Joana Crespo: “Tive de arriscar mais para obter o que queria”

Especialista em Fiscalidade, há 11 anos que Joana Crespo trabalha fora de Portugal. Depois de Bruxelas, Barcelona e Zurique, vive agora em Berwyn, nos Estados Unidos, onde é senior manager na TE Connectivity.

Joana Crespo é senior manager na TE Connectivity e trabalho nos Estados Unidos.

É licenciada em Gestão, pelo ISEG, mas saiu cedo de Portugal e construiu um currículo globetrotter. Depois de dois anos de uma intensa aprendizagem na Deloitte, em Lisboa, candidatou-se à Schneider Electric, em Bruxelas. Gostou da empresa, mas o clima chuvoso levou a especialista em Fiscalidade a pedir uma mudança para Barcelona, onde foi liderar um projeto que acabava de arrancar e aproveitou para fazer uma pos-graduação em Direito Tributário Internacional. Depois de cinco anos na Schneider considerou que estava na altura de mudar, e escolheu a Baxter Healthcare, em Zurique. Ao fim de dois anos, decidiu ficar na cidade mas mudar de empresa e entrou na TE Connectivity. No ano passado, não resistiu ao desafio que lhe lançaram para trabalhar do outro lado do oceano e numa área nova, a de fusões e aquisições. Hoje vive em Berwyn, a menos de duas horas de Nova Iorque e está feliz. Gosta da cidade, das pessoas e do trabalho que está a fazer.

O percurso profissional de Joana Crespo não aconteceu por acaso. A executiva não espera que as oportunidades lhe batam à porta. Quando sente que está na altura de fazer novas aprendizagens define novos objetivos, sejam eles novas funções, novas empresas, novas cidades, ou tudo isto de uma só vez. Aos 34 anos a sua sede de “aventura” continua tão viva como quando deixou Portugal há 11 anos. O regresso não parece estar para breve.

Saiu da Deloitte porque ambicionava uma carreira internacional. O que procurava exatamente?
Para além de procurar projetos mais internacionais – a maior parte do meu trabalho limitava-se a empresas nacionais – procurava descobrir outras culturas. Há muitas “biases” em nós e eu sentia que me faltava crescer a esse nível – estar exposta a outras culturas, maneiras de pensar. Sempre gostei muito de observar comportamentos e tentar perceber como outros “mundos” funcionam. Sempre senti a necessidade de estar constantemente a crescer.

Na Schneider Electric, em Bruxelas, tive a oportunidade de trabalhar em vários projectos, bastante diversos e começar a viajar. Porém, sair do sol de Portugal e ir viver na Bélgica escura e chuvosa não foi fácil. Apesar de estar apaixonada pelo meu trabalho, estava muito menos apaixonada pelo clima e pela cultura belga e apresentei uma proposta de relocação ao meu chefe. Acabei por conseguir ir para Barcelona, onde fiz a minha pos-graduacao em Direito Tributário Internacional e fui liderar um projecto que acabava de arrancar.

A minha experiência com Barcelona foi bem diferente da belga e é com bastante saudade que recordo a cidade, as pessoas, a cultura, a música, a praia, a montanha, tudo que aquela cidade tem para oferecer. Em termos profissionaism o projeto fiscal que liderei permitiu-me viajar, conhecer a empresa em grande detalhe e pessoas de vários backgrounds.

Apesar de estar satisfeita, o que a fez mudar ao fim de cinco anos?
Queria ver o que a Europa tinha para oferecer e decidi que Zurique seria a próxima cidade e foi assim que cheguei à Baxter Healthcare. Entre Zurique e Barcelona há um mundo de diferenças, mas Zurique, e tantas cidades na Suíça, têm também um cantinho especial no meu coração. Criei amizades que vou levar comigo para sempre.

Após dois anos na Baxter, mudei para a TE Connectivity, onde depois de participar e liderar partes cruciais de um projeto bastante grande e de certa forma único, fui reconhecida para fazer o que eles chamam de “TE MBA”. Foi mais uma grande oportunidade ter sido escolhida (eu e outras sete pessoas) a nível mundial, entre milhares de colaboradores. Durante 18 meses participei em dois grandes projetos com pessoas de todo o mundo em tempo real e reportando aos CEO e CFO do grupo, assim como aos líderes de segmentos de negócios. Não foi facil, especialmente porque todo o trabalho adicional tinha de ser conciliado com a agenda já bem preenchida. Adorei a experiência e mais uma vez gostei de confirmar que se formos fieis aquilo que somos conseguimos alcançar muito mais e de forma permanente. “Stay true to yourself” são palavras que estão sempre a repetir-se na minha cabeça.

Apesar de ter havido uma grande evolução no que toca ao reconhecimento feminino no mundo profissional, ainda há uma grande disparidade a vários niveis. Toca a cada uma de nós continuar a demonstrar do que somos capazes.

Como chegou aos Estados Unidos?
Há um ano, fui contactada para esta nova posição, que implicava vários desafios. Implicava que eu tivesse de aprender bastante e, mais importante do que isso, era bem longe de tudo e (quase) todos que conhecia. Mais uma vez, lancei-me à aventura e não podia estar mais contente.

Tanto a nível profissional como pessoal, o último ano tem sido de grandes mudancas. Penso que apesar de ter havido uma grande evolução no que toca ao reconhecimento feminino no mundo profissional, ainda há uma grande disparidade a vários niveis. Toca a cada uma de nós continuar a demonstrar do que somos capazes.

