O perfil da milionária Isabel dos Santos

Quando Isabel dos Santos vai às compras, pode voltar com uma empresa de comunicações, de energia ou de alta joalharia. É dura e inteligente a negociar, mas admite que é um desafio ser mulher no mundo dos negócios. O perfil da mulher mais rica de África, feito pelo jornalista Filipe S. Fernandes, que a retratou no livro ‘Isabel dos Santos – Segredos e poder do dinheiro’.

Isabel dos Santos compra maioria da Efacec.

Isabel José dos Santos nasceu em Baku a 20 de abril de 1973. O pai, José Eduardo dos Santos, que, nessa altura, estava desde 1970 nos Serviços de Telecomunicações na 2.ª Região Político-Militar do MPLA, em Cabinda, deu-lhe o nome de Isabel para homenagear a irmã que o acompanhara na infância. Como explica Isabel dos Santos: “O meu pai nasceu no bairro de São Paulo, onde vivia a minha avó Jacinta com o meu avô Eduardo. A sua primeira filha chamava-se Isabel. A minha avó saía muito cedo para ir trabalhar e quem tomava conta do meu pai era a minha tia Isabel. Por este respeito, carinho e orgulho que teve na sua irmã mais velha deu-me o mesmo nome dela.”

A mãe, Tatiana Kukanova, era geóloga e cooperante da Sonangol, chegara a Luanda pouco antes da independência, tendo vivido uns meses antes com Isabel dos Santos numa aldeia do Congo, Brazzavile. Em Luanda viviam no bairro de Alvalade. Eram tempos de muitas dificuldades e alguma penúria apesar de Tatiana ser geóloga na Sonangol. E foi destes tempos que surgiu a menção de Isabel dos Santos à sua propensão para venda de ovos para comprar algodão doce, feita ao Financial Times, e que seriam as pequenas trocas e vendas feitas entre funcionários, a que Isabel dos Santos assistia e participava depois de vir da escola. Como refere “nunca fomos dados à grandiosidade. Eu ia a pé para a escola”.

Formou-se em Engenharia em Londres, onde partilhou um quarto numa residência e ‘não havia tempo para brincadeiras’.

Em meados dos anos 1980, Tatiana e a filha Isabel dos Santos foram viver para Londres, onde a primogénita de José Eduardo dos Santos passou a estudar na St. Paul’s Girls School, uma escola privada e tradicional. O seu objetivo era a engenharia. Como referiu numa entrevista, «Sou hoje engenheira porque gosto de matemática, sempre adorei ciências, e segui um pouco as passadas dele, se bem que hoje a minha vida é diferente da dele, mas é sem dúvida um grande homem».

Depois, quando ingressou no King’s College, partilhou um quarto numa residência em Edgware Road. Uma vez mais, não perdeu a oportunidade de lembrar que teve uma vida difícil. “Além das 23 horas de aulas teóricas por semana, também tínhamos aulas práticas e relatórios para apresentar. Não havia tempo para brincadeiras” e reconhece que os pais “eram muito exigentes” com a sua educação. A mãe, que passa a ter Londres como residência principal, adquiriu nacionalidade britânica. Segundo o seu CV no site da Galp Energia, Isabel dos Santos fala fluentemente russo, português, inglês, francês, espanhol e italiano.

Os diamantes e as telecomunicações

Em meados da década de 1990, Isabel dos Santos regressa a Luanda e faz o seu primeiro negócio, que é tornar-se sócia do Miami Beach Club, na ilha de Luanda, e que fora fundado por Rui Barata. Diz-se que chegou, nos seus primórdios empresariais, a ser «dona de um salão de cabeleireiro» na Maianga. Que tem um sentido empresarial e de negócio há vários testemunhos que o atestam. Ainda não tinha qualquer empresa e, por exemplo, antes do Natal, comprava meia dúzia de relógios, pulseiras e brincos de marcas como a Louis Vuitton para vender em Luanda aos mais próximos.

