Luisa Ribeiro Lopes: “A diversidade é um fator competitivo adicional”

Luisa Ribeiro Lopes é a nova coordenadora-geral do Programa INCoDe.2030, cargo que acumula com a presidência do Conselho Diretivo do .PT. Um dos seus principais objetivos é promover a igualdade de género com o objetivo de conquistar mais mulheres para o digital.

Luisa Ribeiro Lopes é coordenadora-geral do Programa INCoDe.2030 e presidente do Conselho Diretivo do .PT.

Luisa Ribeiro Lopes é presidente do Conselho Diretivo do .PT, entidade responsável pela gestão do domínio de topo nacional, o .pt, e coordenadora-geral da Iniciativa Nacional Competências Digitais e.2030, INCoDe.2030. Com especial destaque para a inclusão e para a inclusão de género, acredita que a inclusão digital é inclusão social. Dos vários objetivos a que se propõe, para além de querer colocar inevitavelmente Portugal ao nível dos países europeus mais avançados na dimensão digital, reforça também como sendo uma das principais conquistas, uma transição digital assente na promoção da igualdade de género, tendo em vista o aumento da participação das mulheres nesta área e o empreendedorismo de base digital que promova o desenvolvimento de novos produtos e serviços de valor acrescentado e com elevado potencial de crescimento e internacionalização.

Licenciada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, doutoranda em Estudos de Género pela Universidade de Lisboa, integrou vários grupos nacionais e internacionais para o desenvolvimento da Sociedade da Informação, tendo sido uma das responsáveis pelo projeto Açores: Região Digital, foi membro da Missão para a Sociedade da Informação, sócia fundadora da APDSI, membro do Conselho Estratégico da ACEPI e membro do Comité Executivo do MUDA – Movimento pela Utilização Digital Ativa. 

Sendo licenciada em Direito, o que a levou a interessar-se pela área digital e o que a fez persistir nela?

A minha formação de base em Direito foi uma opção com a qual me continuo a rever e que não está afastada do digital. O digital é transversal a todas as áreas e foi precisamente no âmbito do trabalho jurídico desta área que fui tomando contacto com o digital. A área do digital e sobretudo o desenvolvimento da comunidade internet em Portugal sempre esteve presente desde muito cedo na minha carreira e é algo que é apaixonante e que hoje se torna cada vez mais premente para pessoas, empresas e administração pública.

É importante que as empresas tenham um papel ativo na desconstrução deste preconceito de que a área das TIC é maioritariamente masculina

Que dificuldades e estímulos tem encontrado ao longo da sua carreira nesta área?

Ao longo do percurso nunca me foi fechada nenhuma porta por ser mulher, mas sempre senti que tinha de me esforçar e provar mais do que se não fosse. No que se refere à liderança o patamar é ainda mais exigente e continuam a persistir olhares diferentes da sociedade perante a existência de lideranças no feminino, especialmente e sobretudo no setor tecnológico.

Porque continua a haver tão poucas mulheres interessadas em fazer carreira nas áreas tecnológicas?

Estamos perante uma área tradicionalmente masculinizada e cujos estereótipos de género que persistem na sociedade em geral, e que se iniciam na infância, levam ao afastamento das raparigas e jovens do ensino TIC e que se reflete no mercado de trabalho.

O que podem as empresas fazer para atrair e reter mais talento feminino nestas áreas?

É importante que as empresas tenham um papel ativo na desconstrução deste preconceito de que a área das TIC é maioritariamente masculina, até porque já perceberam que a diversidade é fundamental e é um fator competitivo adicional. Por isso, as empresas devem apostar em políticas de igualdade de género em toda a linha (contratação, garantia de programas de capacitação tecnológica, igualdade salarial e acesso a cargos de liderança).

Só transversalizando a questão de género a todas as políticas e projetos podemos colocar Portugal ao nível dos países europeus mais avançados na dimensão digital assente na promoção da igualdade de género, de forma a aumentar a participação das mulheres nestas áreas.

O que explica que a maior parte das pessoas que não têm competências básicas digitais sejam mulheres?

De facto, o panorama ainda é desigual e a maior parte das pessoas que não têm competências básicas digitais são as mulheres. Ainda existe por parte da sociedade uma expectativa relativamente àquilo que é a mulher, mulher mãe, cuidadora, que trata das tarefas domésticas e que se espera que seja uma boa profissional. Com todas estas funções que lhe são atribuídas, as mulheres ficam sem disponibilidade para investir na sua formação e na sua atividade profissional, ficando assim mais limitadas do que os homens. Por outro lado, a exclusão digital mapeia-se com a exclusão social e sabemos que as mulheres são mais vulneráveis à exclusão social e enfrentam maior precariedade no mercado de trabalho.

Qual o papel que o Programa INCoDe.2030 terá para ajudar a resolver este afastamento das mulheres das tecnologias?

Só transversalizando a questão de género a todas as políticas e projetos podemos colocar Portugal ao nível dos países europeus mais avançados na dimensão digital assente na promoção da igualdade de género, de forma a aumentar a participação das mulheres nestas áreas. Um dos objetivos do Programa INCoDe.2030 é promover a igualdade de género com o objetivo de conquistar mais mulheres para o digital, assegurando não apenas as acessibilidades digitais a conteúdos e informação, mas também garantir condições de igualdade de acesso à educação, à formação profissional, à empregabilidade e às competências digitais na administração pública, nas entidades do setor social, nas empresas, na investigação e desenvolvimento e na produção de conhecimento. De modo a incentivar as mulheres a terem interesse por estas áreas, o Programa INCoDe.2030 tem colaborado com projetos como “Engenheiras por Um Dia”, “Eu Sou Digital”, “Upskills” na organização de iniciativas e eventos, que dão a oportunidade às participantes de conhecer quais as dificuldades, oportunidades e o trabalho de profissionais mulheres nesta área.

Necessitamos urgentemente de empoderar as mulheres como via mais rápida para se garantir a sustentabilidade do planeta. Este empoderamento traz liberdade de escolha e quando a vida oferece mais opções às mulheres elas fazem opções mais sustentáveis.

Que argumentos usa, habitualmente, para mostrar às mulheres a importância de se interessarem mais pelo digital?

O combate aos estereótipos no domínio digital está presente desde a escola até à qualificação profissional da população ativa e as mulheres têm capacidades para seguir estas áreas e desconstruir o preconceito. A aceleração da digitalização e a necessidade de competências digitais básicas tornou estas áreas mais transversais e com mais oportunidades, onde todas e todos temos lugar. Necessitamos urgentemente de empoderar as mulheres como via mais rápida para se garantir a sustentabilidade do planeta. Este empoderamento traz liberdade de escolha e quando a vida oferece mais opções às mulheres elas fazem opções mais sustentáveis.

Sendo uma das ainda poucas mulheres num cargo de liderança nesta área, que conselho deixaria a uma jovem que está hesitante em abraçar uma carreira na tecnologia?

Se realmente têm interesse nestas áreas é arriscar, porque mesmo com as minorias entre as maiorias, o valor do nosso trabalho fala mais alto e o mundo precisa de mais mulheres nas tecnologias. Não deve desistir, é possível quebrar preconceitos e demonstrar que “o lugar da mulher é onde ela quiser” e pode ser sem dúvida nas TIC. Citando Kamala Harris, “Podemos ser as primeiras, mas não seremos certamente as últimas”.

 

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