Maria de Lourdes Lopes Dias: de advogada, aos 38 anos, a escritora aos 80

Ao longo da vida, Maria de Lourdes Lopes Dias revelou-se sempre uma lutadora. Foi secretária de um advogado durante 20 anos até se formar ela própria em Direito, aos 38. Mais tarde abriu a sua sociedade de advogados e viajou pelo mundo. Aos 79 escreveu o seu primeiro livro e, hoje, dois anos depois, já vai a caminho do terceiro.

Aos 81 anos, Maria de Lourdes Lopes Dias prepara o seu 3º livro em menos de três anos, depois de uma carreira de quatro décadas na advocacia.

Maria de Lourdes Lopes Dias é o exemplo de quem lutou, desde muito cedo, para transcender um início de vida marcado pela tragédia. Não foi à toa que escolheu “A Menina do Olhar Triste” para título do seu primeiro livro, publicado em 2016, aos 79 anos: é essa a imagem que transparece da fotografia de infância que nos aparece logo nas primeiras páginas. Aos cinco já tinha perdido o pai, a mãe e cinco irmãos mais velhos para a tuberculose, além de outros elementos da família. Mas esse mesmo olhar da fotografia foi sendo substituído, ao longo dos anos, por um outro, bem mais alegre e otimista.

Nasceu em Setúbal, em 1937, a mais nova de oito filhos do dono de uma fábrica local. Com a perda dos pais, um tio encarregou-se de a colocar no Colégio Sagrado Coração de Maria, como interna, e aos seus dois irmãos sobreviventes na Casa Pia. “Ainda conservo amigos desse tempo”, diz-nos. As férias fora da instituição eram primeiro passadas em casa da madrinha, “uma senhora muito rígida” e, mais tarde, em casa de uma família amiga, os Rosado Fernandes.

Começou a trabalhar aos 19 anos, quando respondeu a um anúncio que pedia dactilógrafa para o escritório de um advogado. Os seus conhecimentos de inglês, francês e de algum alemão valeram-lhe o emprego. “Ele tinha um feitio desgraçado. Ao fim de 15 dias de eu lá estar, zangou-se com a secretária dele, que se foi embora. Fiquei no lugar dela e ele disse-me: ‘se eu me zangar consigo, a menina também se vai embora?’ Depende da zanga, respondi. Acabaram por ser 20 anos. Foi uma experiência muito importante para mim, na qual aprendi e que me introduziu à prática do Direito. Sabia como se fazia uma contestação, por exemplo.”

Espírito independente

Alguns anos após a sua contratação, um colega do patrão sugeriu-lhe que estudasse Direito. Aceitou o desafio e matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Tirou o curso “devagar”, explica, porque o facto de não haver aulas em horário pós-laboral tornava muito difícil a conciliação entre trabalho e estudos. “Acabei por me formar mesmo em cima da Revolução, com 38 anos.”

“Sempre senti que não seria bem recebida num dos grandes escritórios de advogados da época, por isso decidi trabalhar sozinha. O pós-revolução foi um período financeiramente muito complicado e muitas sociedades passaram por dificuldades. Mas eu fui-me mantendo, enquanto algumas delas desapareceram.”

O grande sentido de independência que se habituou a ter desde nova foi fruto das contingências, diz. “Não tinha de quem depender, não podia ser de outra forma.” Movida por ele, viria a optar por abrir a sua própria sociedade de advogados, a Lopes Dias & Associados. As mulheres ainda estavam em franca minoria na advocacia, quando iniciou carreira na área, no final dos anos 70. “Não sei se era eu que não ligava a isso, ou se achava que era suficientemente boa para vingar sozinha”, sorri. “Quando me formei, pensei para comigo: ‘E agora? Como vou iniciar atividade?’ Comecei sozinha, num espaço com mais dois advogados, que começou a ser pequeno a certa altura. Por isso, mudei-me para um escritório em Santos, onde ainda hoje funciona a sociedade — chegámos a ser 10 advogados lá. Sempre senti que não seria bem recebida num dos grandes escritórios de advogados da época, por isso decidi trabalhar sozinha. O pós-revolução foi um período financeiramente muito complicado e muitas sociedades passaram por dificuldades serias. Mas fui-me mantendo, enquanto algumas delas desapareceram.”

Logo no início da carreira, um dos seus melhores amigos perguntou-lhe se estava interessada tratar de processos ligados à Reforma Agrária. “Aceitei, queria começar a trabalhar. Lá ia eu ao volante do meu Mini Cooper, pelo Ribatejo e Alentejo fora, para os centros de reforma agrária. Representávamos os proprietários de terras e tínhamos que lidar com os ocupantes, que não nos queriam muito bem, como se pode calcular. Mas foi um período que me deu muita experiência.” Apesar dos ânimos exaltados desse período quente, e de ser a única mulher advogada naquela equipa, afirma que nunca passou por situações complicadas nessas reuniões.

A par dos processos da Reforma Agrária, tratava também de casos de Direito de Família. “Mas depois não dormia à noite a pensar nos dramas a que assistia. Apesar de tudo, os dramas empresariais sempre são menos traumáticos e mais objetivos.” Por isso, especializou-se em Direito Comercial e, ao longo das décadas seguintes, foi-se focando em áreas como Direito das Sociedades, Fusões e Aquisições, Direito Farmacêutico, Propriedade Intelectual, Direito das Novas Tecnologias, Investimento Estrangeiro e Contratos Internacionais.

