Katya Ivanova: “Para começar uma relação é preciso confiança”

A búlgara Katya Ivanova, CEO da Grow Bridge Consulting, ajuda a estabelecer uma relação sólida entre grandes e médias empresas e startups: "quando a startup tem a solução que a empresa maior procura, encurta o processo da venda, que geralmente duraria entre 6 meses a 1 ano, para menos de 1 mês", garante.

Katya Ivanova é CEO da Grow Bridge Consulting,

Katya Ivanova nasceu na Bulgária, tornou-se empreendedora em Macau e hoje desenvolve a sua actividade em Lisboa. Percebeu que o ecossistema de startups tem uma falha e lançou o programa Go4Partners para a preencher, ajudando as empresas mais jovens a estabelecer relações de parceria com grande organizações. Nesta entrevista conta como tudo começou e o que pensa de Portugal.

Como foi o seu percurso escolar e profissional?
Quando era mais nova, ainda na Bulgária, eu era apaixonada por música. Por isso, tive formação em canto e flauta até 2009. No entanto, tinha também o bichinho por  perceber o comportamento humano na forma como é influenciado pelos sentidos, e pensei em estudar Marketing & Comunicação. Para tomar a decisão e identificar o meu caminho profissional, decidi fazer uma pausa nos estudos e conhecer outros países e culturas.

Iniciei a minha aventura visitando Portugal e, depois de alguns meses, surgiu a oportunidade de ir para Macau (China), onde acabei por ficar durante seis anos. Sempre com espírito aventureiro, na busca de novos desafios e com a ambição de crescer pessoal e profissionalmente, decidi tornar-me empreendedora. Em 2011 fundei a minha primeira empresa na área de Consultoria e Formação em Segurança, com sede em Macau. Esse período no mercado asiático, com uma cultura muito prática e metódica, influenciou muito a forma como hoje lido com os negócios. Aprendi a gerir as relações pessoais e profissionais de forma a atingir objetivos. Para empreender, é preciso estar disposto a lidar com riscos e desafios, mas sempre com uma estratégia “com os pés assentes na terra”.

Quando regressou para Portugal e porquê?
Em 2017 abracei um novo desafio na área de consultoria e formação em liderança, usando a experiência profissional adquirida em Macau. Esse novo projeto focava-se na formação em liderança a C-Levels de empresas e na organização de eventos de networking para empresários e empreendedores para promover negócios. Escolhi Portugal pois, embora este tenha uma cultura diferente da asiática, historicamente é dos países com mais proximidade a Macau. Partilham ainda a cultura, língua e formas de vida. O facto de ter aprendido a falar português em Macau facilitou ainda mais essa decisão.

Nas empresas grandes que existem os recursos e a capacidade de escala de soluções, e é nas startups que existe a celeridade na inovação e geração de novas soluções para o mercado.

Como e quando surgiu a ideia da Go4partners?
Durante essas interações entre empresas apercebi-me da falha que existe no ecossistema empresarial: a dificuldade de comunicação entre empresas grandes e pequenas (startups). Elas têm formas de trabalhar, comunicar e prioridades diferentes. Mas as empresas grandes precisam das pequenas e vice-versa! É  nas empresas grandes que existem os recursos e a capacidade de escala de soluções, e é nas startups que existe a celeridade na inovação e geração de novas soluções para o mercado. Foi então que decidi criar a empresa Grow Bridge Consulting, e desenvolver o programa Go4Partners.

Como é que a empresa desenvolve a sua actividade?
A Grow Bridge Consulting oferece uma gama completa de serviços de consultoria para apoiar as organizações em todas as fases da transformação digital: desde a concepção da estratégia digital até à otimização contínua, passando pela integração de tecnologia e sistemas. Trabalhando em estreita colaboração com a gestão de topo das organizações, utilizamos o nosso conhecimento e a experiência de sucesso para criar valor, desenvolvendo os nossos serviços em projetos inovadores e transformacionais.

O que o nosso programa Go4Partners faz é estabelecer uma relação sólida com empresas maiores e com startups, conectando ambas quando a startup tem a solução que a empresa maior procura, encurtando o processo da venda, que geralmente duraria entre 6 meses a 1 ano, para menos de 1 mês. Para além da apresentação, a Go4Partners ajuda a startup a posicionar-se no mercado e a estruturar a equipa para crescer com mais clientes e potenciais investidores. Apoiamos já startups maioritariamente na área de Lisboa, mas também noutros países como Espanha e Reino Unido.

Pode dar um exemplo?
Como exemplo de sucesso, a Heptasense, uma startup nomeada durante dois anos consecutivos pela revista Wired como das startups mais inovadoras da Europa, já usufrui da ajuda da Go4Partners a nível internacional. A Go4Partners colabora também com investidores e incubadoras, de forma a ajudar as startups a escolher o melhor percurso de crescimento. O programa abre novos projetos de colaboração nacional e internacional, de empresas nas áreas do retalho, mobilidade, desporto, real estate, todos os meses no website da Go4Partners.

Como caracteriza o ecossistema empreendedor em Portugal?
Considero Portugal um país impulsionado pela inovação, apresentando diversos fatores favoráveis à atividade empreendedora. Cidades como Lisboa, Porto e Braga têm tido um grande crescimento no número de startups criadas, e isso deve-se em parte a três factores: aumento de incubadoras/aceleradoras de startups que ajudam numa fase muito inicial, excelente universidades que dão origem a  empreendedores com competências polivalentes (gestão e tecnologia), atractividade para grandes empresas se estabelecerem nessas zonas, o que encurta o distanciamento às startups para potenciais colaborações.

A oportunidade existe, mas não nos podemos esquecer de uma estatística fulcral: 1/3 das startups morre no primeiro ano de vida, e isto assusta as empresas grandes a apostarem em sinergias com startups. Para começar uma relação é preciso confiança, e mais importante, capacidade de execução. Para uma startup é crucial perceber o mercado junto de potenciais clientes numa fase inicial, de forma a estruturar corretamente o desenvolvimento do produto, equipa, e também conseguir investimento com mais facilidade.

O que é melhor na Bulgária do que em qualquer outro lado do mundo?
Sem dúvida, o óleo de rosas. A Bulgária assemelha-se a Portugal, é um país ainda com tradições de trabalho artesanal, e é um grande produtor de rosas. Só o “Vale das Rosas” (Kazanlak) produz de 70% a 85% do óleo de rosas do mundo. O óleo é um ingrediente essencial na produção de perfumes, inclusive das marcas mais famosas. Conta-se que são necessárias 1000 flores para produzir 1g de óleo de rosas.

 

O que é melhor em Portugal do que em qualquer outro lado?
Portugal tem muitas características que o poderia tornar num país perfeito, especialmente para um empreendedor: ótimo clima, excelente comida, pessoas muito simpáticas e talentosas, e uma localização privilegiada por transporte aéreo em relação a África, Europa e América, que tanto beneficia viagens de lazer ou de negócios.

 

O que mais gosta e o que menos gosta em Portugal?
Adoro Lisboa! É uma cidade encantadora e vibrante, cheia de oportunidades. O custo de vida em Portugal é um dos mais baixos para quem pretende viver no lado ocidental da Europa e tem serviços como transporte público, saúde e educação de qualidade satisfatória. No entanto, preocupa-me o baixo salário dos empregos em Portugal face à subida vertiginosa das rendas das casas, devido ao turismo que se tornou uma forte fonte económica do país. Isto faz com que as pessoas e negócios pequenos sejam obrigados a mudarem de cidade, levando a que grandes cidades, como Lisboa e Porto, percam aquela magia natural assente nas tradições locais e nas pessoas.