A ideia da Unitel começou no negócio de walkies-talkies, para contornar as dificuldades de comunicações que sentia numa outra empresa de logística.

No regresso a Angola, Isabel dos Santos, que vivia no palácio presidencial com o pai, tornou-se também engenheira da Urbana 2000, uma empresa do grupo Jembas, a quem era adjudicada a recolha do lixo na zona de Luanda. Como explicou no Global Entrepreneurship Summit, em 19 de novembro de 2014, em Marraquexe, Marrocos, “tínhamos um negócio de logística com camiões que precisavam de fazer as suas entregas a tempo e horas e as comunicações eram impossíveis. Por isso, os walkies-talkies eram decisivos. Foi assim que comecei. Por montar uma empresa de walkie-talkies que depois se transformou numa companhia de comunicações”. Em 1997, são dados os primeiros passos para o fim do monopólio da Angola Telecom na exploração das comunicações. A Unitel constituída em 30 de dezembro de 1998 pelo círculo que detém o poder de facto em Angola, e que são Manuel Vicente, atual vice-presidente de Angola, então presidente da estatal Sonangol, Leopoldino Fragoso do Nascimento, General Dino, hoje presidente do Grupo Cochan, General Manuel Vieira Dias, Kopelipa, e Isabel dos Santos.

A 19 de maio de 2000, a comissão permanente do Conselho de Ministros concede à Unitel, o direito de explorar, em todo o território nacional, o serviço complementar móvel de telefonia celular na norma GSM. A 22 de dezembro de 2000, a Portugal Telecom adquire 25% da Unitel por 16,2 milhões de dólares numa parceria para a instalação e operação de uma rede de telefonia móvel do sistema GSM. Em abril de 2001, a Unitel iniciou o serviço como operador de telecomunicações móveis.

Em 7 de outubro de 1999, a multinacional sul-africana De Beers, o gigante da indústria diamantífera, suspendeu “a compra de todos os diamantes de Angola pelos seus escritórios em todo o mundo” e “a interrupção de todas as operações de aquisição de diamantes em Angola”, no âmbito da aplicação das sanções internacionais contra a UNITA.

O livro 

O livro que traça o perfil de Isabel dos Santos

O livro que traça o perfil de Isabel dos Santos

Este texto é apenas um excerto do livro ‘Isabel dos Santos – Segredos e Poder do Dinheiro’, onde o jornalista Filipe Fernandes faz o perfil da maior empresária angolana. Filipe Fernandes é licenciado em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa e pós-graduado em Comunicação, Cultura e Tecnologias pelo ISCTE. Começou a sua actividade no jornal Semanário, integrou as equipas fundadoras das revistas Exame e Fortunas & Negócios. Foi editor do Diário Económico e do Jornal de Negócios e director-adjunto da revista Exame. Publicou ‘Fortunas & Negócios – Empresários do Século XX’, ‘Organizem-se – A Gestão segundo Fernando Pessoa’, ‘António Champalimaud – Construtor de Impérios’ (em co-autoria com Isabel Canha) e ‘As Vítimas do Furacão Espírito Santo’.

Nesta reorganização surgiu a Ascorp, cujos acionistas eram a Sociedade de Comercialização de Diamantes de Angola – Sodiam, com 51%, a Welox com 24,5%, e a Trans-African Investment Services – TAIS com 24,5%, cujo memorando de acordo foi assinado a 11 de outubro de 1999, e em que a TAIS e a Welox asseguraram a compra de um mínimo de 150 milhões de dólares em diamantes. A posição da Welox repartia-se equitativamente entre Lev Leviev com 50% sendo o restante de Silvain Goldberg e Ehud Laniado, sócios na Omega Diamonds. Isabel dos Santos, por sua vez, deteria, 75% da Trans-African Investment Services (TAIS, Lda), enquanto a mãe, Tatiana, que entretanto se tornou cidadã britânica, ficava com 25%.

