A importância de parar para sentir o mercado

O terceiro evento do ciclo de palestras de empreendedorismo feminino, WE TALK by WomenWinWin, trouxe as experiências de Xana Nunes e Carmen Vicente nas áreas da comunicação/produção de eventos e consultoria tecnológica, respetivamente.

Xana Nunes: a larga experiência no mundo da moda e com a comunicação de marcas de luxo ensinaram-lhe a importância de ter radares atentos às mudanças no mercado.

À sua terceira sessão, o WE Talk by WomenWinWin trouxe ao auditório da Abreu Advogados, em Lisboa, a partilha de mais dois percursos de empreendedorismo singulares: Xana Nunes, fundadora e CEO da Actu e XN Lifestyle Group, e Carmen Vicente, fundadora e CEO da PPM Coachers. Mas, ainda que a desenvolvem os seus projetos em áreas tão diversas como a comunicação e produção de eventos e a consultoria em soluções tecnológicas, de ambas as experiências ressaltaram conclusões comuns, como a necessidade de parar para sentir e avaliar o mercado, de modo a trazer novos inputs criativos ao negócio, adaptando-o a um mundo em mudanças cada vez mais rápidas.

Entender as mudanças da maré

Esta é uma das máximas de gestão que Xana Nunes, que ao longo de três décadas de carreira em moda, comunicação e produção de eventos, o foi pondo em prática de forma algo espontânea: parar para observar as mudanças de ciclo no mercado e no país, aprender com os erros e redefinir estratégias, readaptando o negócio a novas realidades.

Na juventude, a moda pouco lhe dizia, confessa — queria ser arquiteta e desenhar casas pelo mundo inteiro. Mas aos 18 anos desafiaram-na a fazer os primeiros trabalhos como modelo e foi descobrindo um mundo onde as possibilidades não se restringiam às passarelles. Aos 19 já criava e apresentava à Adidas o primeiro espetáculo de moda desenhado por si. “E assim começou a minha atividade como produtora de eventos, a princípio ainda coabitando com o modeling. Sentia que havia muita coisa para fazer e que estava tudo muito atrasado por cá, comparativamente ao que se fazia em Paris, Milão ou Nova Iorque.”

Pouco depois, Eduarda Abbondanza desafiava-a a fazer a comunicação e relações públicas da ModaLisboa, projeto que dava os primeiros passos em 1991. “Foi uma mentora forte porque confiou a comunicação de uma marca como essa a uma jovem que estava a começar.”

Com o início da década de 90 e a abertura de novos canais de televisão privados surgiu a oportunidade de levar a moda à plataforma audiovisual. Aprendeu novas competências, como a colocação da voz ou a escrita de textos para televisão.” Mas o confronto com a realidade da ditadura das audiências mostrou-lhe que o seu caminho era outro e que até os projetos mais interessantes têm prazo de validade.

Um dos marcos mais interessantes da sua carreira chegaria em 1999, quando se começava a falar de luxo em Portugal e ao responder ao pitch para criar um espetáculo para a inauguração da primeira loja da Cartier em Portugal. Com o grupo Richemont descobriu os meandros da comunicação das marcas de luxo e decidiu criar a própria empresa, a XN, para trabalhar o segmento. Durante 10 anos foram responsáveis pelas inaugurações de lojas de marcas high end na hiper exclusiva Avenida da Liberdade, criando eventos em locais lisboetas luxuosos, direcionados a líderes de opinião nacionais e internacionais. “Comecei com uma empresa pequena: primeiro era só eu, depois éramos 2, 3, até chegarmos às 12 pessoas. Já estava a criar pouco e a liderar mais; estava muito no terreno e tinha pouco tempo para a pausa. Acho que só conseguimos andar em frente quando paramos para sentir o mercado; são essas fases que nos fazem redesenhar as nossas empresas.”

“Gosto de criar e desenhar projetos. Foi preciso beber a poção da coragem e reverter o negócio, dizer às pessoas com quem tinha avançado para o projeto que tinha de encolher porque era mais feliz mais pequena.” Xana Nunes

Numa fase posterior decidiu juntar-se a outras empresas a operar na mesma área de negócio, com o objetivo de criar um grande grupo de moda em Portugal que pudesse oferecer uma série completa de serviços. “Saí do terreno e passei a estar na administração, juntamente com outras pessoas, responsável por 60 ou 70 colaboradores. E percebi que aquela não era a minha dimensão. Gosto de criar e desenhar projetos. Foi preciso beber a poção da coragem e reverter o negócio, dizer às pessoas com quem tinha avançado para o projeto que tinha de encolher porque era mais feliz mais pequena.”

Durante esses anos Lisboa foi se transformando, abrindo-se a novos públicos que acorriam de todo o mundo para descobrir a cidade, ao mesmo tempo que empresas de tecnologia internacionais se estabeleciam por cá, com novas ofertas de plataformas pensadas para as marcas que, até aí, tinham sido os clientes finais da XN. “Hoje as marcas investem em plataformas de CRM fantásticas e comunicam diretamente com o consumidor final. Mais uma vez parei para sentir e percebi que a agência tinha que tomar outros rumos.” Apresentou então à Câmara Municipal de Lisboa um projeto cultural e turístico, assente na redescoberta da capital acessível a todos os públicos. Nascia o Lisbon Week, que já vai na sua 4ª edição e que acaba de renovar o seu protocolo com a autarquia para mais edições. O ano passado surgiu uma terceira vertente, a XN Experience, que dá a conhecer Lisboa, de uma forma luxuosa e intimista, a clientes internacionais mais exigentes. “Agora estou numa fase de aprendizagem diferente: conseguir liderar 3 empresas com a essência de cada uma delas, sem estar no terreno e confiando às minhas equipas a responsabilidade de seguir estes sonhos que vou desenhando.”

