Francisca van Zeller: um espírito irrequieto

Tem o Douro no coração, mas só se formou como enóloga, depois da licenciatura em História e de um mestrado em Jornalismo. O objetivo é saber o máximo para tornar a Van Zeller uma casa consagrada de Vinho do Porto.

Francisca van Zeller é gestora de marcas da Van Zeller & Companhia e da Quinta do Vale Dona Maria.

Em 2018, Francisca van Zeller fez 42 apresentações de vinhos e formações a equipas de armazenistas só em Portugal. Por acaso, viajou menos para fora. Mas normalmente fá-lo de 15 em 15 dias para promover os vinhos das suas casas, a Van Zeller & Companhia e a Quinta do Vale Dona Maria, nos mercados internacionais. Grande parte do trabalho que desenvolve é como embaixadora e promotora dos seus vinhos junto das empresas clientes.

Uma das razões para ir lá fora é reforçar a presença nos principais mercados para onde exportam, os casos de Macau, Estados Unidos, Canadá, China, Brasil e Alemanha. O trabalho inclui provas com consumidores, escanções e comerciais das empresas, formações, reuniões de vendas e jantares vínicos. Mesmo em alguns pequenos mercados, como a Noruega, Dinamarca ou a Finlândia, “temos de fazer uma visita, pelo menos, uma vez por ano, para estar com o importador e apoiá-lo nas vendas”, diz Francisca van Zeller. Muitas vezes esse trabalho passa também por participar em feiras de portefólio organizadas pelo importador. Depois há todo um trabalho, de índole semelhante, realizado em Portugal.

Espírito irrequieto, sempre com vontade de fazer coisas novas, Francisca van Zeller diz que herdou, da família, uma veia de companheirismo e cooperação, que tem a ver muito com as gentes do Douro. Afinal, “não estamos sós neste negócio”, afirma. Por isso mesmo integrou o projecto Douro Boys, de que o seu pai, Cristiano, foi co-fundador.

Mulheres nos vinhos

Inclui cinco empresas da região duriense, Quinta do Vallado, Niepoort, Quinta do Crasto, Quinta Vale D. Maria e Quinta do Vale Meão e tem tido um papel relevante na promoção, no estrangeiro, da região do Douro desde 2003. “No ano passado trouxemos quatro grupos educacionais, com escanções de todo o mundo, em programas que incluíram visitas às quintas, master classes, apresentações e almoços. São formações que vamos dando, pouco a pouco, a estes difusores dos nossos vinhos”, conta Francisca van Zeller, que integra hoje, com Luiza Olazabal (Quinta do Vale Meão) e Rita Camelo (Quinta do Crasto), uma organização que também passou a ser de “Girls”.

Francisca van Zeller também se envolveu nas d’UVA – Portugal Wine Girls. Este grupo de promoção vinícola inclui, para além de Francisca van Zeller, Catarina Vieira, da Herdade do Rocim; Luísa Amorim, da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo; Mafalda Guedes, da Sogrape; Maria Manuel Poças Maia, da Poças Júnior; Rita Cardoso Pinto, da Quinta do Pinto; Rita Fino, do Monte da Penha; e Rita Nabeiro, da Adega Mayor. “Está na continuidade de negócios familiares e irá ser reorganizado depois de definirmos o que podemos fazer mais daqui para a frente”, conta a entrevistada.

Douro sempre, e para sempre

Francisca van Zeller nasceu a 26 de Agosto de 1986 no Hospital da Lapa, no Porto. Cerca de um mês depois fez a sua primeira viagem a terras durienses. Por isso, sente que nasceu no meio das vindimas da Quinta do Noval, propriedade da sua família na altura. “Tenho imensas fotos de bebé e em criança no Douro, onde festejei quase todos os primeiros aniversários”, conta.

