João Coutinho: “As mulheres da minha vida”

Gestor da área dos petróleos, 20 anos na Total, dez na Cepsa, João Coutinho elege as mulheres que marcaram a sua vida. No âmbito profissional, não esquece a sua assistente, a diretora de RH e até a Mafalda, de Quino. Hoje destaca ainda a coach Susana Torres, com quem se encontra às 5 da manhã.

João Coutinho, com a mãe a mulher, duas mulheres da sua vida, que celebram o seu aniversário no mesmo dia.

Nasceu na Beira, em Moçambique, em 1956. Mas é em Portugal e enquanto português “muito orgulhoso e convicto” que tem vivido toda a sua vida. É licenciado em Engenharia Vivil e tem formação complementar nas áreas da Gestão, da Liderança e da Comunicação, pela Universidade Católica, Nova SBE, AESE e ESADE em Madrid. Com uma carreira profissional extensa e variada, foi professor ao longo de 12 anos, trabalhou durante três décadas no sector petrolífero (20 na Total e 10 na Cepsa), desempenhando funções de direção em diversas áreas: Comercial, Operacional, Compras, Supply e Logistica. Representou as empresas na Apetro durante mais de 25 anos.

Pertenceu à Direcção da Casa de Goa entre 2010 e 2014 e aí desenvolveu diversos projetos e mais de 100 atividades ao longo de 10 anos. Atualmente integra a Direção Executiva da Netmentora Lisboa e dedica os seus tempos livres ao desenho e pintura, aproveitando a sua experiência. É ainda gestor, consultor, mentor e orador, atividades que harmoniza com outros projetos, a par do seu gosto pela música e pela organização de tertúlias. Em 2020, já em plena pandemia, lançou um livro sobre Goa, em coautoria.

 

“Quando recebi o convite, não pensei muito porque é uma das várias formas de homenagear as mulheres que tanta importância tem na minha vida. Nas obrigações, nas responsabilidades, nas competências, no lar, no trabalho, seja porque for e onde for não discrimino o género (eheheheh, apenas na maternidade e na fisionomia). Constato que muitas mulheres são mulheres da minha vida por motivos diversos e todos eles importam. Sensibilidade e sexto sentido mais apurados? porque tenho uma vida intensa, algo longa e já participei em inúmeros projetos, neste desafio a maior dificuldade foi ter de limitar o número de mulheres porque tenho mais do que aquelas que cito. Gosto do número 4 por esse motivo limitarei a 4, os aspetos que destacarei de cada uma, das mulheres da minha vida

Na família

 

Lídia Fernandes

A minha mãe,  o eterno colo, referência e inspiração. A minha estrela. Foi em Moçambique que nasci e vivi no ninho e com ela até aos meus 19 anos. Aí senti uma mãe completa e exemplar  e que a cada dia que passa valorizo mais. Ela tem tudo e mais um pouco do que se pode querer numa mãe, ela agrega a família, dá educação, proteção e carinho aos filhos, utiliza sempre a criatividade, a bondade e  os bons valores.

Com a vinda para Portugal em 1976, a vida alterou-se radicalmente pois já ela, já com mais de 40 anos de idade, teve de recomeçar de novo e do nada, mesmo do nada e assumir um papel inverso. Arregaçou as mangas, trabalhou duro e horas demais. Começou como auxiliar no Liceu de S. João no Estoril e, em paralelo, recomeçou os estudos porque não tinha equivalências, desde o ciclo preparatório, ao mesmo tempo fazia algumas iguarias em casa para vender porque o dinheiro era necessário. Só parou os estudos por motivos de saúde, mas profissionalmente chegou a chefe de secretaria pois em casa havia uma casa, uma família e uma vida para alimentar.

Venceu nos estudos, no trabalho, na família e na amizade. O meu gosto pelas artes foi herdado dela, pois tem trabalhos lindos. Um exemplo de Força, Amor, é uma Vencedora e uma Formadora. Gratidão maior, querida mãe.

Destaco dela os seguinte quatro aspetos: a resiliência , a generosidade (dar sem esperar receber), a criatividade e a humildade.

Anabela, a minha Bela

A minha esposa, eterna namorada e companheira de viagem, sempre comigo, com aventuras muito diversas, muitos desafios e muitíssimos momentos passados com prazer. Somos muito diferentes em alguns aspetos  e muito iguais noutros, pois partilhamos os mesmos valores e assim mantemos vida conjunta e feliz há mais de 43 anos. São poucas palavras, mas com um significado maior de quem está incondicionalmente ao meu lado e lado a lado. Gratidão maior, querida companheira.

Dela destaco os seguintes quatro aspetos: a confiança, o respeito, a honestidade e a solidariedade,

Felizmente tenho uma família com muitas mulheres exemplo e inspiradoras, sem grandes detalhes, a minha irmã: a Carmen (para mim será sempre a “pequerrucha”) que cresceu muito, talvez mais do que este irmão, também é uma mulher da minha vida. Poderia também referir algumas tias, prima… tanta inspiração. Estou grato.

