Margarida Reis: das telecomunicações para os produtos biológicos

Depois de uma carreira na PT, Margarida Reis dedicou-se à produção biológica, numa altura em que estes produtos ainda não eram moda. A sua visão e persistência valem hoje uma faturação de 6 milhões de euros na Equanto.

Margarida Reis é administradora da Equanto, um dos maiores fabricantes e distribuidores de produtos de origem biológica em Portugal.

Margarida Reis é administradora da Equanto, um dos maiores fabricantes e distribuidores de produtos de origem biológica em Portugal. Trata-se de uma empresa familiar que gere com o marido, António, e os filhos, Daniel e Francisco Reis. Faturou, em 2019, cerca de seis milhões de euros.

Para a empresária, “o objetivo de um negócio vai muito para além da maximização dos lucros”. Passa também pela sua sustentabilidade no médio e longo prazo. Para que isso aconteça, diz que é preciso estabelecer objetivos ambiciosos, mas razoáveis, e estar sempre atenta ao mercado, “para ver o que ele nos diz”.

A gestora, que trabalhou mais de 20 anos na Portugal Telecom, hoje Altice, tirou o curso no Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa, e tem um mestrado pelo INDEG/ISCTE. Não se ficou por aqui, porque sempre sentiu necessidade de adquirir conhecimento, principalmente na área da comunicação, aquela que mais gosta. Talvez por isso saliente, entre outras formações que fez ao longo da vida, uma que reuniu pessoas de diversas companhias europeias de comunicação, numa altura em que se dizia que a PT iria ter uma gestão multicultural, mais global. “Hoje é algo banal no mundo dos negócios. Mas estava-se na década de 90…”, explica. Na altura já estava no operador de comunicações que deu origem à atual Altice Portugal, após quase uma dezena de anos de trabalho noutras empresas.

Realça também o curso que tirou em Alta Direção de Empresas, na AESE, em Lisboa, com colegas de outras companhias, como Paulo Teixeira Pinto, jurista, docente universitário, político e gestor, que foi presidente do BCP, e Ângelo Ramalho, atual CEO da Efacec. “É óbvio que uma pessoa não pode manter-se apenas com a formação de base”, defende, acrescentando que “o conhecimento tem de estar sempre a ser construído, adquirido e raciocinado, para ser aplicado à vida concreta das empresas”.

Inovação tecnológica

Um dos grandes desafios que encontrou quando começou a trabalhar na Portugal Telecom (PT) foi o da inovação tecnológica. Estava-se na era dos grandes computadores, e tudo o que era informática evoluía mais devagar. Pelo menos em relação ao que acontece nos dias de hoje.

Margarida Reis conta que, na altura, um dos cargos que desempenhou foi o da gestão de quadros superiores da empresa, cinco anos após ter entrado. “Eram, na altura, quase 1000 e eu tratava das suas admissões e promoções”, explica. Quando o ocupou, ainda tudo se passava no papel e as pessoas e os seus dados eram registados em grandes livros. “Foi uma luta conseguir um computador, porque estes apenas serviam, nas empresas, para as grandes aplicações”, conta.

Na altura estava a ser desenvolvida na PT uma para a gestão de recursos humanos, que levaria pelo menos mais um ano a ser implementada. Mas Margarida Reis precisava que tudo se passasse mais depressa, para concretizar o seu trabalho e da equipa que geria. “Lá consegui, com alguma dificuldade, um computador para o meu departamento, onde um jovem talentoso me fez uma aplicação para construir a base de dados”, conta. Quando o processo terminou, fez “questão de entregar uma disquete a cada um dos responsáveis, com uma solução para gerirem com mais facilidade as suas pessoas”, diz.

Outro dos contributos que salienta na PT foi a criação das primeiras feiras de emprego em Portugal, que decorreram depois de 1986. Na altura, “havia muito dinheiro e grande facilidade de aceder ao crédito, e qualquer empresa recrutava pessoas por avultadas somas de dinheiro”, conta. Mas na PT era preciso manter tetos e níveis salariais. Por isso, foi necessário usar as técnicas mais variadas para captar talentos. Uma das formas encontradas foram Feiras de Emprego realizadas no Instituto Superior Técnico. “Eram uma ótima solução de convívio e captação de pessoas para a empresa”, conta.

Assim que se reformou, Margarida Reis dedicou-se à empresa da família, a Equanto. O seu primeiro projeto foi o restaurante Origens Bio, que chegou a ter a mão do Chef Vitor Sobral.

A hora da reforma

Depois de ter tirado o mestrado, foi convidada para liderar e desenvolver a Unidade de Negócio Residenciais e deixou o sector de Marketing da empresa. “Tinha um número potencial de quatro milhões de clientes”, recorda a gestora.

