Let’s Talk About Money!: Investidoras precisam-se

A conferência "Let's Talk About Money!" reuniu um painel de oradores especialistas em questões financeiras e de desenvolvimento pessoal. Uma manhã para debater estratégias que levem as mulheres a não terem receio de falar sobre o seu dinheiro, seja no banco ou no local de trabalho.

A mesa redonda "Assumir as Rédeas do Seu Dinheiro" encerrou a Conferência Let's Talk About Money!

Quem chegou logo pela manhã desta segunda-feira ao Salão Nobre da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, em Lisboa, onde decorreu a Conferência Let’s Talk About Money!, encontraria na cadeira três moedas de um cêntimo. Serviriam para um exercício simples proposto por Susana Albuquerque, gestora, especialista em gestão financeira e coach em finanças pessoais: como encaramos este “achado”? Ficamos secretamente felizes, ainda que seja pouco dinheiro? Desprezamos completamente ou arrecadamos antes que alguém venha apropriar-se deles? Essa primeira reação diz muito sobre a nossa relação com o dinheiro. “Não é tudo na vida, mas é um veículo para a nossa realização pessoal”, um pensamento partilhado, quer pela coach em finanças pessoais, quer por Isabel Canha, a quem coube dar as boas-vindas à plateia de cerca de 180 pessoas, a maioria das quais mulheres interessadas em temas como a gestão de dinheiro, a mudança de atitude feminina relativamente à maneira como pensamos nele ou o investimento.

Susana Albuquerque centrou a sua mensagem no tema “Hábitos das mulheres que sabem gerir o seu dinheiro”. A importância do autoconhecimento, refletindo sobre os nossos valores, crenças, talentos e competências, propósitos e valor próprio, é o primeiro e decisivo passo para uma transformação na forma como gerimos e pensamos nas nossas finanças, defende. “A necessidade de educação financeira é transversal a todas as camadas da sociedade, independentemente do background e situação financeira”, disse a coach em finanças pessoais, cujo perfil de pessoas que acompanha vai dos sobreendividados até a quem herdou 2 milhões de euros e está em pânico porque não saber como gerir esse dinheiro.

Muitas destas inseguranças decorrem de crenças femininas, como o facto de se achar que gerir bem as finanças é complicado, que é egoísta pormo-nos em primeiro lugar ou que precisamos de alguém que tome conta do nosso dinheiro ou investimentos —não raras vezes, um homem. Susana Albuquerque falou ainda dos enviesamentos cognitivos e das emoções que permeiam negativamente essa nossa relação, como é caso do medo, ansiedade, culpa ou vergonha.

“A necessidade de educação financeira é transversal a todas as camadas da sociedade, independentemente do background e situação financeira.” Susana Albuquerque, gestora e especialista em gestão financeira.

Como fazer, então, escolhas conscientes neste campo? “Na minha experiência, aquilo que realmente funciona é parar. Sou particularmente entusiasta do mindfulness porque mudou a maneira como trabalho e aumentou o meu foco e concentração.” Aumenta ainda a criatividade, recurso humano inesgotável que pode ajudar-nos a gerir melhor o recurso finito que é o dinheiro. Susana Albuquerque salientou ainda a importância de sabermos reconhecer os dons e talentos únicos que nos permitem ganhar dinheiro, de desenvolvermos a nossa consciência de merecimento e de valor próprio, diversificando a nossa atividade profissional a partir desses diferentes dons que temos, tal como organizar o controlo das nossas finanças, fazendo orçamentos escritos das entradas e saídas de capital e instituindo o hábito da poupança sistemática.

Susana Albuquerque falou sobre os hábitos das mulheres que sabem gerir o seu dinheiro.

Investir é para si, sim

Paula Gil, diretora de particulares do banco BiG, veio, em seguida, responder à dúvida de muitas mulheres: “O investimento financeiro não é para mim?” A falta de tempo para tomar estas decisões de forma consciente, estudando os temas ou procurando aconselhamento sobre investimentos financeiros, a incapacidade de entender a linguagem usada pelos profissionais desta área, a típica aversão feminina ao risco e os relatos e memórias de experiências negativas neste campo, formam o catálogo de razões para as mulheres se sentirem menos inclinadas a investir.

