O meu maior desafio: Marta Araújo

Marta Araújo, administradora executiva da Castelbel, fez o doutoramento com o sonho de uma carreira académica. Porém, acabou por aceitar um desafio que a tirou da zona de conforto e a fez seguir uma carreira que nunca tinha equacionado.

Marta Araújo é Chief Marketing Officer da Castelbel.

Marta Araújo, 36 anos, é administradora executiva da Castelbel, empresa que produz fragrâncias de luxo para corpo e casa. Na fábrica de Castêlo da Maia, no Grande Porto, trabalham quase 200 colaboradores, na esmagadora maioria mulheres, que produzem sabonetes, difusores, velas, saquetas perfumadas e cremes, sobretudo, para exportação. Doutorada em Química pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, Marta Araújo estava longe de pensar no mundo corporativo durante os anos que dedicou à Academia. Foi um convite inesperado, há quase sete anos, que a fez abraçar este projeto que mudou completamente a sua vida. 

 

“O meu maior desafio foi-me colocado em 2011, quando, meses depois de concluir um doutoramento em Química (após mais de quatro anos de investigação teórica em Química Quântica – num vai e vem permanente entre a Faculdade de Ciências do Porto e o Imperial College London – e uma breve passagem pela UTAD para lecionar Química Geral a cursos de licenciatura), me foi dada a oportunidade de abraçar uma carreira naquele a que alguns chamavam “o mundo lá fora”.

Nessa altura, tinha eu 29 anos, 2 filhos (o primeiro tido durante a licenciatura e a segunda já durante o doutoramento), uma bolsa de investigação na área da Educação, na Universidade Nova de Lisboa, e o sonho (que trazia da infância!) de ser professora.

Foi então que recebi um convite para ingressar na Castelbel, fabricante nacional de fragrâncias de luxo para corpo e casa, onde já trabalhavam pessoas da faculdade onde me formei (o Diretor Geral tinha sido meu professor, bem como da Diretora de Operações e do Diretor de Qualidade, meu colega de licenciatura). A lógica por detrás do convite para promover e comercializar as marcas próprias da Castelbel no mercado global assentava na minha vivência internacional, fluência em línguas estrangeiras, conhecimentos de Química e Informática e uma evidente “vontade de fazer coisas”, tendo sido desencadeado pelo pedido de demissão da então diretora de Marketing e Vendas, de nacionalidade inglesa, que viria a mudar-se para uma empresa concorrente.

À pergunta “achas que consegues liderar o departamento de marketing e vendas?”, lembro-me de ter pensado algo como “claro que não, eu não percebo nada disso!”, mas respondido algo do género “hei de conseguir”; ao fim e ao cabo, depois de tantos anos a estudar, não podia deixar de seguir aquele que a minha intuição considerava ser o caminho certo por uma mera falta de formação: haveria de aprender tudo o que os livros, a internet e a experiência pudessem ensinar-me!

É que, apesar de saber que não tinha conhecimentos académicos nem experiência profissional relevante no setor, que estava a dar um salto invulgar e arriscado da Academia para a Indústria, e que, ao fazê-lo, viria a “matar” definitivamente qualquer hipótese de vir a ser docente universitária, aquela mudança radical de trajetória acabava por fazer sentido para mim. Afinal, tinha sido testemunha de transições semelhantes de vários ex-colegas no Imperial College (uns químicos, outros físicos), que, no final do doutoramento, tinham sido convidados para desempenhar funções em áreas aparentemente não relacionadas com a sua formação, como análise financeira e desenvolvimento de modelos preditivos em grandes bancos e seguradoras. Além disso, o que mais me atraía na profissão docente era o gosto pela comunicação, a possibilidade de formar e desenvolver equipas, de desenvolver novos produtos e processos, de viajar pelo Mundo e contar histórias que envolvessem as pessoas; ora, foi tudo isto que eu fui fazer para a Castelbel.

Passados quase 7 anos de plena realização pessoal e excelentes resultados coletivos, posso afirmar que tomei a melhor decisão da minha vida profissional quando decidi aceitar aquela proposta. Depois de mim, outras pessoas com perfis “invulgares” vieram juntar-se à nossa equipa: pessoas que, ainda que com falta de experiência profissional específica, apresentavam potencial, formação, competências, visão global e as características pessoais certas para cada cargo. Traços comuns a todas elas? “Mundo”, autoconfiança, ambição, abertura à mudança e muita, muita dedicação.”