Porém, quando o negócio dos “diamantes de sangue” atraiu a curiosidade internacional, em meados dos anos 2000, Isabel transferiu para a mãe o controlo total da TAIS, agora renomeada Iaxonh Limited, segundo o Registo Comercial de Gibraltar, consultado pela Forbes.

Um casamento de Estado

A vida pessoal de Isabel dos Santos tem sido, como em outras áreas, objeto de boatos, informações e contrainformações quase sempre enviesadas por ódios de estimação. Por outro lado, é preciso não esquecer que alguém já chamou aos poderosos angolanos uma discretocracia, por isso desvendar namorados e noivos de Isabel dos Santos revela-se um exercício complexo e fútil. Fala-se de vários nomes, mas o eleito para pai dos seus filhos foi Sindika Dokolo, de origem congolesa, que conheceu em 1999, um ano depois de ter participado no Carnaval do Rio de Janeiro.

O marido admite que é Isabel dos Santos que tem as boas ideias, a visão certa.

Sindika Dokolo nasceu em 16 de março de 1972, em Kinshasa, filho de um empresário congolês e de uma dinamarquesa, viveu e estudou na Bélgica e em França, regressou com o pai ao Congo e, em 1999, radicou-se em Luanda, onde conheceu Isabel dos Santos. Diz que quando a conheceu ficou muito admirado “com a sua visão”, e não era fácil impressioná-lo porque vinha de uma família de negócios. Segundo Sindika Dokolo, pai dos seus três filhos, a sua forma de se relacionar com Isabel dos Santos “é mais ouvir do que falar, pois é ela que tem as boas ideias, a visão certa”. Por outro lado, confessa que o facto de terem formações académicas diferentes os torna complementares “na análise das situações e das oportunidades e uma visão diferente é sempre um diálogo de enriquecimento mútuo”.

Pelas 16 horas do dia 20 de dezembro de 2002, nos jardins do Palácio Presidencial, Isabel dos Santos casou-se pelo civil com Sindika Dokolo. No dia seguinte, sábado, 21 de dezembro, pelas 16h30, teve lugar na Sé Catedral a cerimónia católica de matrimónio, que contou com a presença de 800 convidados entre os quais estiveram Joseph Kabila e Sam Nujoma, presidentes das Repúblicas Democrática do Congo e da Namíbia, respetivamente.

Foi considerado o casamento do ano e gerou especulações como se se tratasse de uma cerimónia de Estado. O copo d’água realizou-se no Palácio Presidencial e na ementa do jantar foi, nas palavras de Isabel dos Santos, “dada preferência aos produtos angolanos. As entradas foram à base do maravilhoso marisco da costa atlântica angolana: a famosa lagosta do Kwanza-Sul e as gambas e o caranguejo do Namibe. Para o prato principal, foi servida a fresquíssima e saborosa garoupa pescada na costa de Luanda. Quanto às sobremesas, a bavaroise de abacaxi e a musse de maracujá do Uíge foram propostas aos convidados. Nas pastelarias foi usada uma diversidade de frutas tropicais como a papaia, a banana e a manga”.

A entrada em Portugal e na Suíça

Isabel dos Santos chegou, então ainda mais discreta do que é costume, à Amorim Energia. Entrou pela mão de Manuel Vicente, atual vice-presidente de Angola e na época presidente da Sonangol. Em princípios de novembro de 2005, Américo Amorim fez chegar ao governo uma proposta para aquisição da participação da ENI com base numa avaliação de quatro mil milhões de euros, que depois viria a subir para cerca de cinco mil milhões. Nessa altura, a Amorim Energia detinha 55% e a Esperaza Holding B.V. 45% – em que a Sonangol tem 60% e Isabel dos Santos 40%. Em 29 de dezembro de 2005, a Amorim Energia ficou com 33,34%. A 29 de março de 2012, a Amorim Energia subiu a sua posição acionista na Galp Energia para 38,34%.

Entre 2005 e 2010 Américo Amorim foi o grande parceiro de negócios da empresária.