Viagens inesquecíveis

Também esteve sempre ligada a organizações internacionais de advocacia, como a Association Internationale des Jeunes Avocats e, mais tarde, a International Bar Association. Os congressos de Direito a que assistia deram-lhe uma janela para o mundo e para a aprendizagem com colegas estrangeiros. “Ia sempre muito entusiasmada porque ia aprender, encontrar amigos e divertir-me num concentrado de atividades muito estimulante. Corri mundo. Dava-me imenso gozo! Na Europa, só me faltou visitar a Islândia, a Roménia e a Bulgária. Estive na Índia, China, Japão, Argentina; conheci várias cidades dos Estados Unidos e do Canadá.”

“É preciso virarmos a página a certa altura da nossa vida. Não sinto nenhuma falta de exercer; foi fácil substituir o Direito por outra coisa.”

Viajar é ainda hoje um dos seus grandes prazeres. Marcaram-na as visitas à China, onde se impressionou com a Grande Muralha e a Cidade Proibida; à região dos lagos da Patagónia, e a Israel. “Para um católico, a peregrinação à Terra Santa é muito importante. Por razões diferentes, também gostei muito de Machu Picchu, no Perú, e Chichén Itzá, no México.” Também se deixou fascinar do outro lado do mundo. “Adorei a Austrália! Fui à Ópera de Sidney e fiz um passeio inesquecível pelos recifes de coral. Quando regressei pensei que era pena ficar tão longe, caso contrário acho que regressaria lá todos os anos.”

Maria de Lourdes Lopes Dias na Austrália, “a conversar com um canguru”, lembra.

Em novembro de 2015 decidiu finalmente reformar-se. “É preciso virarmos a página, a certa altura da nossa vida. Não sinto nenhuma falta de exercer advocacia; foi fácil substituir o Direito por outra coisa. Foi uma mudança ótima que fiz rapidamente na minha cabeça. O Direito já tinha deixado de ser interessante para mim. Além disso, a crise foi séria e sentida por todos os advogados.”

Em Cuszco, Peru, a caminho de Macchú Pichú.

Escrever livros e “virar a alma do avesso”

A aposentadoria soube-lhe, por isso, a liberdade. Sempre tinha gostado de escrever e, ao longo da vida, além de inúmeros artigos sobre matérias jurídicas publicados internacionalmente, foi deixando alguns pensamentos registados sobre a sua vida pessoal. Foi uma amiga psicóloga clínica que a incentivou a publicá-los sob a forma de autobiografia. “Pensei no porquê de publicar um livro, se ninguém me conhece, o que sou e o que fui. ‘Vai tudo depender da forma como o apresentar’, respondeu-me ela.”

“Escrever ‘A Menina do Olhar Triste’ foi uma espécie de catarse. Depois de o ler, uma amiga de longa data disse-me: ‘Tu viraste mesmo a tua alma do avesso!’ Tinha-me saído tão naturalmente que nem o senti.”

“A menina do olhar triste” viria a ser publicado em edição de autor, em 2016. Já tinha uma parte dele escrita, lembra. “Por isso, também não obedecia propriamente a uma cronologia. Foi uma espécie de catarse. Depois de o ler, uma amiga de longa data disse-me: ‘Tu viraste mesmo a tua alma do avesso!’ Tinha-me saído tão naturalmente que nem o senti. Não lamentei nada do que relembrei e gostei de o ter escrito. Dizem-me que acontece a muitos autores, e é engraçado, mas desligamo-nos dos livros a partir de certa altura.”

Mas não ficaria por aí. Em setembro de 2018 publicou “A árvore de Jacarandá”, a sua 2ª obra, desta vez de ficção, mas “com muita coisa inspirada na sua vida”, confessa. “Há um bocadinho de mim nas várias personagens. Já tinha este livro na retaguarda há muito tempo e ele foi aparecendo.” Editado pela Ideia Fixa, uma chancela da Alêtheia, teve lançamento no Grémio Literário.

Maria de Lourdes Lopes Dias já prepara o terceiro livro, inspirado num dos casos que mais a marcaram durante a carreira legal, na área do direito sucessório e direito criminal. “Foi um caso espantoso de que tratei e que me veio via processos de Reforma Agrária. Era um requerente expropriado, disse-me ao que ia e depois perguntou-se se poderia tratar também de outras questões. Uma história muito interessante, mas terrível para ele. Foi de uma injustiça e aldrabice horríveis, produto de uma mente completamente retorcida.”

Quando lhe dizem que gostaram de ler um dos seus livros “sente-se muito contente”, diz. “Acho que é muito importante irmos deixando bom rasto.” Quando não está a escrever, mantém uma agenda ocupada e saudável. “Gosto de fazer caminhadas, vou à hidroterapia — sempre gostei muito de fazer exercício — e passo muito tempo com as minhas amigas. Gosto de almoçar com elas — é uma atividade importantíssima! Estou em boa forma, graças a Deus e à minha disciplina.”