O lado B de… Helena Pereira Muelle

Investigadora na área da biotecnologia durante a manhã, esta engenheira química dedica as tardes à sua loja de vinhos, a Wines 9297. Há cinco anos conseguiu juntar estas duas paixões e vai despertando a paixão pelo vinho a quem visita a sua loja.

Helena Pereira Muelle divide o seu tempo entre a investigação e a Wines 9297.

Helena Pereira Muelle é investigadora e tem uma carreira longa na área da biotecnologia, uma das suas paixões. Mas dedica-lhe apenas as manhãs, já que as tardes são para viver a outra, a dos vinhos, na loja Wines 9297 que abriu em Telheiras há cinco anos.

Nasceu em Luanda, Angola, e veio com os pais para Portugal quando era miúda. Frequentou o liceu Camões e depois a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. “Gostava de Química, e resolvi estudar esta especialidade”, conta Helena Pereira Muelle, acrescentando que optou por especializar-se no ramo da Química Aplicada à Biotecnologia.

Mas diz que fê-lo antes do tempo. “Na altura, não havia tanta abertura das empresas para esta especialidade como há agora”, conta. Ainda pensou em ir para fora para seguir carreira, mas acabou por não o fazer. Estagiou na Petrogal, no Instituto Superior de Agronomia e foi bolseira em diversos projetos. “O meu foco sempre foi a investigação, que é o que mais gosto de fazer”, explica. É a sua vida ainda hoje, em tempo parcial, em paralelo com o trabalho que desenvolve na sua loja de vinhos.

A paixão pelos vinhos surgiu há vários anos e foi crescendo. Helena Pereira Muelle começou a provar vinhos com os amigos “e o bichinho” foi tomando conta dela, à medida que o conhecimento e o interesse sobre o tema também iam crescendo através de diversos cursos de prova. “Parece que quanto mais se prova vinhos, mais se quer continuar a provar, aprofundar, conhecer”, diz com entusiasmo. Como muita gente apaixonada pelo produto, ambicionava um dia fazer qualquer coisa ligada ao vinho, mas tardou em perceber o quê.

O momento de avançar

A oportunidade surgiu quando a Wine & Flavours, garrafeira de Telheiras que frequentava enquanto consumidora e enófila, fechou, em 2011. “Era um espaço grande e muito bem equipado”, conta Helena Pereira Muelle, que vive nas imediações e que sempre que passava à porta imaginava que o poderia gerir. Até ao dia em que percebeu que o espaço estava disponível para arrendar e pensou, desde logo, que era o momento certo para avançar.

Quando percebeu que poderia trabalhar em tempo parcial na faculdade, de manhã, e à tarde na loja, percebeu também, em conversa com o anterior proprietário, que a loja tinha uma renda demasiado elevada.

Como é investigadora, precisou primeiro de saber se poderia conciliar as duas actividades, pois não queria largar uma das coisas que mais gostava de fazer, a investigação, para se lançar numa aventura com riscos, apesar da paixão que sente pelo sector do vinho. Quando percebeu que poderia trabalhar em tempo parcial na faculdade, de manhã, e à tarde na loja, percebeu também, em conversa com o anterior proprietário, que a loja tinha uma renda demasiado elevada. Só que “nada surge por acaso”, e, em simultâneo, o espaço onde tem hoje a sua loja, ficou também disponível – fechou-se uma porta e abriu-se uma janela.

O passo seguinte foi convencer o marido, Alberto Goldstein, a envolver-se com ela num projeto que não o entusiasmava. “Mas sou mais atirada para a frente e positiva, e lá o convenci”, afirma.

Projeto familiar

E foi assim que surgiu, em Outubro de 2013, a Wines 9297. “É um projecto completamente familiar e as datas da marca são os anos de nascimento dos meus filhos”, diz a investigadora-empreendedora.

Quando abriu o seu estabelecimento, uma loja com um pequeno armazém, não quis ter empregados. É o que acontece ainda hoje, pois quer manter o contacto directo com os clientes, para dar a conhecer os vinhos que gosta de vender, “aqueles que não são tão divulgados noutros circuitos”, como as cadeias de supermercados. “Além de não conseguir competir com eles, há uma superfície comercial perto da minha loja, e não faz sentido ter as mesmas marcas nas prateleiras”, explica. Por isso, oferece referências que poucas casas comerciais disponibilizam em Lisboa, como os Dão do Tavares de Pina, os Mafarricos do Álvaro Martinho Lopes, o Esmero do Rui Soares, ou os Romano Cunha, de Trás-os-Montes.