A partir de então, Américo Amorim tornou-se o grande parceiro de negócios de Isabel dos Santos. Em abril de 2005, Fernando Teles fez o seu próprio banco, o BIC Angola. Neste projeto em que tinha 20%, contou como sócios com Isabel dos Santos (25%) e Américo Amorim (25%). No ano seguinte, Isabel dos Santos e Américo Amorim adquiriam, através da Ciminvest, os 49% que a Cimpor (que tinha na altura a Teixeira Duarte como acionista de referência) detinha na Nova Cimangola. Em outubro de 2007, Fernando Teles, Américo Amorim e Isabel dos Santos veem o Banco de Portugal autorizar o Banco BIC Portugal que foi então formalmente constituído em meados de janeiro de 2008. Tornou-se o primeiro banco português de capitais maioritariamente angolanos e contava com uma estrutura acionista idêntica à do BIC de Angola. Pouco depois começaram a separar negócios com exceção da Galp Energia.

Ao mesmo tempo que os investimentos angolanos em Portugal aumentam, o governo angolano procura angolanizar as empresas estrangeiras presentes no mercado nacional. Uma das primeiras joint-ventures obrigatórias deu-se a 12 de setembro de 2008 quando a Unitel, adquiriu 49,9% do capital do Banco de Fomento de Angola (BFA) ao BPI por 475 milhões de dólares (338 milhões de euros).

Em 20 de dezembro de 2009, Isabel dos Santos através da holding Kento Holding Limited, ficou com 10% da ZON Multimédia. Em maio de 2012, a Unitel International Holdings B.V., adquiriu 19,24%. Estas movimentações na ZON Multimédia tinham um pressuposto estratégico mais amplo e que passava por uma possível fusão com a Optimus do Grupo Sonae. A 14 de dezembro de 2012, a Sonaecom e Isabel dos Santos tornaram público a operação de fusão, que viria a dar à NOS.

A guerra com a PT começou em 2007 quando a Portugal Telecom anunciou a criação da África PT para agregar todos os negócios que a PT geria no continente africano, na sequência do processo de reorganização dos negócios da PT e a criação de uma parceria estratégica com a Helios Investors LP (Helios), um fundo aconselhado pela Helios Investment Partners LLP, para o mercado de telecomunicações subsariano. E mantém-se pois os angolanos desde 2011 que não permitem que a PT aceda aos dividendos ou nomeie administradores.

Em 17 de dezembro de 2008, o Banco Comercial Português, em que a Sonangol então já detinha 5%, anunciava que tinha vendido à Santoro Financial Holdings 9,69% do capital social do Banco BPI, banco em que reforçou a participação quatro anos depois passou a deter 18,6% do BPI. Em 2009 fez um acordo com a ZON para um projeto de televisão paga em Angola, a ZAP. Estes movimentos de ligações financeiras, comerciais, económicas pós-coloniais têm objetivos estratégicos para os angolanos. Por um lado, com a participação nos bancos em Angola têm acesso ao crédito, e com as conexões financeiras acedem aos circuitos financeiros internacionais através de bancos europeus.

Em abril de 2011, havia formalizado um acordo para a abertura de uma rede de hipermercados da marca Continente em Angola, e que deu origem à Condis, em que Isabel dos Santos detém 51% e a Sonae 49%, e em que a parte imobiliária do projeto era da responsabilidade da empresa de Isabel dos Santos, e a gestão operacional ficava a cargo da empresa de Paulo Azevedo. Este projeto está em banho-maria pois a Sonae desconfia que Isabel dos Santos aliciou os dois principais quadros do projeto e isso poderá levar à ruptura da ligação.

A sua jóia preferida é o diamante. Cliente de longa data da De Grisogono, comprou-a quando surgiu uma boa oportunidade.

