se tornasse uma prática regular.

Como, quando e por que se envolveu no Ensemble São Tomás de Aquino?

Mais tarde, não só conheci os nossos compositores litúrgicos do séc. XX e XXI como comecei a interpretar as suas músicas na Igreja de São Tomás de Aquino, com o maestro e compositor João Andrade Nunes que, entretanto, estava a reunir um grupo de cantores para fazer algumas missas e alguns concertos, contando também com a presença do excelente organista e grande amigo André Ferreira. Rapidamente percebi que ali tinha um fantástico grupo de pessoas (já conhecia alguns elementos, alguns deles, grandes amigos), onde tive um acolhimento muito caloroso. Sem dúvida, uma comunidade no verdadeiro sentido da palavra. Poder fazer música de boa qualidade naquela Igreja e com aquele grupo cativou-me muito.

Curiosamente, já tinha contactado com a paróquia de São Tomás de Aquino, em 2010, pois precisei de um local de ensaio da disciplina de música de câmara, juntamente  com uma grande amiga organista Jacinta Correia, em conjunto, na ESML. Aí conheci o Pe. Nélio Pita, motor essencial da criação e manutenção do Ensemble São Tomás de Aquino. Uns anos mais tarde, como referi, conheci o maestro do Ensemble STA. Neste momento sou cantora (alto) e maestrina no referido Ensemble. Ao assumir estas funções, sou responsável pela preparação vocal do agrupamento, faço alguns ensaios, montagem de programas e dirijo algumas eucaristias ou momentos performativos, como concertos ou outros eventos.

No passado mês de setembro, o Ensemble STA gravou o seu primeiro projeto discográfico intitulado: “Vimos do mar e da montanha”. Foi um projeto verdadeiramente exigente mas que nos fez crescer a todos. Ter a oportunidade de gravar este disco com a presença permanente dos compositores Alfredo Teixeira e João Andrade Nunes foi um privilégio e uma enorme riqueza no processo criativo. Espero que seja o primeiro de muitos e que possa chegar a muitos lugares onde se pratica a música litúrgica, bem como às colunas de som de muitas casas! Que seja veículo de oração, meditação e louvor para muitos.

Qual o conselho que deixaria a alguém que ambiciona trabalhar nesta área?

Se é mesmo a direcção coral que quer, então coragem e muita resiliência no trabalho que vai ter pela frente! A boa formação é o pilar para uma carreira de sucesso; por isso, não deve ser descurada. O aperfeiçoamento das técnicas do canto e piano são fundamentais: deve apostar numa boa formação vocal e a nível pianístico. Por fim, ser genuíno e trabalhar a relação com as pessoas são elementos essenciais de um bom maestro.

Parceiros Premium
Parceiros