As “Flausinas” de Inês Risques vieram quebrar regras, com estilo

Inês Risques estudou e trabalhou em três continentes, fez carreira no mundo da alta finança, especializou-se na gestão de marcas de luxo. Depois de regressar a Portugal criou a Flausinas, uma marca de moda feminina com um conceito arrojado. A primeira coleção esgotou em menos de dois meses. Inês partilha connosco as suas lições de empreendedorismo.

Peças de tamanho único, com frente e costas de padrões diferentes são a assinatura das Flausinas.

Quando Inês Risques criou as Flausinas não quis chamar nomes a ninguém, mas sim fazer nascer uma marca de moda feminina que quebra cânones de costura: um modelo que serve a toda a gente, em que a frente e costas dos vestidos ou tops se vendem em separado e têm padrões diferentes, unindo-se através de um prático sistema de fechos. Depois, as possibilidades de combinação multiplicam-se. Chegaram a dizer-lhe que o conceito que idealizava era quase impensável, mas Inês não se deixou convencer e, com a ajuda da avó de 88 anos, conseguiu chegar a um modelo final de vestido. A primeira coleção esgotou, no verão de 2017, e hoje tem uma loja aberta em Lisboa, na Baixa, que conquista fãs nacionais e estrangeiros.

No entanto, não foi na indústria da moda que iniciou a carreira e, sim, na alta finança. Licenciada em Economia pela Universidade Nova de Lisboa, em 2006, começou a familiarizar-se com o complexo mundo da gestão de risco de taxas de juro, primeiro ainda como estagiária no grupo Espírito Santo e, pouco depois, na JP Morgan, em Londres, onde chegou em 2007 como parte de um graduate program. Ali trabalhou em análise quantitativa até ao final de 2008, quando foi convidada a trabalhar na sede daquele banco, em Nova Iorque, servindo de elemento de ligação entre a equipa norte-americana e a britânica.

Em 2013, a vontade de saber mais sobre outras áreas levou-a a fazer um MBA na Universidade da Cidade do Cabo, na  África do Sul. “ Já planeava fazer um MBA, mas com mais experiência de trabalho. Já a tinha na Europa e Estados Unidos, mas faltava-me o conhecimento dos mercados emergentes.” O programa do curso focava-se muito em liderança, desenvolvimento pessoal, empreendedorismo social e responsabilidade social, uma experiência que se tornou num “convite a repensar na vida e na carreira”. A pequena máquina de costura que levou consigo ajudou-a a dar asas à criatividade, inspirada pelos tecidos coloridos das capulanas africanas — e viria a ser a semente para, mais tarde, criar as Flausinas.

Inês Risques, a criadora e diretora da marca.

Seguiu-se outro MBA no ESSEC Business School, em Paris, centrado em criação, estratégias e gestão de marcas de luxo, após o qual regressou a Portugal. Um convite da professora Catherine da Silveira levou-a a aceitar o desafio de ensinar a cadeira de Luxury and Fashion Marketing dos mestrados em Gestão, na Nova School of Business and Economics, que agora concilia com a sua atividade enquanto empreendedora e criadora no negócio da moda.

Como surgiu o nome “Flausinas”?
Sempre adorei ditados populares e expressões antigas, talvez por ter vivido fora de Portugal muito tempo. Comecei a pedir a toda a gente que conhecia, ou que ia experimentar os vestidos, que me dissesse expressões portuguesas giras que conhecessem. Alguém lembrou o termo flausina, que se usava muito quando era pequena e, quando ouvi a palavra, não tive dúvidas. Não conhecia a expressão, que no fundo reflete mulheres com pensamento independente e que até se vestiam com um conceito muito avançado para a época.

Como surgiu a ideia para as peças?
Quando fiz o mestrado no ESSEC apaixonei-me pela forma como as marcas de luxo mais antigas, como a Hermès e Chanel, se especializaram em fazer peças personalizadas. Achei fascinante o regresso da vontade de personalizar, sermos autênticos. Mas as marcas de luxo só o têm à disposição de alguns. Isso fez-me pensar porque é que a personificação não era mais democrática e fácil. Porque é que só há fast fashion, em que toda a gente veste o mesmo, ou alta costura? Foi então que surgiram as variáveis que eu queria cumprir nas minhas peças: um conceito de personalização, mas também de muita simplicidade — peças de tamanho único que servissem a toda a gente. Cada metade é simétrica, ou seja, costas e frente têm o mesmo tamanho e têm um padrão distinto uma da outra. Com três metades fica com 2 dois vestidos ou tops, que pode usar de quatro maneiras diferentes – porque pode usar cada metade à frente ou atrás. Cada metade custa 49 euros e multiplica as opções de combinação. 

A coleção de verão foi feita em tencel, uma fibra seminatural à base de bambu, com uma componente de sustentabilidade grande e que é um material muito sustentável em termos de reutilização de recursos, muito leve. A coleção do inverno passado foi feita em pura lã nacional, em burel e lã alentejana de mantas. Os padrões que desenhamos, e que são produzidos de forma limitada, são depois reproduzidos nos tecidos através de estampagem digital. 