A ideia de que temos quase de ser especialistas financeiras para decidirmos investir (e em quê) também é um mito a terminar. “Tomamos decisões importantes, nem sempre conhecendo todos os pormenores, como quando compramos uma casa ou um carro”, lembrou Paula Gil. “O nosso processo de decisão passa por nós próprias fazermos as perguntas certas em relação ao que queremos.” E as perguntas certas a fazer, de preferência com um especialista, são claras e simples: Quanto quero investir? Em quanto tempo quero obter o retorno do meu dinheiro e qual o retorno que espero? Qual é o risco que estou disposta a comportar, seja ele do mercado (quanto vale o investimento que fiz, dentro a 5 ou 10 anos) ou da zona geográfica a que está ligado o investimento (como no caso da compra de um imóvel, por exemplo).

“Ao investir, é preciso escolher um interlocutor que coloque o foco em mim e não no ‘produto do mês’; alguém preocupado em perceber o que eu sinto, do que preciso e que me saiba ouvir”, Paula Gil, diretora de particulares do BiG

“O investimento financeiro pode ser a alternativa para obter um rendimento extra, para um complemento de reforma e para diversificar as nossas fontes de rendimento”, reforçou esta responsável. A confiança é decisiva nesta equação. “É preciso escolher um interlocutor que coloque o foco em mim e não no ‘produto do mês’; alguém preocupado em perceber o que eu sinto, do que preciso e que me saiba ouvir. O segredo do sucesso das sensações positivas relativamente ao investimento é sentir que aquele produto financeiro foi pensado para mim e que ouviram as minhas necessidades”, resumiu.

Paula Gil clarificou o que ter em conta quando se investe.

A manhã contaria também com uma apresentação feita por Isabel Neves, presidente do Clube de Business Angels de Lisboa e vice-presidente da Federação Nacional de Business Angels — a única a mulher a fazer parte da direção desta organização, a primeira a constituir um clube deste tipo no nosso país e uma das poucas mulheres a dedicarem-se a esta atividade que junta o financiamento informal de startups com a mentoria. A investidora e mentora de negócios falou e explicou as características desta sua atividade, que desenvolve em paralelo com a advocacia, deixando uma mensagem importante: são precisas mais business angels femininas. “Há um gap enorme entre mulheres e homens investidores informais. Este é um mundo muito masculino.”

O perfil feminino de investimento é, tradicionalmente, mais conservador e avesso ao risco, confirma. Além disso, as mulheres têm também mais medo de se exporem, sobretudo quando o assunto é dinheiro. “Tem a ver com a dificuldade que temos de assumir que temos dinheiro para investir. Quando fui convidada para a primeira temporada do Shark Tank, a minha resposta foi negativa. Tinha medo de me expor.” Ao ultrapassar e repensar este receio, Isabel viria, de facto, a aceitar o convite para 2.ª temporada do programa.

“Se têm uma boa rede de contactos e know-how, não o apliquem só na mentoria e coaching: comecem a investir em novos negócios, por pouco que seja”, aconselha Isabel Neves, business angel.

Estudos recentes apontam para o facto de as empresas criadas por mulheres recolherem muito menos financiamento do que aquelas que são fundadas por homens, fenómeno atribuído à falta de investidoras. De entre as centenas de projetos de negócios que Isabel Neves recebe todos os meses, os femininos enquadram-se tipicamente em áreas tradicionalmente associadas às mulheres, como o setor alimentar, serviços, moda, cosmética ou produtos e serviços para crianças. “Têm muito mais dificuldade em serem bem recebidos por business angels homens, porque eles não estão tão sensibilizados por estas áreas; porque são projetos mais pequenos; porque a sua escalabilidade é muito menor e a rentabilidade será conseguida num prazo muito mais alargado. Para termos maior investimento para estes projetos, temos que ter, do lado dos investidores, alguém que os entenda — daí serem precisas mais mulheres. Se têm uma boa rede de contactos e know-how, não o apliquem só na mentoria e coaching: comecem a investir em novos negócios, por pouco que seja.”

Isabel Neves defendeu que é preciso haver mais mulheres investidoras.