No trabalho e até hoje amigas

 

Lourdes Calmeiro

No início da minha carreira profissional e durante 12 anos entre 1977 e 1989 estive como professor no preparatório e secundário e nessa altura a % de mulheres professoras era muito elevada e por esse motivo convivi com elas diariamente. No ano de 1979 cruzei-me com a Lourdes Calmeiro e fomos par pedagógico , até essa data as minhas amizades relevantes tinham sido feitas em Moçambique e pensei que não iria conseguir fazer novas e fortes amizades, apenas porque havia diferenças significativas na forma de estar e de relacionar que eu trazia, e aquelas  que encontrei em Portugal continental quando cá cheguei já após o 25 de Abril. Para além de uma extraordinária colega a Lourdes foi a demonstração de que existiam pessoas igualmente boas, com bons valores e foi a minha primeira amizade já em Portugal ajudou-me a desbloquear uma crença que eu tinha criado, a partir daí sou um felizardo com um lote enorme de amizades ganhas. Ainda hoje ela é uma referência para mim em vários aspetos, com muitas circunstâncias entretanto vividas, e com uma amizade que cresceu de forma continua ao longo de mais de 40 anos sempre muita consideração e respeito mutuo. Os quatro aspetos que destaco na Lourdes são: O Respeito pelo ser humano e pela natureza / a Responsabilidade na educação e na relação /a Honestidade e a Solidariedade.

 

Carla Félix, a assistente

Quando a conheci tinha ela 22 anos de idade, e foi a minha escolha de seis possíveis num recrutamento. É a escolha certa, disse eu, mas, não ficará mais de dois anos. Enganei-me e esteve para mim no trabalho como a minha esposa está comigo na família. Foi minha colega de trabalho por cerca de 25 anos e minha assistente direta durante 14 anos. Nesse período era a pessoa da minha maior confiança, pois tinha acesso a tudo, coisas sensíveis, estratégicas e confidenciais. Eu partilhava muito com ela, escutava a sua opinião, passamos juntos muitos momentos particulares e alterações profundas na organização, e fusões com mudanças radicais de área.

Como dirigi áreas completamente diferentes, fui sempre colocando à Carla desafios diferentes e exigentes. Ela queria perceber bem o que era pretendido, aceitava e aprendia com eles. Via sempre o lado positivo. Eu senti o crescimento dela: como é inteligente, questionava sempre, diretamente e sem receios, pois queria perceber os fundamentos antes de de se lançar para um novo desafio. Um bom hábito para quem quer alinhar, fazer bem e crescer. Não foi sempre fácil; existiram momentos muito intensos e desafiantes. Não esteve sempre de acordo, mas disse sempre ‘presente’. É exigente com os outros e principalmente consigo e desafia-se a si própria e faz. Tem uma personalidade forte, é amiga do seu amigo, confidente e boa conselheira e profissional de mão cheia. Cresceu muito, hoje na assessoria jurídica é uma solicitadora que fará a diferença na vida de muitos. Hoje somos amigos.

Os quatro aspetos que destaco são: responsabilidade, solidariedade flexibilidade e foco.

 

Eunice Antunes, a diretora de RH

Cruzamo-nos no contexto profissional como  diretores em Portugal de uma grande empresa com políticas e práticas excelentes de RH, a multinacional petrolífera Total, eu numa área comercial e a Eunice nos RH. Marcou-me pelos conceitos de Recursos Humanos que ainda hoje são a minha referência e a minha base de partida (com as adaptações que os tempos exigem). A Eunice era a diretora de RH e com ela cresci muito nas competências desta área, seja na organização e construção das equipas (foram três fusões, uma aquisição que triplicou o tamanho da nossa filial e que obrigou a alterações profundas da organização, avaliações dos postos de trabalho com a metodologia Hay), seja nas avaliações de desempenho, na definição de sistemas e critérios de remuneração  variável e prémios pelo mérito, nos processos de recrutamento, planos de evolução de carreira dos quadros, da gestão do talento, os HP (haute potential), a criação de uma 2ª linha de chefias forte.

Porque falamos de mulheres aproveito para realçar que a Total no final da década de 90 já tinha uma política destacada de diversidade em todos aspetos, incluindo o reforço das quotas das mulheres em lugares de chefia, desde as intermédias e até à direção de topo. Realço ainda que nos 30 anos de petróleos, tive a ousadia de colocar mulheres como chefias, pois no final da década de 90 ainda não eram lugares habitualmente ocupados por elas e contei sempre com a reflexão conjunta com a Eunice.

Conheci-a em 1997, tivemos muitos debates e trocas de opinião, crescemos os dois e mantemos uma relação de amizade e respeito há mais de 24 e anos.  As pessoas sempre foram a minha primeira prioridade e o capital humano de importância capital nas empresas, por isso este aspeto assume especial importância.

Os quatro aspetos que destaco são: competências e o foco nos RH, aposta na diversidade, ousadia e trabalho em equipa.