Viveu toda a sua infância e juventude no Porto, onde frequentou o Oporto British School, perto da foz do grande rio, e lembra-se de inventar a língua inglesa antes de a saber falar e de ter um grande fascínio pelo Reino Unido enquanto criança. Era natural, pois toda a gente ligada ao Vinho do Porto falava em inglês, “a língua mais comum do negócio em Portugal”.

Também se recorda que uma das primeiras tarefasde que foi incumbida pelo colégio foi saber qual a razão para os seus pais a terem colocado lá. E da resposta do pai, Cristiano Van Zeller: “porque o meu negócio é o mundo dos vinhos e eu quero que os meus filhos consigam acompanhar as conversas quando estão à mesa”.

A partir da venda da Quinta do Noval ao Grupo Axa, em 1993, o pai passou a desenvolver o projecto da Quinta do Crasto, propriedade da família de João Roquette. A vida de Francisca van Zeller manteve-se ligada ao Douro, onde acompanhava o pai na caça a perdizes e coelhos, pescava no rio, explorava, brincava e se sentia livre.

Uma das vertentes que desenvolveu desde cedo no colégio foi a da comunicação. O mundo dos vinhos inclui natureza, ciência e tecnologia ligada à viticultura e enologia, e a parte humana. “É isso que mais me motiva ainda hoje: estar com pessoas, entendê-las e fazer-me entender”, defende Francisca van Zeller. É algo aparentemente genético, porque na sua família sempre teve “pessoas com personalidades muito fortes, capazes de comunicar a sua visão sobre as coisas”, explica.

É verdade que muitas vezes o vinho fala por si. Mas o negócio que envolve não consegue viver sozinho. Precisa de pessoas que o expliquem e contem as histórias que o envolvem, seja no sector do Vinho do Porto ou noutro qualquer. Sobretudo porque a sua imagem no mercado ganha com isso.

É essencial saber comunicar

Mas não foi nem comunicação nem enologia que Francisca van Zeller frequentou no ensino superior. Na hora de escolher a formação, quando comunicou ao pai que queria especializar-se no primeiro ramo, para estar mais próxima do negócio, este perguntou-lhe se não gostaria de seguir outra opção.

Depois disso optou por frequentar História, a disciplina que lhe dava mais prazer estudar e onde tirava melhores notas. “O que aprendi no curso, tenho-o aplicado de forma que nunca imaginei fazê-lo na vida”, diz. Explica, referindo que, no sector dos vinhos, é absolutamente necessário viajar, já que o negócio é global e nenhuma empresa consegue sobreviver, pelo menos de forma sustentada, vendendo apenas num mercado. E é preciso acompanhar cada um deles de perto, tendo, na bagagem, uma grande capacidade de adaptação e tudo o resto que é importante: o vinho, o sítio onde é produzido, as suas histórias e as das suas pessoas. “Tudo isso é necessário para fazer sentar a uma mesa para conversar um taiwanês, um norte-americano ou um brasileiro”, defende Francisca van Zeller. “É necessária capacidade para o fazer”, acrescenta.

Ou seja, é preciso saber que há muitas diferenças no mundo a nível social, cultural, de comportamentos que é necessário entender, para se poder comunicar em cada mercado. Quando se pretende entrar num novo, é preciso ter conhecimentos firme sobre a forma de chegar lá e de comunicar com simplicidade e eficiência para chegar às suas pessoas. “É um exercício que se faz em história, e também, de alguma forma, em marketing, e a formação que tive tem sido uma ferramenta muito útil para desempenhar bem a profissão que escolhi”, explica Francisca van Zeller. Acrescenta que foi aprimorando, com o tempo, a capacidade de se relacionar e comunicar com os outros, sobretudo simplificando e melhorando a clareza com que transmite a informação.

Fez a licenciatura na Universidade de Londres, no Royal  Holloway, em Egham, e um mestrado em Jornalismo, em Madrid, na Universidade CEU de San Pablo, em parceria com a Escola de Jornalismo e Comunicação da Unidade Editorial, grupo que detém, em Espanha, o Jornal El Mundo, entre outras publicações. Depois de o terminar, teve algumas ofertas de trabalho no mundo dos vinhos. Mas achou que não estava preparada para entrar no sector onde se sentia mais confortável, e que precisava de aprender um pouco mais. Por isso optou por trabalhar na Strawberry World, empresa madeirense ligada ao turismo, entretanto fechada, a produzir conteúdos online.