Mudanças de atitude

Mas mesmo quando estão envolvidas no mundo corporativo, as mulheres têm uma atitude diferente dos seus colegas homens acerca de questões salariais ou de promoção na carreira. A necessidade de uma mudança de atitude feminina quanto a estes temas foi o foco da intervenção da coach executiva Aida Chamiça. “As poucas mulheres que acompanho são muito diferenciadas porque precisaram de construir os níveis de confiança e coragem que hoje as distinguem; são muito combativas. Mas, mesmo tendo uma amostra algo enviesada, noto diferenças na atitude face ao trabalho. Regra geral, as mulheres tendem a olhar para os pacotes salariais de uma forma mais global e com menos atenção ao detalhe do que os homens. É como se tivessem uma certa timidez quando se fala de dinheiro.” Para a executive coach, as mulheres posicionam-se muito mais na esfera da entrega, do compromisso e qualidade do trabalho em si. A crença limitadora de que é deselegante falar de dinheiro, muitas vezes transmitida pela educação, leva as mulheres a evitarem estes assuntos, mesmo quando têm o fórum certo para fazê-lo.

“As mulheres tendem a olhar para os pacotes salariais de uma forma mais global e com menos atenção ao detalhe do que os homens. É como se tivessem uma certa timidez quando se fala de dinheiro”, Aida Chamiça, coach de executivos.

O ideal, diz a executive coach, seria ter o à vontade necessário para abordar estes temas em momentos como as entrevistas de avaliação de desempenho, usando a empatia para falarem dos seus sonhos e aspirações, fazendo depois perguntas claras sobre questões salariais e de promoção. Mesmo para quem foi educada na lógica de que não é de bom tom conversar sobre temas financeiros, a transformação é possível. “Pode reformular o seu discurso e dizer: ‘até agora nunca me interessei sobre este tema, mas agora faz sentido. Vou ser uma pessoa informada, vou ter conversas sobre dinheiro e investimentos e quero sentir-me à vontade sobre este universo.” Para Aida Chamiça, seria benéfico que as empresas pudessem também apostar mais em workshops ou conferências de literacia financeira e que mais espaços de debate para estes temas possam nascer, incentivando as mulheres a procurar informação sobre a gestão do seu dinheiro.

Aida Chamiça deu algumas pistas sobre como ganhar confiança para falar de dinheiro no trabalho.

Assumir as rédeas das nossas finanças

Foi este o lema da mesa redonda moderada pelas fundadoras da Executiva, Isabel Canha e Maria Serina, e que contou com a participação de Ana Torres, executiva da Pfizer responsável pelo Western Cluster Lead Rare Disease, e presidente da PWN; Bárbara Barroso, fundadora do MoneyLab e do blogue As Dicas da Bá; Joana Janeiro, psicóloga clínica, Nuno Simões, Human Capital Coordinator da PwC Portugal, Cabo Verde e Angola; Paula Gil, do banco BiG, e Sofia Ribeiro, médica e consultora na área da saúde. Um tema crucial, se pensarmos que as mulheres vivem até mais tarde, continuam a ganhar menos que os homens, em média, e se divorciam cada vez mais.

“Em Portugal, as mulheres esperam que a empresa saiba o seu valor e o que fazem todos os dias. Podem estar completamente enganadas: ninguém sabe o que vocês fazem, a não ser vocês próprias, se não o disserem nos momentos certos”, Ana Torres, Western Cluster Lead Rare Disease, na Pfizer e presidente da PNN.

As diferenças entre géneros na hora na negociação salarial ou na abordagem às finanças pessoais foram os temas de abertura, com a psicóloga clínica a relatar como ainda existem, nas mulheres, sentimentos de “timidez e culpabilidade” na sua relação com o dinheiro. Não é o caso de Ana Torres. “Sempre me senti à vontade para, na discussão remuneratória, fazer valer o valor que eu tinha para organização. Nunca tive sequer a perceção de que estava a ser demasiado exigente.” Os homens abordam a questão da negociação salarial com alguma frequência e muita naturalidade, diz, sempre que têm mais um projeto, mais uma responsabilidade ou quando antecipam uma desigualdade entre os seus salários e dos seus colegas, enquanto as mulheres esperam pelas reuniões de avaliação de desempenho, de aumento salarial ou por uma mudança de funções. “Em Portugal, as mulheres também esperam que a empresa saiba o seu valor e o que fazem todos os dias”, viria a acrescentar mais tarde. “Podem estar completamente enganadas: ninguém sabe o que vocês fazem a não ser vocês próprias, se não o disserem nos momentos certos. A mudança de funções e os aumentos salariais são momentos para o fazer e para o dizer às pessoas certas nas organizações.”

