Made in Portugal: os exportadores portugueses

A indústria do calçado português passou da extinção, anunciada em 1995, para se tornar na "mais sexy da Europa", como apregoava uma campanha de 2013. Foi uma revolução exportadora bem sucedida, descrita, entre outros casos, no mais recente ensaio editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

As vendas ao exterior de produtos nacionais têm aumentado nos últimos anos.

A notícia da morte da indústria do calçado português na década de 90 do século passado foi “claramente exagerada”.  As exportações aumentaram mais de 50% nos últimos seis anos. Em 2015, o sector exportou 79 milhões de pares de sapatos, que valeram 2 mil milhões de dólares, com um preço médio  de 26,08 dólares, só batido pelo calçado italiano (46,21 dólares) e francês (28,65 dólares).

Tal como o calçado, o turismo vive um bom momento. Numa década duplicou a sua importância no PIB, situando-se hoje nos 8,2% da riqueza criada no país. Entre 2010 e 2014, as receitas turísticas internacionais creseram uma média anual de 8,2% em Portugal, mais do que o aumento registado pelo mercado espanhol (4,5%), mediterrânico e europeu (5,4%) e mundial (6,5%).

A crise económica que Portugal atravessou a partir de 2009, e que levou à intervenção da Troika em 2011, teve, entre outras consequências, o aumento das exportações no Produto Interno Bruto português (PIB). Entre 2008 e 2015, o peso das exportações no PIB cresceu 10 pontos percentuais, passando de 31% para 41%. As exportações portuguesas atingiram sempre valores acima da taxa de crescimento das importações mundiais, aumentando a quota de Portugal no comércio mundial da generalidade dos produtos.

“Mas o facto mais relevante desta última década foram as mudanças na estrutura sectorial das exportações portuguesas, que assumiram uma nova configuração depois de 2005”, como escreve o jornalista Filipe S. Fernandes (que é colaborador e blogger (Leitura Diagonal) da Executiva), no novo ensaio da Fundação Francisco Manuel dos Santos, Made in Portugal – Os Exportadores Portugueses. Nas décadas de 60 a 80, os têxteis, vestuário e calçado foram responsáveis por mais de 50% do crescimento das exportações. Nos anos 90, a maior parte das vendas ao exterior eram dos sectores das máquinas e automóvel. Desde 2005, em simultâneo com o renascimento de sectores tradicionais como o vestuário e o calçado, e a manutenção da importância de sectores como o automóvel e máquinas, o bom comportamento das exportações ficou a dever-se a sectores tão diferentes como a agricultura e a indústria alimentar, a pasta e papel, mobiliários, produtos metálicos, plásticos, produtos petrolíferos, indústria química e farmacêutica.

Como refere Filipe S. Fernandes, “estes números só projectam a importância do fenómeno. Na sua sombra estão empresas e empresários de vários sectores e de várias regiões que têm uma história para contar.” Que rostos estão por detrás das empresas que levam a marca Portugal aos cinco continentes? Que produtos são o el dorado da exportação e o que mudou na sua composição?

Nesta obra fica patente como o aumento das exportações registado nos últimos anos e a “subida na cadeia de valor em sectores como o calçado, os têxteis, a agricultura e a agro-indústria, os produtos metálicos, as máquinas, o automóvel e a aeronáutica, o turismo ou transportes, o software e a saúde passaram por iniciativas empresariais inovadoras em que se coordenaram com empresas e associações, centros tecnológicos universidades e instituições públicas”.  “A mais-valia da exportação está cada vez menos nas mercadorias que enviam por contentor para um mercado mas mais, por exemplo, na concepção de um produto ou de uma máquina e na distribuição com marca, a que poderíamos chamar ‘internacionalização”, como escreve o autor. Basta passar os olhos pela lista de empresas portuguesas que são líderes no mercado ibérico europeu ou mundial para se perceber a dimensão desta aventura, em que às empresas portuguesas foi exigido “mais a têmpera dos navegadores do tempo das Descobertas do que a astúcia do Oliveira da Figueira do Tintim”.