Anos antes tentou negociar com a Viacer, empresa do grupo Violas, Arsopi e BPI, que controla a Unicer, um acordo para uma nova fábrica em Angola, mas falhou porque Isabel dos Santos não prescindia da maioria do capital. Em 2013, a Sodiba, empresa de Isabel dos Santos e Sindika Dokolo, fez um acordo com a Sociedade Central de Cervejas (grupo Heineken) que licenciou o fabrico da marca Sagres.

A jóia preferida de Isabel dos Santos é o diamante e é uma cliente de longa data da De Grisogono, criada por Fawaz Gruosi. Para os suíços, há muito que Isabel dos Santos tentava entrar no negócio da joalharia de diamantes com uma marca topo de gama, quando em 2012 surgiu a oportunidade. A De Grisogono estava a necessitar de ser capitalizada para manter a sua independência, sustentar o crescimento e investir numa nova fábrica. Isabel dos Santos, Sindika Dokolo e a Endiama/Sodiam, através da Victoria Holding, adquiriram 75% da empresa suíça de alta joalharia. Nesta operação de 100 milhões de euros, os suíços acreditam que esteve envolvida, pelo menos com consultoria, a Omega Diamonds, que factura em diamantes mais de mil milhões de euros.

Em setembro de 2014, Isabel dos Santos e Fernando Teles compraram as participações de Américo Amorim no Banco BIC Angola (25%) e Banco BIC Portugal (25%), e de António Ruas, um português emigrado no Brasil, que tinha 10% em cada um dos bancos. Com estas alterações, Isabel dos Santos passou a controlar 42,5% e Fernando Teles 37,5%.

Isabel dos Santos não tem uma holding corporativa que concentre e coordene os investimentos, como é norma dos grupos empresariais e conglomerados. Ela prefere criar para cada um dos negócios holdings, sedeadas em offshores como Malta, Madeira, ou a Holanda, que depois participam em cada um dos negócios feitos em Portugal ou na Suíça. O seu modelo de organização é mais semelhante ao de Américo Amorim, de quem se tem distanciado, e menos ao da Sonae. O Globo refere: “Dizem que a complexa estrutura dificulta mapear todos os investimentos da Leoa, como é conhecida em Angola”.

A sua estratégia financeira para Portugal sofreu um revés com a OPA da CaixaBank, como se denomina a entidade bancária da Fundação La Caixa desde 2011, ao BPI. Os sócios espanhóis informaram Isabel dos Santos da OPA mas não propuseram ou concertaram qualquer posição e Isabel dos Santos respondeu com a proposta de fusão do BPI com o BCP. Ao preço da OPA Isabel dos Santos poderia encaixar 360 milhões de euros depois de ter investido pouco mais de 177 milhões de euros. No entanto, no tabuleiro das negociações entre Isabel dos Santos e os sócios espanhóis está também o Banco de Fomento de Angola em que a Unitel, de que Isabel dos Santos é acionista, tem 49,9% e o BPI a maioria com 50,1%. E de acordo com as novas regras da supervisão bancária, o BPI terá de vender parte da sua participação no BFA ou aumentar o seu capital, pois reduzir a sua exposição ao banco angolano.

Mulher, africana e empresária

A 20 de agosto de 2013, no âmbito da reunião do BRICS Business Council, em Joanesburgo, Isabel dos Santos participou num painel ao lado de líderes empresariais, como Donald Kaberuka, presidente do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), que teceu várias considerações sobre a empresária Isabel dos Santos: “Trata-se do reconhecimento público e internacional da empresária Isabel dos Santos, como exemplo de empresária que enche de orgulho não só os angolanos como todos os africanos», sublinhando que “Isabel é um exemplo para as mulheres africanas, mas não só, é também um exemplo para todos os africanos”. Como reconhecia o Financial Times, “mesmo alguns críticos reconhecem a mestria independente de Isabel dos Santos como mulher de negócios”.

Admite que as mulheres no mundo dos negócios não têm o mesmo tratamento que os homens e são postas à prova.

