Helsínquia, por Marta Reprezas

Vinda de Moçambique, estabeleceu-se em Portugal durante oito anos. A educação da filha fê-la rumar até à Finlândia. Segue-se o seu retrato da capital finlandesa.

Marta Represas e a filha, sempre de gorro, uma peça imprescindível devido ao frio.

Em Moçambique, tinha a sua própria empresa de design e comunicação. Na Finlândia, o seu currículo e experiência valem pouco. “Não falando finlandês, estarei sempre limitada a trabalhos relativamente mal pagos”, reconhece Marta Represas. Mas, trabalhando num complexo turístico, auferiu “três vezes mais que o salário mínimo em Portugal”. Reconhece que os impostos e o nível de vida são elevados, mas a saúde a a educação são garantidos “a custo zero”.

A educação da sua filha foi a razão porque zarpou de Cascais, rumou à gélida Finlânida, primeiro em Turku, agora em Helsínquia. “Depois de oito anos em Portugal, em que ela cumpriu a creche e o 1.º ciclo, ao fim de duas semanas do 5.º ano tomei a decisão e fui para um país onde a educação é, efectivamente, uma prioridade. Há muitos anos que andava de olho na educação dos países nórdicos. Proporcionou-se neste país”, conta.
“Já passaram dez meses e pouco me diz para voltar”, revela Marta Represas. Depois de um trabalho sazonal, concorreu para se graduar como chef de cozinha.Portuguesa que sou e com a limitação da língua, entrar pela comida é seguramente um valor acrescentado. A comida cá é extremamente cara!” Em paralelo, está a criar uma marca portuguesa, numa plataforma online que irá ser divulgada em breve. Eis como é Helsínquia, numa viagem conduzida por Marta Represas.

Marta Represas, a filha, e o Outono em Helsínquia.

Vista de Kauppatori, o mercado, e o cais na cidade velha.

Quais os monumentos que não podemos deixar de ver? Adorei o Lelumuseum, museu do brinquedo na Ilha Suomelinna, a dez minutos de ferry de Helsínquia. Todos os museus aqui são bons. Outro local obrigatório é a escultura em homenagem ao compositor Sibellius, que nos delicia com os efeitos sonoros feitos pelo vento eos  reflexos do sol nos seus imensos tubos. Ou a igreja da pedra, pela sua característica arquitetura, em bronze e pedra. Lindíssima! É obrigatório passar por Porvoo, uma cidade que remonta ao ano de 1600, a 50 quilómetros da capital. E o monumento que vem da Natureza, as auroras bureais!

Escultura em homenagem ao compositor finlandês Sibelius.

Os pratos típicos a experimentar? Indiscutivelmente Lohikeitto, a sopa de salmão, e os Korvapuusti, um doce que parece um caracol de cardamomo, canela e açúcar. Adorei Lanttulaatikko, puré de nabo, típico do Natal e uma delícia.

Qual o seu café de eleição? O Bergga, em Kallio, por nos ter acolhido desde que aqui chegámos. Um café calmo, onde podemos sentar e navegar, trabalhar ou conversar com um amigo completamente livre do mundo de fora. Podem estar 10 graus negativos lá fora.

E o restaurante? Arriscaria a dizer o “Beef&Grill” em Kampi, que serve uma carne dos deuses! 

O restaurante Beef&Grill.

A livraria? Oh, nem pensar. Aqui o must são as bibliotecas: locais de elevadíssimo serviço, muito utilizadas pelas escolas e locais, onde além da leitura podemos fazer fotocópias ou impressões, presenciar actividades lúdicas para os miúdos ou ter aulas de música.

A sala de espetáculos? Falhei o concerto dos Kiss – até a estação de comboios fez uma homenagem, pintando as esculturas à entrada. O local para os concertos é em Hartwall Arena. Espero não perder o concerto de Roger Waters em Agosto de 2018.

É uma questão de cultura. O Re aproveitamento. Gosto.

Onde faz as suas compras de roupa e sapatos? Existe nesta terra uma cultura fantástica de lojas em segunda mão, com produtos de elevada qualidade. Por exemplo, ontem comprei uns ténnis Addidas para a filha, ainda com etiqueta, completamente novos, em segunda mão por 10 euros. Talvez pelo frio extremo, toda a roupa necessária pode ser adquirida em segunda mão com preços fantásticos e em excelentes condições. É uma questão de cultura. O Re aproveitamento. Gosto.

Onde gosta de passear nos momentos de lazer? Na natureza, que é o que esta terra tem. Ou em museus e locais de história. Estamos numa fase de integração. Na realidade gosto mesmo de passear pela cidade.

O “chico esperto” aqui não se safa.

Qual o segredo mais bem guardado de Helsínquia? A honestidade deste povo. É um choque cultural elevadíssimo. O “chico esperto” aqui não se safa. Pedir um favor burocrático na função pública é perda de tempo. 

E o local muito recomendado mas que não vale a pena. Para mim, a sauna. Há quase tantas saunas quantas as pessoas. Eu pessoalmente não aguento com o calor. Quem sabe daqui a uns anos venha a gostar. Mas é uma tradição: as casas têm saunas.

Na Finlândia, há uma sauna em quase todas as casas.

Qual o spot do momento? Há imensos sítios e locais muitos bons para se visitar. Impera algo que gosto – o design. Em cada canto, cada loja, jardim, bar, prédio.

Em 20 minutos, no máximo, chegamos onde queremos.

O que mais gosta na cidade? A cidade em si. Acolhedora e em 20 minutos, no máximo, chegamos onde queremos. Os transportes funcionam ao minuto e são de qualidade. Apesar de as pessoas não serem calorosas, a cidade em si é muito. As crianças andam sozinhas desde muito cedo, com segurança.

Teatro e estação central: os transportes são pontuais e em 20 minutos chega-se a qualquer destino na cidade.

O que menos gosta? O consumo de álcool.

O local onde gosta de descansar ou se inspirar?  Sempre perto do mar. O mar aqui é que não me dá as ondas dramáticas do Guincho!

Como define as mulheres da cidade (estilo e personalidade)? Completamente livre. O importante é conseguir manter algum estilo estando completamente tapadas!

Qual a mulher que melhor retrata o espírito de Helsínquia? Há dias fui entrevistada por uma jornalista finlandesa: calma, sem ser intrusiva e respeitou o nosso off the record. Todas as mulheres que fazem andar este país. Sisu aquele termo que define este povo e com o qual me identifico tanto.

Que hábito ganhou nessa cidade que não tinha em Portugal? Usar o gorro todos os dias em todos os momentos no exterior.