Mais tarde foi para a SGPS do Grupo PT, a holding, onde foi responsável pelo Plano Estratégico do Grupo PT durante dois anos. “Implementei uma metodologia para a sua elaboração, e obriguei todas as mais de 100 empresas nacionais e internacionais do grupo a participar nele, já que os seus objetivos tinham de ser negociados”, conta. Eram atribuídos a cada gestor, e os resultados influenciavam os seus prémios, etc. Depois de dois anos de trabalho exigente, deixou a PT, na sequência da entrada de Zeinal Bava para a liderança da empresa. “Uma das primeiras medidas que tomou foi alienar todas as pessoas da holding”, conta Margarida Reis.

Na altura, faltavam apenas seis meses para ter condições para pedir a reforma. Mas não era o seu objetivo de imediato. Por isso propôs a criação de um departamento de Marketing na holding, onde ficasse integrada. Também o desenvolvimento de um projeto, aprovado pelo anterior executivo, de avaliação estratégica dos negócios. “Era muito exigente, e as pessoas não estavam para aí viradas, numa altura em que muitas das decisões na empresa eram tomadas por conveniência política”, conta a gestora. Em vez disso, “contratavam consultoras como a Mckinsey ou a Merrill Lynch para fazer as coisas”, acrescenta. Por isso ficou no Marketing, “a fazer trabalho para inglês ver”, até que passou o tempo necessário para a reforma.

Decorria o ano de 2003, e a saída de Margarida Reis da PT coincidiu com a mudança de instalações da Equanto para Arruda dos Vinhos. Fundada em 1995, com o objetivo de distribuir produtos biológicos em Portugal, tinha as suas instalações iniciais situadas junto ao Tejo, em Lisboa. A câmara local tinha constituído um polo empresarial para atrair empresas ao concelho, e vendeu os terrenos a preços atrativos.

Quando mudaram, Margarida Reis começou logo a trabalhar na empresa, para avançar com o projeto do restaurante Origens Bio. A ideia não era apostar nesta área, “mas sim usar o espaço como ponto de contacto com o mercado, para se perder um pouco o isolamento que existia, na altura, em relação aos produtos biológicos”.

Por causa do Origens Bio, cuja cozinha teve inicialmente o apoio de Vítor Sobral, chefe de cozinha que criou, entre outros, os restaurantes Tasca da Esquina e Peixaria da Esquina, a empresa e os seus produtos passaram a ser falados habitualmente na comunicação social.

Para que a apresentação aos jornalistas tivesse mais impacto, decorreu em simultâneo com o lançamento de uma marca de café biológico da Delta. Depois, a organização de destaques semanais para a cozinha de determinados países alicerçou a presença nos media e despertou o interesse do público. Margarida Reis destaca, em especial, a embaixadora do Perú, na altura.  “Um dia, telefonou-me a perguntar-me porque não incluía o país dela”. Após uma reunião na embaixada, seguiram-se quatro semanas sobre o Peru, sempre com temáticas diferentes, incluindo, entre outros, histórias, têxteis, arte, música, do país. No dia em destaque, o restaurante era decorado a rigor e o chefe de cozinha da embaixada estava presente, para apoiar o residente e dar uma pitada de charme ao evento.

A Equanto foi a primeira empresa do sector a colocar produtos biológicos nas grandes superfícies, mas as pessoas ainda não estavam despertas para esta nova realidade.

Desafio angolano

Entretanto a Equanto continuava ao seu caminho. Foi a primeira empresa do sector a colocar os seus produtos nas grandes superfícies, inicialmente do grupo Sonae, mas as vendas eram escassas, porque as pessoas não estavam informadas e os produtos eram, por isso, pouco apelativos. Como exemplo, Margarida Reis lembra que a empresa tinha uma unidade de processamento de carne biológica, e que os produtos deste tipo apenas conseguiam ser vendidos no mercado como convencionais.

Em 2008, numa altura em que a família estava a pensar reforçar a aposta na Equanto, surgiu um desafio de um empresário angolano, conhecido de António Reis, o marido, para implementarem um centro empresarial na fronteira de Angola com a Namíbia. E foi assim que, durante três anos fizeram os projetos e selecionaram os materiais, que foram enviados para o local do empreendimento. “Avançou-se com a obra, até que a Sonangol a nossa vizinha do lado em África, começou a avançar e a retirar-nos terreno”, conta Margarida Reis, acrescentando que, por isso, tiveram de desistir do projeto.