Dois anos depois surgiu a oportunidade de trabalhar na Bacalhôa Vinhos de Portugal, como Relações Públicas, onde participou também no desenvolvimento da comunicação interna do grupo.

“Como foi a maior empresa de vinhos em que trabalhei em Portugal, com produção em diversas regiões do país que não conhecia bem, como a Bairrada, Península de Setúbal e Alentejo, aprendi muito sobre os vinhos nacionais”, conta. Também percebeu que a atitude “de construção e entreajuda, que existe no Douro”, não era a comum em Portugal. “Foi um choque”, comenta, acrescentando que houve mesmo quem se levantasse, durante uma sessão pública com jornalistas, para criticar o que estava a dizer, quando referiu que a sua empresa não adicionava açúcar ao vinho. “Claro que adicionas”, ouviu alguém dizer do meio da plateia. Seria muito mais positivo, para o sector, que os seus produtores se empenhassem de forma mais racional em relação à competição cá dentro, e com mais empenho com a do verdadeiro mercado actual, o global, principalmente “porque ainda temos a aprender uns com os outros”, explica.

O regresso à casa da família

Dois anos depois de ter entrado na Bacalhôa, passou a trabalhar com o pai na Quinta do Vale Dona Maria, em 2013, onde ainda se mantém. Nesse ano começou uma pós-graduação em enologia na Faculdade de Biotecnologia da Universidade Católica do Porto, que decorreu em horário pós laboral, porque sentiu necessidade de ter um conhecimento mais profundo nesta área.

Na empresa é gestora de marcas da Van Zeller & Companhia e da Quinta do Vale Dona Maria. Na primeira produz VZ branco e tinto, e Van Zeller branco, tinto e Porto. Na segunda são produzidas as marcas Vinha Francisca, Vale do Rio, Quinta do Vale Dona Maria, CV Three Valeys branco e tinto, Rufo Vale Dona Maria branco e tinto e os Vinhos do Porto.

Na organização dos portefólios, a base é a vinha e o que ela produz. A partir daí “foi preciso desenvolver mercados, identificar novas oportunidades, criar novos vinhos, fazer reformulação de gamas e o redesign das embalagens”, trabalho realizado por Francisca, que agora está envolvida no cimentar dos canais de distribuição dos vinhos das duas empresas, principalmente desde que estas foram integradas no Grupo Aveleda, em 2017.

Para o futuro, Francisca van Zeller gostava de dar o seu contributo para tornar, a Van Zeller & Companhia, numa casa consagrada de Vinho do Porto. Trata-se de uma empresa antiga do sector, que passou duas vezes por períodos de abandono, uma entre os séculos XIX e XX, e outra nos anos 1990. Para já, a empresa possui o stock mínimo exigido por lei, para poder comercializá-lo. Os seus responsáveis estão agora em fase de definição dos tipos de Vinho do Porto que querem comercializar e da estratégia de mercado.

Segundo a entrevistada, o futuro do sector de Vinho do Porto passa pelo posicionamento super premium dos seus vinhos, essencial para diferenciar a qualidade da sua origem em relação aos restantes fortificados que se produzem no mundo. E dá, como exemplo para que isso aconteça, o estabelecimento de parcerias como aquela que a Niepoort estabeleceu com a centenária casa Lalique, fundada em Paris pelo mestre joalheiro e vidreiro francês, René Jules Lalique.

“Também pretendo ajudar a construir, para as marcas das duas empresas, um posicionamentoque ainda não possuem a nível internacional, que reflicta a sua qualidade perceptível”, diz ainda Francisca van Zeller. É uma vontade comum a muitos produtores portugueses, e “é um esforço de uma vida”.