Quantos protótipos de vestidos desenhou até acertar?
Muitos! Desenhei-os, afinei-os e a minha avó costurava. A minha avó foi essencial, uma espécie de diretora de produção das Flausinas, porque ela é que fez os primeiros modelos. Mas houve muita coisa que teve de ser afinada. Depois, todas as pessoas que lá iam a casa experimentaram os vestidos. Mais tarde, uma modista disse-me que era muito difícil conseguir um modelo de tamanho único, simétrico, em que o tamanho da frente é igual ao das costas. Mas acho que o facto de eu vir de outra área me ajudou pensar as coisas de outra forma, juntamente com a minha criatividade. Hoje tenho uma designer australiana a trabalhar comigo.

Quais as fases mais importantes da concretização deste negócio?
Garantir fornecedores – só abri a empresa quando isso aconteceu. Queria que tudo fosse feito em Portugal e que os tecidos fossem portugueses. Depois, o lançamento. Há sempre uma noção de perfecionismo que nos leva a hesitar em lançar logo a peça sem sabermos se está perfeita. Decidi que ia deixar de querer que estivesse logo tudo perfeito e que era preciso mostrar primeiro as peças para depois as melhorar. Essa foi uma grande lição. O lançamento das Flausinas aconteceu numa feira de solidariedade da Associação Salvador, a 1 de junho do ano passado, e serviu para testar tudo, deu-me o feedback do público ao conceito. A reação de pessoas de todas as idades foi muito positiva, demonstraram logo muito interesse. Não sabia sequer se as pessoas iriam achar piada ao conceito. A loja online abriu em julho e a loja física abriu em agosto. 

Qual é a vossa cliente alvo?
As clientes vão dos 15 anos aos 70, por isso a idade não é fator de identificação. As nossas clientes são mulheres com alegria em vestir coisas originais, coloridas, personalizáveis. São pessoas que querem coisas feitas à mão, originais, com muita qualidade, feitas por designers locais e com muita sustentabilidade, já não querem comprar fast fashion. 

A marca foi lançada no verão de 2017, primeiro online e, um mês depois, com a abertura de uma loja em Lisboa.

Na era das lojas online, o que a levou a abrir um espaço no centro de Lisboa?
É  importante perceber que a abertura das lojas digitais não significa que as lojas físicas deixem de ter importância. A Inditex não está a abrir muitas novas lojas, mas as que existem são catedrais. Para uma marca nova como esta é muito importante ter um espaço físico porque lhe dá credibilidade. Além disso, as pessoas precisam de ver as peças ao vivo, experimentá-las, nem que seja para depois comprarem online. As vendas online em Portugal estão a crescer, mas ainda são pequenas em relação às compras em loja; há muitas marcas online e este é um mercado muito competitivo. Têm sido dois pontos de venda muito complementares para nós.

Que lições tem aprendido enquanto empreendedora?
A principal foi aprender a confiar nas minhas decisões e no meu instinto. Toda a gente vai ter uma opinião e muitas vezes acabo por pensar: “será que deveria estar a fazer isto de outra maneira?” Mas uma empreendedora só pode agir segundo aquilo que acha que é correto, pois o bem e o mal vão recair sobre si. Há uma frase de que também gosto muito e que ouvi a alguém: adoro enganar-me; significa que continuo a arriscar.

Quais têm sido os seus principais obstáculos e desafios?
O principal desafio é ser mais paciente e ponderada, saber esperar que tudo siga o seu rumo e tentar não ter uma exigência maior com as Flausinas do que aquela que é viável. Como as minha referências são corporativas, muitas vezes quero fazer as coisas de uma maneira que não é compatível com a dimensão da marca. É preciso deixá-la crescer com a identidade que tem; há que aprender a gatinhar antes de andar. Essa é a minha maior dificuldade.

Qual foi o investimento inicial?
Não foi muito grande, precisei de relativamente pouco capital. O principal investimento foi no espaço físico, nas obras que foi preciso fazer nele e nas matérias primas.

Que celebridade gostava de ver vestida com uma criação sua?
Ver a Meghan Markle com um vestido Flausinas seria qualquer coisa!

Quando teve a noção de que poderia estar no caminho certo?
Quando a primeira coleção esgotou, no verão de 2017. Abri a loja em agosto, com um stock de cerca de 200 vestidos (400 metades) e no fim do mês já não tinha peças. Todos os padrões são feitos de forma limitada e, quando esgotam, não são repostos, o que é importante para manter o conceito de originalidade e personalização. A coleção de inverno, em burel, também vendeu bastante bem.

Em que medida a sua experiência profissional anterior a ajuda agora, enquanto gestora do seu pequeno negócio?
As Flausinas são uma micro-empresa, mas o profissionalismo, a maneira de trabalhar e de envolver as várias equipas no processo de produção, responsabilizando-as, isso aprendi em Nova Iorque. Também me ajudou em termos financeiros, na ótica de conhecimento do risco, da realidade, sabendo que os negócios demoram a crescer, que é preciso ter objetivos, mas que eles devem ser atingíveis — como a meta de transformar a Flausinas numa marca portuguesa de referência, que se internacionalize. Isto para mim é o pilar.