 

Tenho mais algumas mulheres que ao nível profissional fizeram a diferença na minha vida, não posso alargar muito, mas não posso deixar de citar apenas mais um nome apesar da curta descrição:

Filomena Rocha, a colega

Foram cerca de três décadas como colegas. É, talvez, a pessoa que mais tempo trabalhou comigo em contínuo, e não é fácil aguentar o meu ritmo e principalmente durante tanto tempo, a minha exigência e a exigência da área. Saliento que muito dos resultados de uma das áreas que eu dirigia tiveram inegavelmente o seu importante contributo, área com impacto muito grande nos resultados da empresa , em que não se podia adiar as tarefas e onde os custos do erro ou de uma má decisão são elevados.

Os 4 aspetos que destaco dela: o esforço, a resistência, a responsabilidade e a fiabilidade.

 

A Mafalda (sim, a do Quino)

Não podia deixar de citar a Mafaldinha, pois ao longo da minha vida, desde muito cedo e com poucas pausas, foi companheira assídua. Conseguia dizer o que eu gostaria, mas com muito menos palavras e com mais humor. Aproveitei, assim, para utilizar as suas tiras nas minhas apresentações ou em postais com mensagens que considerava oportunas e atuais. Foi sempre uma referência muito intensa durante os 30 anos que trabalhei nos petróleos. O seu criador já não está entre nós , mas deixou a Mafaldinha que continua a inspirar-me

Os quatro aspetos que destaco são: as suas mensagens pertinentes, o seu humor, a sua forma de contestar e a sua sempre atualidade.

Figuras notáveis

Há também figuras notáveis de mulheres que admiro, mas não me vou alargar em detalhes. Refiro apenas que ‘roubo’ do seu exemplo algumas das suas qualidades para me inspirar. Sem comentar detalhes cito apenas quatro delas pelo seu nome: Madonna, Tina Turner, Madre Teresa de Calcutá e Frida Kahlo.

 

Susana Torres, a coach

Reconhecida como a coach do Eder, é uma coach de alta performance, é uma mental coach.

É a mais recente mulher na minha vida com a importância para ser uma mulher da minha vida, não pelo tempo há que já nos conhecemos, pois é curto, mas não hesitei em citar o seu nome. Descobri-a quase por acaso, observei e gostei de algumas das mensagens, comentários e, principalmente, da sua atitude. Disse para mim próprio: é inspiradora, é consistente, é ousada e atual, é o que preciso para continuar a crescer em competências e comportamentos nesta fase da minha vida.

Assim, desde 2018 que mantenho contacto regular com ela e, para além disso, mantenho encontro semanal às 5 da manhã, todas as segundas feiras. Sim, às 5 da manhã, que é a hora possível no 5AM Club. Como eu estão sempre presentes entre 500 a 800 pessoas, tão solicitada que ela é (julgavam que era um encontro a 2?). É a escolha certa que fiz para me manter em alta performance. É impressionante a atenção e a consideração que me dispensa, com tanta solicitações que tem. Muito grato, Susana. É impressionante o número de seguidores que tem e principalmente os exemplos reais de vida melhorada. Cito apenas dois casos a título de exemplo, o do Nuno Matos, o médico pasteleiro, e o do Nuno Santos, que sobreviveu a um cancro e é um exemplo de resiliência.

Os 4 aspetos que destaco nela: rompe com paradigmas, é ousada, trabalha a cada dia para ser a melhor versão de si própria e leva o outro a fazer o mesmo, acredita em si e faz os outros a acreditarem neles, mulher de processos, que faz e já mudou a vida de muita gente para muito melhor.

 

Não quero deixar de dizer que as mulheres estão sempre presentes nos projetos em que estou envolvido com contribuições destacadas e ajudaram-me a crescer como pessoa e como profissional. Não sei se foi por serem mulheres, o que sei, é que são e foram as pessoas certas.

Para terminar, refiro que no meu grupo atual de pintura a óleo somos quatro e três são mulheres; o livro lançado recentemente, Goa, Roteiro de uma Viagem, só podia ter tido um resultado maravilhoso porque foi um trabalho de equipa, escrito a cinco mãos, com quatro mulheres portuguesas fantásticas e inspiradoras que todos deviam de conhecer. Ficaram alguns nomes citar, porque não é possível, mas elas estão e estarão comigo, sabem quem são e eu sei quem elas são e o que cada uma me aporta de bom. A elas, aquelas que citei e todas outras, estou muito, mesmo muito grato pelo valor que me aportam e pelo carinho que me dão. Um agradecimento especial à Executiva que faz um excelente trabalho — sigo há muito tempo a Isabel Canha, mesmo antes de a conhecer pessoalmente e a quem agradeço esta oportunidade.

Há grandes progressos, no entanto ainda anseio pelo dia em que já não haja necessidade de um dia especial, de uma revista especial para defender alguns direitos da mulher por não ser necessário.

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