Familiares e amigos: contratar ou não?

Filipa Muñoz de Oliveira, fundadora e CEO da Wiñk, e Sofia Mendoça, diretora de Recursos Humanos da McDonald's Portugal, falaram-nos dos prós, contras e das boas práticas de contratar alguém com quem se tem uma relação próxima.

Contratar familiares e amigos pode pôr em cheque as relações pessoais, mas algumas boas práticas ajudam a evitar conflitos.

O ditado é antigo: “amigos, amigos, negócios à parte.” E tem uma razão de ser bem clara: para que o negócio tenha sucesso e seja eficiente, vai querer que a sua equipa seja constituída por gente com o máximo talento e competência, e não necessariamente por alguém com quem tem uma relação próxima.

Por outro lado, é natural que esteja mais disposta a dar uma oportunidade de trabalho a alguém da sua confiança, cujas competências e personalidade já conheça bem e que até poderá ser uma adição mais interessante para a sua empresa do que um total desconhecido.

São os donos de pequenos negócios que mais frequentemente se deparam com este dilema e a questão é especialmente pertinente aqui, onde as equipas de trabalho são mais reduzidas, pelas potenciais consequências negativas que pode trazer.  

Será que há, então, um meio termo? Ou misturar negócios com relações pessoais é sempre má ideia? E, no caso de ir em frente com a contratação de alguém com quem tem uma relação pessoal, que boas práticas podem ser adotadas?

Os contras

A empreendedora Filipa Muñoz de Oliveira, fundadora e CEO da Wiñk, tem ideias muito claras a respeito do tema, desde que lançou a sua empresa. “Amigos próximos e familiares nunca trabalharam diretamente comigo”, diz-nos. Filipa acredita que há mais contras do que prós em contratar alguém com quem se tem uma relação próxima, misturando duas esferas de vida. “Se alguma coisa corre mal, pode ser muito difícil de gerir e facilmente se estragam amizades e laços familiares. Existe dificuldade em separar o pessoal do profissional.”

Uma opinião partilhada pelo norte-americano Fred Joyal, co-fundador da plataforma 1-800-Dentist, que aconselharia outros empreendedores a não contratarem amigos, se possível. “Vão perder o amigo e o funcionário, quando tiverem que o despedir, o que acaba por acontecer entre 50 e 75% das vezes.” O problema, diz em entrevista ao Business Rockstars, é que “o comportamento de trabalho é completamente diferente do comportamento enquanto amigos. É uma lição dolorosa.”

Há ainda quem argumente que os outros elementos da equipa podem ver na contratação de colaboradores diretos vindos do círculo pessoal mais próximo do gerente sinais de um líder que precisa de ter por perto um séquito de apoiantes que validem as suas decisões, ou com dificuldades em fazer avaliações isentas e promover de forma equilibrada. E nada os impedirá de pensar: “Porque razão me hei-de eu esforçar se a promoção não será para mim?”

Para o amigo ou familiar que contratou, também pode não ser fácil lidar com o constante escrutínio do resto da equipa, que apenas espera o primeiro grande erro para se convencer de que ele não está apto a desempenhar as funções que ocupa. Cada conversa ou amizade que tentar fazer na empresa pode ser interpretada como uma forma de saber mais sobre os colegas para contar ao chefe e assim cair nas suas boas graças.

Sim, mas…

Mas nem tudo têm de ser desvantagens ou situações potencialmente geradoras de conflito, quando se contrata um familiar ou amigo. Nem a CEO da Wiñk nega que existam vantagens nesse cenário, destacando “a confiança e o apoio no trabalho” como as mais importantes.

No entanto, existem boas práticas que podem poupar dissabores a si e à equipa, se ficarem claras desde o princípio:

Eficiência e valores da empresa acima de tudo: Para uma grande empresa como a McDonald’s Portugal, a questão não constitui qualquer impedimento, como nos explica a sua diretora de recursos humanos, Sofia Mendoça. “No âmbito da contratação de familiares, as nossas boas práticas recomendam que todo o processo de recrutamento e seleção seja realizado de forma isenta e justa, garantindo que todos os valores da marca e da empresa sejam respeitados em cada momento. Sempre privilegiámos uma cultura de meritocracia, onde o valor do profissionalismo está acima de qualquer outra condição, e é por isso que o recrutamento de familiares de colaboradores nunca constituiu qualquer tipo de problema para nós.”

Não promova automaticamente; crie antes planos individuais de carreira: O primo Zé pode ser um bom contabilista para a sua recém criada empresa, mas isso não significa que tenha os skills necessários para ser um bom diretor financeiro, se o seu negócio crescer. Nem ele deve esperar estar em vantagem para uma promoção por terem uma relação próxima.

As promoções devem ser processos transparentes e bem definidos e não progressões automáticas e inconscientes, observam Doug e Polly White, empreendedores e consultores para pequenos negócios, num artigo para o site norte-americano The Entrepreneur. E essa avaliação deve ser feita muito antes sequer de começar a fazer as primeiras promoções. “Não dê às pessoas responsabilidades de gestão se elas não têm aptidões para serem bem sucedidas nelas. Trabalhamos com cada um dos nossos funcionários para criar em conjunto um plano pessoal de desenvolvimento. Isto ajuda-nos a entender quais as aptidões de cada funcionário e as suas necessidades a nível de desenvolvimento, bem como onde ele ou ela querem estar dentro de dois anos.” Assim, estará a dar a oportunidade de que todos os colaboradores cresçam profissionalmente com a empresa, à medida das suas qualificações, deixando ao mesmo tempo bem claro que as relações de amizade ou familiares não entram nessa equação.

Respeitar decisões e hierarquias:As funções de cada um na empresa têm que estar muito bem definidas para que não haja mal entendidos, tem que haver respeito pelas decisões da outra parte e tentar que a relação pessoal não interfira na relação profissional, o que na minha opinião é difícil”, observa Filipa Muñoz de Oliveira.

Já na McDonald’s “as relações de dependência hierárquica são sempre analisadas caso a caso, de forma a que todos se sintam confortáveis no desempenho das suas funções.”

Isto pode significar que dois funcionários com uma relação pessoal próxima não trabalhem lado a lado, para preservar a eficiência e evitar potenciais situações de privilégio ou conflito, como acrescenta a CEO da Wiñk. “Nos escritórios, onde a equipa é mais pequena, preferimos que não hajam relações familiares ou muito próximas, apesar de termos todos uma óptima relação de trabalho e até bastante próxima. Nas lojas, temos pessoas da mesma família a trabalhar (irmãs, primas, amigas próximas) mas nunca trabalham na mesma loja.”