José António de Sousa: As “estratégias” de combate à pobreza em Portugal

José António de Sousa sobre o aumento da pobreza em Portugal num só ano e as estratégias para inverter estes números em... oito anos!

José António de Sousa fez a maior parte da sua carreira na liderança de multinacionais no estrangeiro.

José António de Sousa é gestor aposentado depois de quatro décadas na liderança de multinacionais.

 

Sempre que nos aproximamos do Natal, a pobreza, que ao longo do ano fica (quase) sempre esquecida e ausente da agenda mediática, porque também fica fora da agenda dos políticos, entra-nos maciçamente pela porta de casa adentro sob a forma de artigos em jornais, revistas, programas na televisão.

Estes últimos dias a anteceder o Natal de 2021 foram uma vez mais pródigos nessa área. Assentes em estudos e estatísticas que nos arrasam e esmagam com a dureza dos números, os artigos que lemos em jornais e revistas logo motivam apressadas declarações de políticos.

Ficámos a saber que o número de portugueses empurrados para a pobreza (230.000) só em 2021 nunca foi tão grande neste século. E que o número total de portugueses em situação de pobreza (rendimento mensal abaixo dos 554 euros) e de exclusão social (além de rendimentos abaixo dos 554 euros, estão em situação de privação material e social extrema e severa) anda hoje pelos 2.3 milhões de cidadãos. Quase um quarto da população deste país, oh vergonha suprema !

Isto devia arrasar qualquer cidadão português responsável e consciente, levar-nos todos a ir votar maciçamente em 30 de Janeiro, rasgando ou inutilizando o boletim de voto. Nenhum voto válido deveria entrar nas urnas a 30 de Janeiro, porque nenhum dos partidos que estão há mais de 45 anos no poder conseguiu mitigar esta terrível lacra, que nos envergonha até ao mais íntimo do nosso ser, e merece o nosso voto. Podia ser que aprendessem com o choque.

Se o efeito pretendido é o de despertar consciências, na época do ano particularmente propícia a amaciar os corações, mesmo os mais empedernidos, o objetivo obviamente foi amplamente cumprido.

Quando há eleições à vista, como agora, os políticos desunham-se a aparecer a falar do tema, compungidos e penitentes, e desdobram-se como carpideiras em choradinhos e rosários cheios de promessas e declarações de intenção sobre tudo o que irão fazer para combater a pobreza, e diminui-la vigorosamente, em horizontes sempre longínquos (os amanhãs que cantam…).

Vejam o que uma jornalista, de forma acrítica, escreve no artigo do Público em que nos anuncia os números de pobreza que partilhei antes: “Não é à toa que a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza, aprovada esta semana em Conselho de Ministros, inscreve nas suas metas o propósito de retirar da pobreza 230.000 trabalhadores ao longo dos próximos 8 anos”.

Ou seja, este Governo atual, que nem sabe se vai continuar a partir de 30 de Janeiro, compromete-se com um programa que deverá durar não uma, mas duas legislaturas ! E nesse espaço de tempo quer retirar da pobreza em 8 anos, até 2030 (!), o mesmo número de portugueses que entraram no limiar da pobreza num único ano….

No editorial do mesmo jornal, um dia antes de sair este artigo, o colega da jornalista escrevia: “talvez os socialistas percebam que as declarações ousadas ou as promessas eleitorais já não tem grande valor”. Vamos ver isso a 30 de Janeiro, porque os arautos dos amanhãs que cantam continuam à solta desabridos e sem vergonha.

Somos um povo sensível e solidário, e procuramos aliviar o Natal daqueles que mais precisam, apoiando organizações que se dedicam a dar assistência e, aparentemente, ao combate à pobreza. Durante a época natalícia, todos nós (uns mais do que outros), contribuímos de variadíssimas formas não tanto no “combate à pobreza”, mas em melhorar o Natal dos mais desvalidos. Desde a doação de alimentos, roupas, dinheiro, até passar as festas natalícias em trabalho solidário de distribuição de alimentos aos que vivem na rua, ou nos pavilhões em que se serve uma consoada aos que nada têm.

Mas não tiramos, em termos eleitorais, as devidas ilações sobre a brutal inoperância e incompetência de todos os programas destinados à “erradicação” da pobreza ou, mais modestamente, ao seu combate, porque somos incapazes de ligar a existência dessa pobreza, à incompetência e irresponsabilidade dos que nos governaram nestas últimas décadas, e agir em conformidade nos atos eleitorais.

Aquilo que neste país (os que pagam impostos) já se gastou a salvar bancos corruptos e falidos (BPP, BPN, BES e, escrevam na pedra, outros que por aí virão…), ou em corrupção de Estado para favorecer amigos de regime em contratos e negócios ruinosos para os contribuintes (estou a falar de mais de 20.000 milhões de euros), teria dado para diminuir fortemente a pobreza. Não distribuindo dinheiro para gastar em consumo imediato, mas por exemplo para financiar micro-créditos a quem esteja disposto a trabalhar, e a criar o seu próprio emprego, ou para programas de habitação social a rendas controladas.

No entanto, como vimos antes, os nossos partidos políticos continuam no mesmo roteiro de populismo irresponsável e mentiroso, porque conhecem a “alma lusa”, e sabem perfeitamente que nos deixamos  “enrolar” uma e outra vez pelas promessas ocas que são feitas em campanha eleitoral.

Conseguiram, à custa de tanto anestesiar o Zé Povo, que as pessoas não votem (taxas de abstenção acima dos 50 %), porque “não vale a pena”, ou votem sem saber no que estão a votar realmente, porque nem os programas partidários são lidos (e portanto nas próximas eleições ninguém se pergunta se foram respeitados), nem se verifica o cumprimento de promessas eleitorais. Tudo com a terrível cumplicidade dos media (quase todos falidos, e portanto dependentes da Bordalliana porca do OE), que não deviam largar os políticos, chamando-os “à pedra”, sempre que se desviassem do curso prometido.

Não há escrutínio nem transparência na nossa sociedade e, enquanto não os houver, perpetuaremos a nossa dramática falta de rigor, e a nossa ineficiência em conseguir resolver os problemas da nossa sociedade, incluído o da pobreza.

Encerro com uma história verídica, durante um encontro entre Otelo Saraiva de Carvalho e Olof Palme, o primeiro-ministro sueco, logo a seguir ao 25 de Abril de 1974. Questionado sobre a estratégia da revolução dos cravos, e o seu objetivo principal, Otelo respondeu afoito, “acabar com os ricos”. Olof Palme terá olhado admirado para ele, respondendo: “Ah, interessante, nós os sociais-democratas suecos queremos é acabar com os pobres. A pobreza é o que mais nos incomoda.”

Em Portugal, à custa do embrutecimento ineficiente do Estado capturado pelos partidos, que passa a vida a criar estratégias, observatórios, grupos de trabalho, planos, e o Diabo a 4, conseguimos em 45 anos de democracia o feito de descapitalizar o país, de quase acabar com os ricos (nos termos em que os estrangeiros entendem o que é ser rico, e não em termos de narrativa de Correio da Manhã, em que quem ganha 3 ou 4 mil euros neste país é rico…), destruímos a classe média a golpe de impostos, que é a coluna vertebral de qualquer sociedade moderna e realmente rica, e aumentámos a pobreza ! É obra.

Como dizia o Imperador romano Júlio César, “há nos confins da Ibéria um povo que não se governa, nem se deixa governar.” Somos nós, minha gente.

 

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