“Vejo que as novas gerações encaram as questões salariais de forma distinta. Trocam mais informações entre si e não têm quaisquer problemas em perguntar diretamente porque é que as decisões são tomadas de determinada maneira.” Nuno Simões, Human Capital Coordinatior da PwC Portugal, Cabo Verde e Angola

As tabelas salariais em empresas como a PwC permitem despistar este tipo de divergências de forma mais transparente, como recordou Nuno Simões. “Vejo que as novas gerações encaram as questões salariais de forma distinta. Trocam mais informações entre si e não têm quaisquer problemas em perguntar diretamente porque é que as decisões são tomadas de determinada maneira. Parece-me é que as organizações têm de reformular a maneira como comunicam sobre dinheiro nas empresas.”

A millennial Sofia Ribeiro concorda. “As pessoas desta geração falam muito mais de dinheiro, sobre os seus projetos para ele e onde o querem investir. Nunca tive problemas em negociar salários, em pedir aumentos nos locais onde trabalhei. Mas já me aconteceu estar em negociações salariais, a explicar o que pretendia e como, qual a remuneração que achava justa, e a primeira pergunta que me faziam era ‘Então e é só isto que quer da vida? Não quer família, não tem outros projetos?’ Ou seja: ainda há muito o estigma de que a única razão para uma mulher querer mais desenvolvimento profissional ou mais dinheiro é por estar muito insatisfeita com outra parte da sua vida. Associamos ainda muito a procura do sucesso profissional com o homem.”

Da esquerda para a direita: Isabel Canha, Ana Torres, Bárbara Barroso, Joana Janeiro, Nuno Gonçalo Simões, Paula Gil, Sofia Ribeiro e Maria Serina.

As questões ligadas à aplicação de dinheiro em investimento foram também tema de conversa com Paula Gil, que observou que as mulheres fazem mais perguntas que os homens nessas situações, sendo a confiança e o contacto humano com o gestor de conta mais importante para elas.

“Enquanto jornalista a acompanhar a situação em vários bancos, vi pessoas perderem tudo que investiram porque não tinham literacia financeira. Não invistam naquilo que não conhecem.” Bárbara Barroso, fundadora do MoneyLab e do blogue ‘As Dicas da Bá’

“A literacia financeira em Portugal é má, para homens e para mulheres”, observou Bárbara Barroso, que dedica a sua carreira a este tema. “Portugal não é só Lisboa, nem os nossos amigos. Se formos mais para o interior, assistimos a assimetrias grandes na literacia financeira e na gestão do dinheiro. Enquanto jornalista a acompanhar a situação em vários bancos, vi pessoas perderem tudo que investiram porque não tinham literacia financeira”, lembrou Bárbara Barroso, que deixou o conselho: “Não invistam naquilo que não conhecem.”

Joana Janeiro raramente ouve as questões relacionadas com o dinheiro em consultório, mas acredita que é preciso tomarmos consciência do nosso valor e das questões que nos diferenciam enquanto mulheres. “A relação das mulheres com o dinheiro é muito mais emocional e afetiva — gastam dinheiro por amor, por generosidade, para cuidarem da família, por vaidade — enquanto que para os homens ela é muito mais focada, tem mais a ver com a questão do poder.”

No fim do debate, Paula Gil e Sofia Ribeiro partilharam a ideia de que a literacia financeira deve começar cedo e ser ensinada nas escolas, tal como o hábito de ensinar os jovens a poupar e a gerir os seus orçamentos. “Continuo a ver muito enraizado na nossa cultura a desresponsabilização das gerações mais novas relativamente ao dinheiro, pais a dizerem aos filhos que não precisam de trabalhar em part time porque não é preciso”, disse Sofia Ribeiro. “É importante habituar os jovens a gerirem o seu dinheiro autonomamente e a não dependerem dos pais para o fazerem.”