Entretanto, e apesar de o resto da família ter demonstrado vontade de vender a Equanto, Margarida Reis opôs-se e ficou a gerir os seus destinos, descontinuando apenas o negócio da carne. Sentia que o sector de produtos biológicos iria crescer mais num futuro próximo, tal como acabou por acontecer. Para além disso, a empresa já tinha, na altura, marcas de qualidade implantadas no mercado, como os iogurtes Pur Nature.

“Fiquei mais à vontade com os iogurtes, refeições congeladas e restante portefólio que tinha na altura, quando começámos a usar a marca Origens Bio.” Era o nome do restaurante e é a marca em que a empresa está a apostar mais.

A primeira referência que tinham colocado, Viver Mais, tinha sido descontinuada por razões legais. “Disseram-nos que, em termos normativos, o nome da marca influenciava os clientes, que poderiam pensar que iriam viver mais com os produtos”, explica Margarida Reis. Apesar de apenas serem obrigados a retirá-la em 2022, a empresa começou a fazê-lo e a apostar, logo em 2008, na Origens Bio.

Com o crescimento foi necessário contratar novos quadros, entre eles um diretor-geral e um diretor financeiro, “para respirarmos e podermos fazer um trabalho melhor”.

Mercado em crescimento

Quando acabou o projeto de Angola, os filhos optaram por apostar a fundo na Equanto. Mas não o fizeram sem tirarem uma pós-graduação em gestão, por imposição da mãe, “porque era muito importante ganharem competências ao nível financeiro”. Com a entrada em definitivo dos dois, o portefólio da empresa foi reanimado e reajustado em função de um target mais jovem, integrando fornecedores diferentes e sabores distintos. “Começámos, assim, uma nova fase, em que os pusemos à frente do touro, no coração da empresa, como responsáveis pelas áreas Comercial e de Marketing: escolha de produtos, negociação com fornecedores e clientes”, conta Margarida Reis, que ficou, como sempre, com os números, apesar de gostar sobretudo da área da comunicação. António Reis, o marido, “que consegue sempre ver tudo mais à frente”, é responsável pelo planeamento estratégico e relações com entidades bancárias, autárquicas e outras.

Quando o mercado abriu e a procura começou a aumentar, as grandes superfícies passaram a ter necessidade de compor os seus portefólios com uma oferta mais alargada e a implementar áreas de produtos biológicos. A Equanto passou a ter muito mais procura, “de tal forma, que estávamos já a rebentar pelas costuras nas instalações anteriores”, comenta Margarida Reis.

Foi nessa altura que decidiram mudar para as instalações atuais, um armazém de grande volume situado também no concelho de Arruda dos Vinhos. O processo, que incluiu, entre outros, a implementação de uma zona fabril, áreas de armazenagem e logística e escritórios, implicou um investimento de quatro milhões de euros. Com o crescimento, foi também necessário contratar novos quadros, entre eles um diretor-geral e um diretor financeiro, “para respirarmos e podermos fazer um trabalho melhor”, explica Margarida Reis. “Agora queremos consolidar em crescendo a empresa, e firmar as nossas marcas no mercado, diferenciando-nos da concorrência, se possível como a melhor empresa de oferta Bio do país, para vários momentos do dia”, acrescenta.

Todos os produtos Origens Bio podem ser comprados online, no site da marca.

Avanços para o exterior

Todos os produtos Origens Bio podem ser comprados online, no site da marca. “Mas queremos alargar o serviço a outras referências que oferecemos ao mercado”. Tanto para esta como para a Vegis, referência de produtos vegans e vegetarianos da Equanto, uma boa parte dos produtos são fabricados em Portugal ou feitos através de subcontratações em países como o Sri Lanka, onde é importado tudo que tem a ver com coco, Paquistão, de onde vem o sal dos Himalaias, e outras origens, como China, Turquia, Peru, Itália e Espanha, de onde chegam o azeite e os queijos de origem biológica.

Atualmente a empresa vende essencialmente em Portugal, mas estão a ser mantidos diversos contactos para exportar os produtos que fabrica. “O que está mais avançado é com a marca espanhola Alcampo”, revela Margarida Reis, acrescentando que há negociações a decorrer com mais cadeias de supermercados em Espanha e em países como França, Angola e Luxemburgo.

PRINCIPIOS DE GESTÃO DE MARGARIDA REIS

– Ética nas relações com os parceiros, sejam eles trabalhadores, clientes ou fornecedores;

– Garante de um bom relacionamento com os parceiros internos e externos;

– Cumprimento dos compromissos, sejam entregas, pagamentos, ou outras coisas quaisquer;

– Garantia da qualidade.