Madalena Motta, da Gorreana: “Ter uma empresa de chá na Europa é uma ‘loucura'”

Madalena Motta faz parte da sexta geração à frente da Fábrica de Chá Gorreana e preserva um legado com mais de 130 anos de cultivo e comercialização de chá. Nesta entrevista, fala-nos do seu percurso profissional, da responsabilidade de liderar uma empresa centenária e daquilo que faz da Gorreana um chá tão especial.

Madalena Motta acompanhada por alguns trabalhadores da fábrica.

Chama-se Gorreana e é a mais antiga plantação de chá na Europa, em funcionamento ininterrupto desde que abriu portas em finais do século XIX, mais precisamente em 1883, quando Ermelinda Gago da Câmara e o seu filho, José Honorato, abriram a fábrica e venderam a primeira produção de chá.

A chamada “crise da laranja”, que em meados do século XIX assolara os Açores, fez com que a produção e exportação de laranja, até então um dos grandes motores da economia da ilha, diminuisse drasticamente, dando espaço para que a produção de chá se tornasse numa das ocupações mais promissoras na região. Desde então, muitas fábricas acabaram por fechar portas, o que não aconteceu com a Gorreana, que se mantém de pé e a crescer.

Quem visita a ilha de São Miguel, nos Açores, sabe que a fábrica, localizada na Gorreana, freguesia da Maia, e que emprega 50 pessoas, tem as portas abertas ao público, convidando quem lá vai a provar os chás ou simplesmente a visitar as instalações, que conservam máquinas centenárias a datar de 1840, e a plantação, que atualmente se estende por uma área de 35 hectares. Na Gorreana, o chá é selecionado à mão e está livre de qualquer tipo de químicos, uma vez que o clima húmido da ilha faz com que as pragas típicas da planta do chá não sobrevivam. Além do mercado interno, o mercado internacional é também uma grande aposta, especialmente em países como Alemanha, França, Estados Unidos e Canadá.

No comando da empresa centenária, está Madalena Motta, com a grande responsabilidade de perservar um legado familiar que já vai na sexta geração e de continuar a impulsionar o negócio. “O desafio é o de continuar o fio da linha da vida da fábrica”, conta Madalena Motta, nunca esquecendo os ensinamentos do pai, que a preparou para o cargo, e a “sabedoria do fazer” dos trabalhadores da fábrica.

Que memórias mais distantes guarda das suas vivências na fábrica?
Da Gorreana tenho as mais bonitas memórias e as mais distantes. Tenho a memória de andar nas cavalitas do tio João Criação, homem alto, forte, de bom porte e com um sorriso do tamanho do mundo. Quando me punha nas suas cavalitas, via a Gorreana com um superpoder, sentia-me uma criança livre nas alturas. Tenho a memória de um rancho de mulheres que vinham apanhar o chá, alegres e livres. Havia uma senhora mais velha a quem chamavam Tia Saca Meia e todos lhe davam o maior respeito. Aí percebi que na vida temos hierarquias e que a idade é o posto maior.

Tenho a memória da fábrica, do barulho repetitivo das máquinas, que se tornava numa música, e que em abril anunciava a vinda da primavera. O cheiro a chá que me fazia alegre e o toque que me arrepiava. A fábrica era na minha memória mais profunda um lugar mágico, forte, onde reinava o chá e os trabalhadores faziam a mais bonita magia de transformar as folhas em chá. Tenho a mais linda memória na sala de “murchamento”, quando as mulheres “viravam” o chá e este caía em cima de mim. Era como a sensação da chuva a cair na pele, leve, fresca, mas sem molhar. Tenho tantas memórias…

“No primeiro dia de trabalho o meu pai mandou-me para a sala do empacotamento. Estranhei, mas depois percebi, com o tempo, que foi uma manobra muito inteligente pois é nos trabalhos mais simples que se compreendem os mais complexos.”

Como se preparou para assumir a gestão da fábrica?
Sou a sexta geração da fábrica e aqui, na Gorreana, aprendi a ser mulher. A minha preparação foi com o meu pai, Hermano Motta, um homem que deu a vida pela fábrica, esquecendo-se de si. Com o meu pai aprendi a aprender com os outros, com os trabalhadores que têm a sabedoria do fazer, com os sábios como o Professor José Baptista e a Dr.ª Lizete, com a minha avó e o seu passado, com a história dos meus antepassados, que pela Gorreana viveram.