Em 23 de setembro de 2014, Isabel dos Santos liderava o Top 10 das Mulheres Líderes de Negócios em África feito pela African Business Review. Isabel dos Santos reflete sobre o facto de ser mulher, jovem e africana: “Ser uma mulher e dedicar-me ao mundo dos negócios ou do investimento é um pouco desafiante. As mulheres, sejam de que continentes forem, sabem do que estou a falar. Nem todas as portas se abrem para si, não é habitual encontrar o mesmo tratamento e é possível que a ponham à prova. No entanto, se além de ser mulher ainda vem de África é duplamente desafiante. Se ainda por cima é jovem, não tem credibilidade aos olhos dos outros. É difícil mas penso que há uma nova tendência por todo o mundo.” Há sinais de mudança: “Se olhar para as várias economias, vemos muitos jovens a começar empresas, a tomar iniciativas e a criar emprego. Acho que as mulheres africanas já lá estão, já chegaram, estamos cá.”

Considera que também tem uma responsabilidade: “Temos de facto a responsabilidade de transformar este potencial em oportunidades e em factos concretos. Essa é a principal responsabilidade. Depois, claro, criar empregos e garantir que as pessoas têm acesso à educação. Enquanto mães, temos de garantir que os nossos filhos têm acesso à educação, vão à escola, que são boas pessoas e com os valores certos. É sempre importante ter bons valores e ética no negócio.”

As descrições sobre a sua personalidade não variam muito: “É muito fria, muito discreta, muito inteligente e tem uma profunda noção estratégica das coisas. (…) Simples, simpática e sem ostentação.” “Discretíssima, fantástica, de excelente caráter, simples e bem formada”, segundo o pintor e arquitecto Júlio Quaresma. Atualmente não se poupam qualificações num retrato pródigo em elogios: “Isabel é educada, sofisticada, serena e mãe-galinha, devotada ao marido, com quem discute todos os negócios. É bem informada, dura a negociar, muito arguta e inteligente, tanto na reflexão como nos comentários. Fala devagar, é ponderada e sabe ouvir. Mas, depois, leva sempre a água ao seu moinho.”

Evita dar nas vistas em público e a ostentação, mas gosta de se presentear com o melhor que a vida lhe pode dar.

Isabel dos Santos divide-se entre Luanda, Lisboa e Londres. Na capital portuguesa tem casa comprada através de offshore nos Estados Unidos, mas normalmente as suas reuniões de trabalho são no Hotel Ritz, onde por vezes se instala «rodeada de mordomias que expressamente solicita, mas evita ou declina aparecimentos em público», segundo a Africa Monitor, citada pelo Jornal de Negócios, e possui escritório na Avenida da Liberdade, no prédio da loja Louis Vuitton, junto do antigo cinema Tivoli. Também em Londres mantém um escritório, em Chelsea, junto da famosa King’s Road, e um apartamento em Mayfair.

Em Luanda, segundo a Visão, vive num condomínio de luxo, à saída de Luanda, «habitado por CEO de grandes empresas, (…) equipado com ginásio, coisa rara, na capital angolana, mas onde prefere o jogging matinal ao ar livre, Isabel terá duas casas, e nunca se sabe em qual delas está. (…) Tudo táticas de guerrilha, inspiradas no MPLA. Tal como o pensamento estratégico e os planos quinquenais com que raciocina.”

Para além das jóias, a paixão pela comida e pelo negócio da restauração perpassa pelas elites angolanas. No caso de Isabel dos Santos, cruza-se o gosto que tem pelo marisco e pelo peixe com o enlevo com que olha para a ilha e para a baía de Luanda, uma espécie de espelho de água onde se refletem os dois negócios de restauração, o Miami Beach e o Oon.dah, situado no prédio da Escom. Este último foi desenhado pelo arquiteto inglês Julian Taylor e tinha o chef Samson Peter, vindo do One & Only, um badalado resort das Ilhas Maurícias”. Isabel dos Santos veste-se de uma forma elegante e discreta, sem qualquer ostentação. Mas não deixa de se presentear com o melhor que a vida lhe pode dar.