As suas mudanças de emprego e de país fazem parte de um plano de carreira ou apenas fez questão de agarrar as oportunidades que foram surgindo?
Aos 21 anos quando saí de Portugal, foi mesmo uma questão de partir à aventura e tentar aproveitar todas as oportunidades ao máximo. No entanto, quando vi que poderia realmente crescer a nível profissional tentei guiar a minha carreira e comecei a desenhar vários objetivos. Esta vinda para Berwyn foi algo que me parecia necessário. Apesar de sempre ter trabalhado bastante com os Estados Unidos, estar aqui, perceber a cultura e a dinâmica deste país, é diferente.

Um dos aspetos que ressaltam no seu percurso é o de estar constantemente a sair da zona de conforto. É assim por natureza ou foi desenvolvendo essa característica ao longo da carreira?
Penso que faz parte da minha natureza, mas sem dúvida que é uma caracteristica que se desenvolveu ao longo do ao meu percurso. Desde muito cedo que quis ser independente a nível financeiro e sendo mulher nem sempre é facil ser recompensada pelo trabalho feito. Sempre senti que tinha de arriscar mais para obter o que realmente queria.

Em todas as minhas mudancas de trabalho, tentei sempre encontrar algo que nunca tinha feito antes. Havia sempre um mix de excitação e medo (medo saudável, como lhe chamo). De uma maneira ou de outra haveria de correr tudo bem e penso que sempre acreditei que conseguiria alcancar os meus objectivos.

Para mim, o mais importante é continuar a aprender. Se o desafio me permite crescer, tanto a nivel profissional como pessoal, é bem possivel que o aceite.

O que equaciona normalmente quando lhe apresentam um novo desafio profissional?
Para mim, o mais importante é continuar a aprender. Se o desafio me permite crescer, tanto a nivel profissional como pessoal, é bem possivel que o aceite. A familia é extremamente importante para mim e nem sempre é facil conciliar essa parte. Tento encontrar algum equilíbrio e negociar condições que me permitam incluir aqueles de que mais gosto e que tanto me têm apoiado nas minhas decisões.

Qual a experiência profissional que mais a marcou?
Todas elas têm sido bastante intensas e certamente a que estou a viver neste momento também dará uma excelente história. Penso que talvez a mais marcante tenha sido a do TE MBA. De um momento para o outro, estava a fazer apresentações para o CEO e o CFO e a ter contacto com os líderes executivos da empresa. A perspectiva que se obtém, o conhecimento que se adquire, a forma de estar, tudo é diferente. O nivel de exigência é altíssimo, por isso há muitos momentos duros, mas foi possível aprender muito com esta experiência e deu-me acesso a informação que de outra forma seria bastante difícil aceder.

Que grandes diferenças nota entre a forma de trabalhar em Portugal e a de outras culturas com que se relacionou?
Depende do país e não quero limitar a minha visão, especialmente porque não trabalho em Portugal há bastante tempo. Pelo que vejo nas minhas visitas, Portugal está a crescer bastante e tem tudo para liderar em várias áreas. Penso que somos demasiado humildes e “bons rapazes e raparigas”. Falta-nos algo para nos deixar marcar a nossa posição no mundo. Não sei bem como descrever, mas tanto em Espanha, como na Bélgica, Suíca e, certamente, nos Estados Unidos, nota-se mais uma promoção do país, do indivíduo. Gosto bastante da forma de trabalhar belga, muito pragmáticos e com um equilíbrio entre homens e mulheres.

Que características são necessárias para fazer uma carreira globetrotter como a sua?
Ambição, humildade, abertura de espírito, flexibilidade, constante vontade de aprender e querer ser e fazer algo melhor e de valor todos os dias. Acima de tudo, é preciso ser resiliente e saber lidar com mudancas rápidas e com o desconhecido.

É necessário ter ao nosso lado uma pessoa que nos respeite e partilhe os mesmos valores. Partilho as minhas aventuras com um grande homem, que me permite alcançar aquilo a que me proponho e me apoia sempre que necessito. Tento fazer o mesmo por ele.

Uma das razões que impede mais pessoas, sobretudo mulheres, de fazer uma carreira diversificada como a sua é a dificuldade em fazer-se acompanhar da família. Foi esse o seu caso?
Não senti esse impedimento. Casei-me relativamente cedo, aos 27 anos. O meu marido era belga e sempre me seguiu e apoiou nas minhas decisões. Acabámos por nos separar simplesmente por divergências culturais. Sem dúvida, que nestas aventuras, a pessoa que nos acompanha tem de ser um grande amigo ou amiga. Neste momento, partilho as minhas aventuras com um grande homem, que me permite alcançar aquilo a que me proponho e me apoia sempre que necessito. Tento fazer o mesmo por ele.

Quando comparo a minha vida com as de amigos que não sairam de Portugal, não me parece que seja mais difícil para mim conciliar a carreira com a família. Acho que todos temos os nossos obstáculos e dificuldades que necessitam de ser ultrapassados, simplesmente manifestam-se de diferentes formas. Acima de tudo, pelo que tenho observado e vivido, acho que é necessário ter ao nosso lado uma pessoa que nos respeite e partilhe os mesmos valores.

Que conselhos deixaria a uma jovem que ambicione fazer uma carreira internacional?
É uma experiência enriquecedora. Desde que seja um caminho que lhe permita crescer a nivel profissional e pessoal, vá em frente. de braços abertos e olhar atento.