Karen Uhlenbeck, a primeira mulher a vencer o “nobel” da matemática

Karen Uhlenbeck é uma das mais prestigiadas matemáticas da atualidade e o seu trabalho faz a ponte entre áreas tão complexas como a Física, Geometria e Análise matemática. Mas é também uma "rebelde" que lutou contra o preconceito de género nas ciências, durante os anos 60 e 70.

Karen Uhlenbeck: a prestigiada matemática é uma das líderes mundiais na sua área e é a mais recente vencedora do Prémio Abel.

Karen Keskulla Uhlenbeck é a primeira mulher a ganhar o prémio Abel, considerado o “nobel” da Matemática, a par das prestigiadas Medalhas Field. A Academia Norueguesa de Ciência e Literatura, que atribui o prémio, destaca as suas “conquistas pioneiras nas equações diferenciais parciais geométricas, teorias de calibre e sistemas integráveis, e pelo impacto essencial do seu trabalho nas áreas da análise, geometria e física matemática” como razões para atribuição desta distinção.

A matemática norte-americana, professora da Universidade do Texas em Austin, é considerada como a pioneira da moderna análise geométrica e o seu trabalho levou a “alguns dos mais importantes avanços feitas em matemática nos últimos 40 anos”, diz ainda a Academia Norueguesa. Esta área da matemática interliga técnicas de análise e equações diferenciais com o estudo de problemas geométricos e topológicos, essenciais por exemplo, na “representação de quantidades geométricas como a energia e o volume”, explica o comunicado da academia. Trata-se de um trabalho tão complexo e sofisticado, que interliga conceitos de quase toda a matemática hoje disponível e que constrói pontes entre a Física, a Geometria e a Análise, como explica a revista Nature.

Numa área científica em que a presença feminina ainda é bastante reduzida, Karen Uhlenbeck tem-se distinguido como líder mundial. Em 1990, em Quioto, Japão, tornou-se a segunda mulher de sempre a dar uma palestra ao plenário do Congresso Internacional de Matemáticos, a maior e mais importante reunião mundial de especialistas nesta área. A primeira (e única) mulher a fazê-lo até então tinha sido Emmy Noether, em 1932, explica o físico britânico Jim Al-Khalili, membro da Royal Society. “Esta estatística chocante reflete a dificuldade que as mulheres têm a atingir o reconhecimento que merecem, numa área dominada por homens.”

A rebelde da matemática

Nascida Karen Keskulla, em Cleveland, nos Estados Unidos, em 1942, demonstrou desde criança uma enorme curiosidade sobre ciência, aproveitando qualquer oportunidade para ler manuais de ciência avançada de forma ávida, conta Al-Khalili. Estudou na Universidade do Michigan, onde primeiro pensou em formar-se em Física, já então inspirada pela obra de alguns académicos e autores que admirava nessa área, mas depressa percebeu que era na Matemática que encontrava o desafio intelectual que realmente a realizava.

“Diziam-nos que não podíamos fazer matemática porque éramos mulheres. Gostava de fazer coisas que, supostamente, não deveria fazer, por isso foi uma espécie de rebelião legítima”, Karen Uhlenbeck

Em 1965, um ano após se formar, casou com o biofísico Olke Uhlenbeck, que então fazia o seu doutoramento em Harvard. Karen evitou escolas prestigiadas como essa, ciente da “cultura frequentemente misógina da academia”, preferindo a Universidade Brandeis, onde foi bolseira da National Science Foundation, doutorando-se em matemática. Ali, era também uma das pouquíssimas mulheres desse departamento. Apesar do apoio de vários colegas masculinos que reconheciam o seu talento, muitos outros não o faziam. “Diziam-nos que não podíamos fazer matemática porque éramos mulheres. Gostava de fazer coisas que, supostamente, não deveria fazer, por isso foi uma espécie de rebelião legítima”, escreveu num ensaio, em 1996, citado pela Nature.

A “rebelde” deu aulas no prestigiado MIT, durante um breve período, e mais tarde estudou relatividade geral e a geometria do tempo-espaço na Universidade de Berkeley. Foi professora assistente na Universidade de Illinois, onde encontrou pela primeira vez uma comunidade de outras mulheres professoras que a apoiaram e deram conselhos, além de matemáticos que valorizaram o seu trabalho. Em 1983 passou para a Universidade de Chicago e em 1987 mudou para a Universidade do Texas em Austin, onde assumiu a regência da cadeira Sid W. Richardson Foundation em Matemática e onde trabalhou até à sua reforma, em 2014.

Vencedora de uma Medalha Nacional da Ciência, nos Estados Unidos, em 2000, Karen Uhlenbeck é, até hoje, uma das grandes defensoras de uma maior diversidade de género nas ciências, em particular na matemática. Criou o programa Women and Mathematics no Institute for Advanced Study em Princeton, New Jersey. Questionada sobre o facto de ser um modelo inspiracional para outras jovens matemáticas, disse: “É difícil, porque aquilo que precisamos mesmo de fazer é mostrar aos alunos o quão imperfeitas as pessoas podem ser e, ainda assim, serem bem sucedidas. Posso ser uma ótima matemática e famosa por causa disso, mas também sou muito humana.”