A engenheira eletrónica e empreendedora, Carmen Vicente, sabe que a aposta em formação e certificação de recursos humanos é essencial ao crescimento da sua empresa.

Fórmula do sucesso: rigor e aposta em talento humano

Engenheira informática especializada em microeletrónica, nascida em Madrid, Carmen Vicente chegou a Portugal em 1997 a convite de uma empresa de consultoria nacional. A carreira já a tinha feito passar pela Fujitsu, mas bastaram-lhe 8 meses na multinacional informática para perceber o que não queria fazer. “Batas brancas e osciloscópios não são para mim. Gosto de comunicar. Comecei a desenvolver aplicações para o setor financeiro.”

Em março de 2008, tinha chegado ao máximo que a carreira lhe permitiria dentro da consultora e encontrava-se “numa situação de insatisfação pessoal, sem grandes planos de carreira.” Um dia, quando um amigo lhe confidenciou que os seus chefes tinham verbas para investimento, sem saberem, no entanto, como as aplicar, respondeu de forma inocente e descontraída: “Que me deem o dinheiro e logo lhes digo como rentabilizá-lo.” O comentário chegou mesmo aos ouvidos dos empresários espanhóis, que se prontificaram a marcar uma reunião com ela em Lisboa, uma semana mais tarde, convidando-a a apresentar-lhes um plano de negócio rigoroso.

Em setembro de 2008 arrancava o projeto conjunto de uma empresa criada de raiz, que começou a operar com dois colaboradores. “Foi uma aprendizagem muito interessante para mim, em termos do processo de controlo de gestão que a empresa acionista colocou na nossa pequena start up. Fizeram algo que, a princípio, me surpreendeu e custou a compreender o valor: atribuíram-me um mentor sem eu ter pedido. Acabou por ser uma das melhores coisas que me aconteceram.”

Os primeiros tempos de atividade obrigaram-na a tomar decisões importantes. Imobilizada devido a um acidente, propôs a um amigo já reformado, mas com uma enorme rede de contactos, que a substituísse no desenvolvimento da carteira de clientes. “Demonstrou-me que apostar na senioridade e experiência de pessoas com grande percurso empresarial é essencial. Ainda continua a trabalhar connosco, enquanto networker, e é um excelente comercial.” Meses depois conseguiam o primeiro grande contrato, com uma faturação anual de 500 mil euros, e conseguiram reverter a situação económica desfavorável. “Entre setembro de 2009 e abril de 2013 foi sempre a subir. Abrimos escritórios em Angola e em S. Paulo, Brasil. Não digo que todos eles fossem projetos bem-sucedidos, porque tivemos que encerrar essas operações, mas foram de grande aprendizagem.”

Em abril de 2013, e já com o estatuto de empresa mais rentável de um grupo internacional com mais de 500 pessoas, o acionista espanhol comunica que está em falência técnica provocada pela falta de pagamento do seu principal cliente. Na perspetiva de serem adquiridos por uma empresa japonesa, Carmen informou-se e concluiu que tinha direito de preferência na compra das ações da empresa. Agiu de imediato, assegurando a capitalização através de um outro investidor, até o acionista original recuperar a sua antiga posição.

Obrigada a mudar de marca e perdendo a referência do nome no mercado, 2014 a viria a ser um ano difícil para a PPM Coachers, com uma quebra de 40% no volume de vendas. Valeu-lhes uma gestão financeira rigorosa. “Em 2015 começámos a recuperar a confiança no mercado e temos vindo a crescer até agora. Os anos de 2017 e 2018 têm sido muito interessantes; recuperámos os níveis de 2013, os melhores da nossa história, e temos projetos em Espanha.”

“O nosso valor mais apreciado são os recursos humanos. Temos um percurso de desenvolvimento profissional muito exigente para todos eles; assumimos os custos todos de formação e certificação internacional, algo muito valorizado no mercado.” Carmen Vicente

O segredo para o sucesso empresarial está em atitudes positivas como a procura de networking e mentoring, ou a especialização em gestão de projetos, alargada a clientes de vários setores de atividades de modo a diversificar o negócio. “A gestão de tesouraria é importantíssima, também. Propusemos um modelo de faturação antecipada, no qual fazíamos desconto, mas que ninguém pensaria que fosse resultar. Diminuiu muito a necessidade de recurso ao crédito e hoje temos clientes que preferem essa modalidade.”

Outro grande trunfo foi a aposta na formação e retenção de talento. “O nosso valor mais apreciado são os recursos humanos. Temos um percurso de desenvolvimento profissional muito exigente para todos eles; assumimos os custos todos de formação e certificação internacional, algo muito valorizado no mercado. Mas as pessoas têm que ficar na nossa empresa porque querem e não porque temos cláusulas de retenção. Curiosamente, temos uma das taxas de rotação de colaboradores mais baixas neste contexto.” Descobriram também mais-valias em projetos de responsabilidade social. “Alguns dos nossos colaboradores mais valorizados hoje foram descobertos depois de pormos anúncios de formação gratuita para desempregados.”

O ciclo WE Talk by WomenWinWin, que começa sempre com um descontraído pequeno-almoço de networking, já tem a sua 4ª sessão agendada para dia 27 de junho, com a participação de Cristina Fonseca, co-fundadora da empresa de consultoria informática Talkdesk e Venture Partner na Indico Capital Partners, e de Helena Amaral Neto, partner da Luxulting e fundadora da marca Tela Bags.