Jocelyn Bell Burnell: a astrónoma que doou um prémio de 3 milhões

Em 1974, o orientador do seu doutoramento ganhou o Nobel graças a uma descoberta feita por ela. No passado dia 6, Jocelyn Bell Burnell deu uma lição de humanismo: doou o prémio em dinheiro, atribuído pela sua contribuição no campo da Física, para a criação de bolsas de estudo destinadas a mulheres, refugiados e pessoas pertencentes a minorias.

"Não preciso do dinheiro e pareceu-me que este era o melhor destino que lhe podia dar", disse à BBC Jocelyn Bell Burnell.

A História está cheia de exemplos de descobertas ou criações feitas por mulheres, apesar de o crédito acabar por ser dado unicamente a um homem. É o caso de Jocelyn Bell Burnell. Em 1974, foi o seu orientador de doutoramento na Universidade de Cambridge quem recebeu o prémio Nobel da Física por uma descoberta feita por ela: os pulsares, estrelas de neutrões cuja rotação super acelerada emite radiação eletromagnética.

No passado dia 6 de setembro, a conceituada astrónoma de 75 anos recebeu o Special Breakthrough Prize in Fundamental Physics (Prémio Especial por Avanço em Física Fundamental) pela sua “contribuição essencial para a descoberta dos pulsares e pela carreira inspiradora de liderança na comunidade científica”, segundo comunicado da organização.

Os Breakthrough Prizes são atribuídos a cientistas que se distinguiram pelas suas importantes contribuições nas áreas da Física, Matemática e Ciências da Vida, mas esta variante de Prémio Especial não se limita a descobertas científicas recentes. O Breakthrough Prize foi criado pelo empresário russo Yuri Milner, sendo ainda patrocinado pelo co-fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, e pela mulher, Priscilla Chan, pelo co-fundador da Google, Sergey Brin, e por outros filantropos. Com esta distinção especial, Jocelyn B. Burnell sucede a Stephen Hawking e à equipa do CERN, responsável pela descoberta do Bosão de Higgs.

Mas em vez de ficar com os 3 milhões de dólares do prémio para si — valor que ultrapassa o do Prémio Nobel — , doou a quantia ao Institute of Physics, fundação internacional que já presidiu, de forma a criar bolsas de estudo destinadas a mulheres, refugiados e outros candidatos pertencentes a grupos minoritários. “Não preciso do dinheiro nem o quero e pareceu-me que este era o melhor destino que lhe podia dar”, revelou a astrónoma à BBC.

Uma cientista num mundo de homens

Foi em 1967 que Jocelyn Bell Burnell primeiro deu conta de impulsos regulares de ondas rádio que estariam a ser emitidos do espaço, enquanto fazia a recolha de informação no radiotelescópio que monitorizava, em Cambridge. Tinha descoberto os pulsares, “estrelas aproximadamente do tamanho da cidade de São Francisco, mas com uma massa idêntica à do sol”, como explica a organização do prémio. Até aí, não havia sequer a certeza da sua existência.

Mas foi o seu supervisor, o professor Antony Hewish, que acabou por ganhar o tão cobiçado Nobel da Física. Eram outros tempos, lembra Burnell ao Washington Post: a crença era de que os avanços da ciência eram conduzidos pelos homens, enquanto das mulheres se esperava que aprendessem a cozinhar. “Era uma premissa tão forte que nem sequer houve discussão, nem havia escolha nessa matéria.” Nesse tempo o crédito das descobertas científicas ficava sempre para os professores responsáveis pelos departamentos de investigação e Jocelyn estava conformada com essa realidade. “Quando as pessoas pensavam em Ciência, pensavam sempre num homem mais velho — e era sempre um homem com um batalhão de gente jovem a trabalhar para ele.”

Nascida na Irlanda do Norte, em 1943, Jocelyn Bell Burnell foi durante muitos anos um rosto feminino solitário a trabalhar num campo científico dominado por homens. A partir dos 12, teve de lutar muito para a deixarem ter aulas de ciências e foi a única mulher na turma de mérito de Física da Universidade de Glasgow. As mulheres não eram muito bem-vindas em certas áreas académicas, recorda. “Os estudantes homens tinham então, por tradição, bater com os pés, assobiar, bater nas mesas ou gritar sempre que uma mulher entrava numa aula no anfiteatro. E eu suportei isso a cada aula a que fui nos dois últimos anos de curso”, recordou a cientista numa entrevista de 2007, citada pelo Huffington Post.

Sentiu a famigerada síndrome da impostora quando entrou em Cambridge e deu conta da mal disfarçada esperança dos colegas de que desistisse da investigação e da vida académica, assim que ficou noiva. Não aconteceu: a perseverança valeu-lhe uma carreira em que se tornou num dos maiores nomes mundiais da Astronomia e um modelo inspiracional para outras cientistas, distinguida com vários prémios e 36 títulos honoris causa em universidades de todo o mundo. Foi também a primeira mulher a presidir o Institute of Physics e a Royal Astronomical Society, tendo-lhe sido também atribuído, em 2007, o titulo de Dame Commander of the Order of the British Empire.

Hoje, e ainda a lecionar a cadeira de astronomia na Universidade de Oxford, acredita que a sua motivação veio precisamente do facto de ter pertencido a um grupo minoritário de profissionais dentro deste ramo da Ciência, razão pela qual quer incentivar outras pessoas vindas de grupos sub-representados a vingarem nesta área. “Tenho este palpite de que as pessoas que vêm de minorias trazem pontos de vista inovadores às coisas e, não raras vezes, isso é muito produtivo.”