O negócio tem crescido graças ao passa-palavra dos clientes que já descobriram a sua loja e que ali encontram vinhos diferentes dos que vendem as grandes superfícies comerciais.

Procura também oferecer, nas prateleiras, “coisas diferentes e novas”, que selecciona com critério, até porque não dispõe de muito espaço de exposição. São cerca de 500 referências, entre elas alguns “vinhos mais conhecidos e de renome nacional e internacional”, como os Pintas, Passadouro e Poeira, da Região do Douro; Quinta dos Roques e Passarella, do Dão, e Sidónio de Sousa e Quinta das Bágeiras, da Bairrada. Isto porque “as pessoas sentem-se mais confortáveis com estas marcas”, explica.

Seleção personalizada

Antes de escolher, prova sempre os vinhos, porque gosta de usar o seu gosto na seleção. Mas também procura aperceber-se das preferências dos seus clientes para o fazer.

No início, Helena Pereira Muelle fez alguma divulgação no bairro, distribuindo flyers pela zona. Mas foram essencialmente os amigos, que foram aparecendo, gostando do projeto e transmitindo isso a outros através do habitual boca-a-boca, que mais ajudaram à sua divulgação. Hoje continuam a ser mais as pessoas de Telheiras que procuram ali os vinhos para terem em casa, ou para acompanhar uma refeição especial, como aconteceu com uma professora universitária no dia em que a Executiva esteve na Wines 9297 para entrevistar a sua fundadora. Esta cliente tinha, para jantar, o seu orientador de tese, um norte-americano, e levou para casa duas garrafas de tinto do Douro e um Porto 20 anos para o final de repasto.

Helena Pereira Muelle vai conquistando mais clientes à medida que os aproxima ainda mais do mundo do vinho. Provas de vinho informais e conversas com enólogos e produtores aumentam o conhecimento e o interesse dos clientes.

Apesar de haver cada vez mais mulheres a visitar a Wines 9297, pois são cada vez mais as que gostam e sabem de vinho, a maioria dos frequentadores ainda são homens. Todos os sábados, a proprietária da loja abre uma garrafa para os clientes poderem apreciar enquanto escolhem. Também organiza, de duas em duas semanas, um evento que inclui uma prova informal na loja, sempre com a presença dos enólogos e/ou dos produtores.

“É preciso que as pessoas provem antes de comprar. Se não sabem o que é, muitas vezes não arriscam”, explica, acrescentando que todos os enólogos e produtores que participam nos eventos ficam admirados com o interesse e participação do público. “É, por isso, que faço questão que eles venham, pois é necessário responder às perguntas que fazem”, diz.

De manhã, Helena Pereira Muelle dedica-se à investigação, que continua a ser uma das suas paixões.

Lugar de experiências

Mais recentemente, Helena Pereira Muelle abriu outro espaço, perto da loja, ao qual chamou Laboratório. “É o espaço onde passo muitas horas do dia, e o nome faz sentido até porque este é, para mim, um lugar de experiências”, explica. Não químicas, mas vínicas, como é evidente.

O objectivo foi responder a uma necessidade dos clientes da loja que lhe diziam que não percebiam de vinho e precisavam de adquirir algum conhecimento que lhes permitisse, por exemplo, perceber melhor alguns termos nas conversas com os enólogos. E assim foram criados outros tipos de prova, em que 12 pessoas sentadas à mesa conversam com um enólogo ou produtor. Mas também há sessões temáticas em que Helena Pereira Muelle escolhe e conduz a prova. São habitualmente provas cegas, destinadas essencialmente à descoberta dos vinhos, onde se conversa muito, durante duas ou três horas, dependendo do entusiasmo dos participantes.

Os eventos, as garrafas abertas ao sábado para prova, a preocupação em ter vinhos diferentes, de origens mais desconhecidas do público como o Dão e a Bairrada, têm contribuído para que a segunda actividade de Helena Pereira Muelle, o seu pequeno negócio de vinhos, tenha um sucesso crescente. Cinco anos depois, esta engenheira química sente-se ainda mais envolvida nele e no sector, e com entusiasmo crescente para continuar.