Felicidade Ferreira: “Temos de estar sempre com um pé no presente e outro no futuro”

É assim que Felicidade Ferreira descreve a aliciante da sua função de country manager da PRIMAVERA BSS, numa analogia ao que fazem as mães diariamente. Nas suas palavras, as mulheres têm competências muito apreciadas nas empresas tecnológicas.

Felicidade Ferreira, country manager da Primaver BSS.

Felicidade Ferreira está na PRIMAVERA BSS há quase 20 anos. Apesar de licenciada em Economia deixou-se encantar pela tecnologia onde tem acumulado conhecimento e experiência, pelo que a sua nomeação como country manager da empresa de tecnologia, em 2016, não foi propriamente uma surpresa. O facto de não ter formação em tecnologia é colmatado pelo seu profundo conhecimento do mercado e a da organização e pela sua capacidade em liderar e gerir equipas. Responsável pelos mercados de Portugal, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde, a executiva viaja bastante em trabalho, mas confessa que o que realmente gosta é de viajar com o marido e a filha de 7 anos.

Trabalha numa área onde continua a haver poucas mulheres, quer na base, quer no topo das organizações. O que atraiu uma licenciada em Economia numa empresa de tecnologia e o que a fez continuar?
Entrei na tecnologia por mero acaso. No final do curso, comecei a trabalhar numa empresa de leasing [Luso Atlântica], do Grupo Português do Atlântico e passado um ano fui convidada para entrar num projeto de uma empresa reconhecida na altura na área do software de gestão [Infologia], que passava por trazer para Portugal produtos de gestão de origem francesa. O que mais me aliciou foi ser um projeto multidisciplinar que obrigava a competências em várias áreas para montar a operação em Portugal. Uns anos mais tarde, surgiu a PRIMAVERA, concorrente desta empresa na altura, e que estava a trazer para o mercado produtos tecnologicamente inovadores e que eram disruptivos. Estava a trabalhar em Lisboa e fui convidada pela PRIMAVERA, em Braga, para vir trabalhar como gestora de conta de um canal que estava a ser formado.

O que me fez continuar ligada à tecnologia foi trabalhar numa área que estava em crescimento e que estava ao mesmo tempo ligada à gestão e a um tipo de trabalho que passava muito pela capacidade de convencermos as empresas de que esta tecnologia era a opção certa e de futuro. Sempre gostei de lidar com pessoas e ter o desafio de as convencer. A outra motivação para ter continuado nesta empresa foi ter encontrado uma empresa com uma cultura com a qual sempre me identifiquei e com uma ambição sempre crescente.

Para mim, a competência fundamental neste papel é saber gerir pessoas e ter capacidade de liderança. Fazer com que a equipa acredite e partilhe dos mesmos objetivos e ambição.

Qual considera que tem sido a sua mais-valia, como alguém que não tem formação em Engenharia, na PRIMAVERA BSS?
Numa empresa de software de gestão, a tecnologia tem de estar ligada à gestão, caso contrário não estaremos a produzir os melhores resultados. A minha mais-valia nesta empresa, hoje, passa pelo conhecimento profundo do mercado, aliado ao conhecimento também profundo da organização, bem como pela constante vontade de inovar nos processos, na forma de abordagem ao mercado e na ambição de liderar a melhor equipa, capaz de produzir resultados acima da média.

Quando lhe fizeram o convite para liderar a PRIMAVERA BSS não hesitou pelo facto de não ter as competências técnicas? Quais as competências que considerou mais importantes para aceitar este desafio?
Quando aceitei o convite já tinha passado por diversas áreas dentro da empresa, o que me deu uma visão muito abrangente do negócio. Conhecia muito bem o mercado e o canal de parceiros com que trabalhamos e, acima de tudo, já tinha experiência a liderar equipas, algo que é fundamental num papel de country manager. O facto de não estar tão bem preparada ao nível das competências técnicas, essencialmente relacionadas com o desenvolvimento de software, é colmatado rodeando-me de pessoas com excelentes competências nessa área. Para mim, a competência fundamental neste papel é saber gerir pessoas e ter capacidade de liderança. Fazer com que a equipa acredite e partilhe dos mesmos objetivos e ambição. Isso sim, é o mais difícil de conquistar e sem o qual não é possível pôr uma empresa a funcionar.

Hoje, é preciso interagir constantemente com o mercado até chegarmos ao produto final e isso exige capacidade de leitura dos clientes, interação e alinhamento. Essas caraterísticas são muito associadas ao perfil das mulheres, ainda que também estejam presentes nos homens.

Porque continua a haver poucas mulheres na área da tecnologia?
A tecnologia sempre foi associada a homens, por se achar que as mulheres ao serem normalmente mais relacionais e apreciarem a interação e comunicação com outras pessoas não aguentariam um papel muito “solitário” de programação. Mas, hoje, o desenvolvimento de soluções informáticas obriga a interações constantes com o mercado, com o cliente, no sentido de percebermos e anteciparmos as necessidades. Hoje, é preciso interagir constantemente com o mercado até chegarmos ao produto final e isso exige capacidade de leitura dos clientes, interação e alinhamento. Essas caraterísticas são muito associadas ao perfil das mulheres, ainda que também estejam presentes nos homens.

Qual o impacto que poderá ter uma maior presença feminina nesta área?
A presença feminina em qualquer atividade traz, na minha opinião, mais sensibilidade na relação interpessoal e uma maior capacidade na resolução de conflitos. Por norma, as mulheres são também mais organizadas e metódicas. São caraterísticas muito intrínsecas às mulheres.

O que podem as empresas fazer para atrair mais mulheres para esta área?
Penso que hoje já não temos em termos de contratações um desfasamento tão grande entre géneros. Eu tanto entrevisto homens como mulheres para a mesma função. Acredito que estarão já muito equiparados. Neste momento, 37% do capital humano da PRIMAVERA é do género feminino, num universo de 280 colaboradores.

[A tecnologia] é uma área muito interessante, que nos obriga a não parar no tempo e a querer estar sempre à frente.

E o que faz concretamente a PRIMAVERA BSS?
A PRIMAVERA é uma empresa tecnológica que se dedica ao desenvolvimento de soluções de gestão empresarial, disponibilizando uma ampla oferta de produtos de software para as grandes, médias, pequenas e micro organizações. Atualmente, a oferta do grupo PRIMAVERA contempla diversas linhas de ERP (Enterprise Resource Planning), além de soluções setoriais para as áreas da Administração Pública, Construção Civil, Contabilidade, Indústria, Restauração e Retalho. Inclui ainda soluções especializadas na gestão logística, força de vendas, manutenção de equipamentos, gestão de recursos humanos e reporting, além de plataformas para a transformação digital dos processos de negócio.

Que conselho deixaria a uma jovem que receie abraçar esta área?
É uma área muito interessante porque temos que estar sempre com um pé no presente e outro no futuro, o que nos obriga a não parar no tempo e querermos estar sempre à frente. Qualquer mulher entende isto como um desafio, porque como mães é algo a que os nossos filhos nos obrigam (a pensar neles hoje), mas ter sempre uma visão de médio/longo prazo do que temos que lhe proporcionar, para que façam as melhores escolhas.