Magdalena Mook: “Temos de ser cuidadosos ao escolher um coach”

O coaching está em crescimento em todo o mundo, mas tem ainda algumas lutas pela frente. Magdalena Mook, CEO e diretora executiva da International Coach Federation, falou-nos sobre elas e sobre o panorama atual desta atividade, quando da sua passagem por Lisboa.

Magdalena Mook, CEO e diretora executiva do International Coach Federation.

O coaching é hoje uma atividade em franca expansão global. Mas um dos seus maiores desafios continua a ser o facto de muitos indivíduos se apresentarem como coach sem terem preparação adequada nesse sentido. Quem o diz é Magdalena Mook, CEO e diretora executiva da International Coach Federation (ICF), organização que a partir da sua sede em Lexington, no estado norte-americano do Kentucky, supervisiona a maior comunidade de profissionais de coaching do mundo, com mais de 32 mil membros inscritos globalmente, 130 dos quais em Portugal.

Com um mestrado em Economia e Comércio Internacional pela Warsow School of Economics, na Polónia, e uma formação em gestão e consultoria internacionais pela Copenhagen Business School, na Dinamarca, ela própria é uma coach experiente formada pelo College of Executive Coaching. Durante a sua liderança do ICF tem vindo a especializar-se em áreas como planeamento estratégico, competências culturais, ética, relações internacionais e board governance. Antes trabalhou com o Council of State Governments, associação que congrega funcionários dos três ramos do governo norte-americano, e com o programa ambiental da USAID para a região asiática. Hoje, integra também o Forbes Nonprofit Council.

Falámos com Magdalena Mook por ocasião da sua passagem recente por Lisboa, onde falou ao ICF Portugal sobre os desafios da atividade e o papel da organização que dirige. O ICF Portugal organiza também a “Conferência Anual de Coaching 2018: Preparar o Futuro”, que terá lugar em Lisboa, no dia 24 de outubro, e do qual a Executiva é media partner.

Disse que, há uns anos, as pessoas tinham receio de dizer que estavam a ser acompanhadas por um coach, com medo que os outros o interpretassem como falta de competência. Já ultrapassámos definitivamente este preconceito?
De facto, nos primeiros tempos o coaching era considerado como uma medida corretiva, especialmente na Europa. Desde então, tem vindo a ser visto como um sinal da confiança e investimento da empresa no indivíduo, mais como uma recompensa e como forma de o preparar para uma carreira de sucesso. Na verdade, muitas novas contratações pedem para ter coaching como forma de integração e como indicação clara de que o empregador quer que sejam bem-sucedidos e membros com contribuições relevantes para a equipa. As pessoas já falam com orgulho do seu envolvimento com um coach profissional. É uma mudança muito bem-vinda!

Quais são os maiores desafios que o coaching enfrenta atualmente?
Esta ainda é uma disciplina recente e, como tal, enfrentamos alguns desafios. Um deles é o facto de alguns indivíduos sem formação adequada se auto-intitularem coaches.

O que pode ser feito, então, para prevenir estas situações?
O coachig está a crescer pelo mundo fora e isso são notícias fantásticas. Mas é de extrema importância que os coaches tenham formação adequada enquanto profissionais. O ICF requer que os seus membros tenham treino enquanto profissionais antes sequer de se juntarem à organização. Na minha opinião, manter padrões elevados e relevantes, solicitando aos coaches que observem as normas, é exatamente o que é necessário para sermos ainda mais prevalentes. O ICF está definitivamente à frente nesta questão.

O que devem as pessoas saber antes de contratarem coach?
O coaching não é uma profissão regulada — ou, como costumamos dizer, é uma profissão auto-regulada por associações como o ICF. Por isso, temos de ser cuidadosos ao escolher um coach. Formação e treino adequados são uma das chaves, tanto como ser membro de um organismo profissional que dê fortes diretrizes de conduta ética e normas profissionais — não nos cansamos de dizer que as pessoas precisam de verificar as credenciais do seu coach, perguntar onde é que ele se formou, se pertence a alguma organização profissional, se observa algum código ético, se é certificado por um organismo independente. E depois fale com o seu coach, certifique-se que dali pode resultar um bom relacionamento — é tudo uma questão de parceria.

“Um coach não diz ao cliente o que fazer — isso é trabalho para os consultores. Um coach não vai tentar resolver traumas do passado — é para isso que existem profissionais de saúde mental.”

Num artigo recente, escreveu “Descubra o que é o coaching e aquilo que não é”. O que não é, definitivamente, o coaching  e que expectativas erradas ainda têm as pessoas sobre esta atividade?
De acordo com o PwC Awereness Study, mais de 68% da população mundial está ciente de que existe o coaching profissional. No entanto, continuam a existir falsos conceitos. O ICF define o coaching como a parceria com um cliente, num processo desafiador do pensamento que lhe permite atingir o seu mais elevado potencial. Parceria é uma palavra-chave. Um coach não diz ao cliente o que fazer — isso é trabalho para os consultores. Um coach não vai tentar resolver traumas do passado — é para isso que existem profissionais de saúde mental. Um coach ajuda um indivíduo a chegar ao fundo das suas necessidades e aspirações mais profundas, a estabelecer metas e a traçar o caminho para lá chegar. E depois será um parceiro de confiança no processo de tornar o cliente responsável pelas suas ações e pelo seu progresso.

Que tipo de trabalho ou objetivos procuram as empresas hoje em dia, quando contratam um coach para trabalhar com os seus quadros?
Os objetivos são sempre específicos das organizações. De acordo com o PwC Global Coaching Study, as razões mais comuns para as empresas procurarem parcerias de coaching são a melhoria do trabalho de equipa, aumentar a produtividade, melhorar a comunicação e, claro, os resultados financeiros.

Que países a têm surpreendido mais, pelo seu progresso neste tipo de atividade? Que avaliação faz do desempenho e das oportunidades de mercado para o coaching, em Portugal?
A área do coaching tem crescido em todo o mundo. O número de membros do ICF aumentou 33% nos últimos cinco anos. Recentemente, temos assistido a um crescimento especialmente rápido no Médio Oriente e na região da Ásia-Pacífico. Portugal tem vindo a crescer também, com um aumento de mais de 23% nos últimos 5 anos. O mercado está a crescer, à medida que mais pessoas tomam conhecimento do que é o coaching profissional e podem pagar esses serviços. Muitas corporações constroem fortes culturas de coaching, oferecendo esses serviços a toda a empresa, expondo as pessoas a esta modalidade poderosa desde muito cedo nas suas carreiras. O futuro é auspicioso para os coaches com boa formação e com bom treino. É transformador como mais nenhum outro serviço.

Fale-nos do seu trabalho no Forbes Nonprofit Council.
A minha filiação no Forbes Nonprofit Council permite-me partilhar a minha experiência profissional de quase 20 anos com o universo de organizações sem fins lucrativos, em particular na gestão de associações. O setor não-lucrativo tem características próprias que o diferenciam do mundo corporativo, e as organizações de associados são ainda mais diferentes. Adoro poder partilhar as minhas visões, tanto quanto adoro aprender com os meus colegas e pares. É um privilégio poder ter voz neste debate.