Aprendi e aprendo todos os dias com a minha irmã Sara, a ter os pés assentes na terra e a admirar o trabalho exemplar e difícil que faz. Trabalhei até aos 35 anos fora da fábrica e aprendi a ter regras, a ter um chefe, a ser responsável e a dar contas do meu trabalho. Fui professora de Desenho, História de Arte, Tecnologia da Madeira e Talha. Também trabalhei em restauro, no Palácio de Sant’Anna e noutros locais, onde restaurei ermidas, arte sacra e peças de arte. Quando fiz 35 anos foi altura de regressar juntamente com a minha irmã Sara e aí aprendemos nos mais simples trabalhos da fábrica. No primeiro dia de trabalho o meu pai mandou-me para a sala do empacotamento. Estranhei, mas depois percebi com o tempo que foi uma manobra muito inteligente pois é nos trabalhos mais simples que se compreendem os mais complexos. Ontem, hoje e amanhã continuo a aprender. Neste meu mundo existe gente muito simples e grandes sábios que me ensinam constantemente.

A Gorreana é a mais antiga fábrica de chá da Europa e já vai na sexta geração de mulheres à frente do negócio. Sente muita responsabilidade?
A responsabilidade que eu e a minha irmã sentimos é a de não errar, de não cumprir os nossos deveres como fiéis “líderes” da Gorreana. Temos sempre em mente não adulterar os valores desta casa, inovar, mas sempre com a constante lembrança de manter a tradição. E acima de tudo respeitar a nossa mãe e avó, que em nós depositaram a total confiança na liderança da fábrica.

Quais são os principais desafios de gerir um negócio familiar?
O desafio é o de continuar o fio da linha da vida da fábrica. Quando a fábrica nasceu vivíamos numa monarquia, hoje vivemos numa república. Um dia vamos morrer, mas a fábrica vai continuar. Somos uma empresa pequena no mundo do chá, mas o nosso sentido é o de fazer a diferença e a diferença faz-se com um produto de excelência, agarrando novos desafios, como o projeto que temos com a Universidade dos Açores, liderado pelo Professor José Baptista, onde fazemos investigação do chá e tornamos o chá Gorreana num produto inovador. O maior de todos os desafios é manter sempre a nossa qualidade, honrar a nossa história e conseguir sempre um lugar no grande e vasto mundo do chá.

“Quando assumi a liderança da Gorreana com a minha irmã Sara, estávamos num momento de crise. Depois da Revolução de Abril, o chá perdeu muitos clientes e os armazéns onde tínhamos o nosso chá, em Lisboa, foram nacionalizados. Ficámos sem nada.”

Quais as maiores dificuldades que se tem deparado desde que assumiu a gestão do Chá Gorreana?
Quando assumi a liderança da Gorreana com a minha irmã Sara, estávamos num momento de crise. Depois da Revolução de Abril, o chá perdeu muitos clientes e os armazéns onde tínhamos o nosso chá, em Lisboa, foram nacionalizados. Ficámos sem nada. Mas, como a vida é um recomeço, fomos recomeçando o nosso renascer. Quando assumimos a gestão da Gorreana, a Sara fez um trabalho excelente a organizar a parte da contabilidade. Eu fui a feiras, à procura de novos mercados, mas sempre com a liderança do meu pai, que nos ensinou a fazer um trabalho exemplar, e onde trabalhar muito e com foco era o nosso lema.

Quais os principais desafios que esta área de atividade enfrenta atualmente?
Na Europa, ter uma empresa de chá é uma “loucura”, pois a cultura requer muita mão de obra, que na Europa é cara, mas é o que é mais humano e certo. Como estamos na Europa e pelas razões que já mencionei, o chá tem um preço mais elevado. Uma das grandes dificuldades é ter um preço que, para nós, seja equilibrado e conseguir, pela qualidade, competir com as outras marcas, que têm preços muito baratos.

Quais os projetos futuros para a Gorreana?
A Gorreana tem vários projetos de obras, como a ampliação da fábrica na parte industrial. Como recebemos muito turismo vamos fazer obras na Casa de Chá e na loja, assim como na área envolvente da fábrica, devolvendo à Gorreana a sua tranquilidade. Também estamos a fazer novos chás com ervas aromáticas misturadas e estudadas pela Universidade dos Açores, em que o chá vai fazer ainda melhor à alma e ao corpo. Temos também um projeto muito interessante com o Professor José Baptista, que é um chá muito rico em teanina com propriedades ímpares, nomeadamente para a Doença de Alzheimer.

Qual é o segredo do sucesso do chá Gorreana?
Penso que o nosso segredo, além do chá ser um produto de excelência, também passa por ter uma família que cuida da Gorreana como se de uma mãe se tratasse e uma equipa de funcionários que honram o nome Gorreana.