Emily Hilton: empreendedora em dose dupla

Da dificuldade de lidar com a burocracia portuguesa que a impedia de se concentrar no desenvolvimento do seu negócio, nasceu outro projeto empreendedor: a Paco, empresa que presta serviços de personal assistant.

Emily Hilton é co-fundadora da Paco.

A empreendedora britânica Emily Hilton decidiu mudar-se de Londres para Lisboa durante a pandemia. Pretendia desenvolver a sua marca de roupa e Lisboa foi a escolha óbvia. Perto das fábricas onde se abastecia, permitia-lhe baixar os custos de vida, ficava próximo das unidades produtivas onde fabricava os produtos de swimwear que vendia e estava bem posicionada para chegar ao mercado da União Europeia, após o Brexit. Ao deparar-se com inúmeras dificuldades e burocracias que a impediram de se focar no crescimento do seu negócio, e ao partilhar esta frustração com outros estrangeiros, nasceu a ideia de lançar a Paco, oferecendo um serviço de Personal Assistant que abrange o apoio em tarefas administrativas e profissionais, ou na organização de tarefas pessoais.

 

Quais são os principais passos da sua carreira profissional, antes de chegar a Portugal?

Depois de terminar a universidade no Reino Unido, por um capricho mudei-me para a Cidade do Cabo, à procura de uma nova experiência e consegui um emprego trabalhando para uma e-commerce de moda. Sendo uma startup, o trabalho tinha um ritmo rápido e emocionante, e tendo sido “atirada às feras” forçou-me a adaptar-me e aprender rapidamente.

Três anos depois, estava de volta a Londres e, devido a um conjunto de coincidências, aterrei numa função de gestão da vida logística de um conhecido magnata de media. Durante cinco anos, os meus pés mal tocavam o chão, pois viajávamos sem parar para locais únicos do mundo, onde eu era atirada para o estilo de vida bizarro dos indivíduos com elevado património.

Apesar de o trabalho ser excitante, eu não conseguia afastar o desejo de começar o meu próprio negócio, e durante os breves momentos livres que tive, trabalhei na minha própria startup de roupa (swimwear) sustentável. Como a empresa crescia continuamente, decidi finalmente deixar o meu trabalho e entrar em pleno neste novo empreendimento. Foi então que Portugal acenou.

 

O que o trouxe a Portugal?

A minha empresa de roupas é a resposta curta, já que grande parte da produção e das fábricas estavam localizadas à volta do Porto. Nos primeiros anos da minha empresa, muitas vezes eu voava para Portugal para visitar os meus fornecedores. Mas mudar para cá permanentemente não me passou pela cabeça até à pandemia, quando, como uma vaga de jovens profissionais em todo o mundo, percebi que uma vida divertida pode ser um equilíbrio entre trabalho e estilo de vida, algo que Portugal oferece.

 

Como se adaptou?

Foi mais fácil do que eu esperava. Os portugueses são naturalmente bons anfitriões, o que fez com que a adaptação fosse fácil e sem sobressaltos. E com uma comunidade de expatriados em rápido crescimento, com indivíduos de todo o mundo com ideias semelhantes, foi fácil cair numa rotina confortável e agradável.

 

O que aprendeu com as experiências de viver no estrangeiro?

Este será o segundo país e a terceira cidade longe da minha. Tem sido daquelas mudanças que enriqueceram e moldaram quem eu sou. A mudança da Inglaterra para a África do Sul foi radical e mostrou-me um modo de vida inteiramente novo e levou-me a conhecer outras pessoas e novas ideias. E a minha mudança mais recente para Lisboa não foi menos importante, dando forma a quem sou, ao colocar-me de frente com um modo de vida diferente. Viajar e morar no exterior é algo que considero fundamental para ampliar a vida de uma pessoa.

 

Quais são os principais desafios de se fazer negócios em Portugal?

Fazer negócios em Portugal pode ser difícil. A barreira do idioma é uma dificuldade, embora essa responsabilidade recaia exclusivamente sobre mim. Mas o ritmo a que as coisas são feitas e os obstáculos burocráticos a serem superados são impedimentos que atrasam a tomada de decisão e retardam o crescimento. Eu gosto da natureza descontraída do país, mas descobri que esta característica se reflete na vida profissional, o que às vezes pode ser frustrante.

 

Foi isso que inspirou a Paco?

Com essa frustração, veio o reconhecimento da necessidade da Paco. Então, de certa forma, posso estar grata pela oportunidade que este estilo de vida me apresentou. Percebi, por exemplo, que quando falava acerca da minha empresa com amigos que também moravam aqui, na maioria das vezes eles revelavam que estavam a enfrentar problemas semelhantes. Às vezes, era algo tão simples como não ser capaz de interpretar documentos escritos em português — algo que um português (ou um colaborador…) obviamente poderia fazer com facilidade. Outras vezes era uma questão de não ter os conhecimentos certos de contabilistas e advogados, algo que se adquire com a experiência e o tempo.

Eu comecei o meu negócio porque adoro inovação e design; as minhas habilidades eram projetar produtos que os clientes adoravam, mas depressa a minha função se tornou na gestão de imprevistos e eu estava a afogar-me em trabalho administrativo, tentando incansavelmente perseguir pacotes, lidando com a alfândega e a bater com a cabeça na parede com a burocracia portuguesa. Não demorou muito até conhecer muitas outras pessoas, que se tinham mudado para Lisboa, com a mesma história que a minha: abrir uma empresa e morar à beira-mar, e ver esse sonho transformar-se numa realidade de constante frustração por nunca conseguir fazer qualquer coisa.

A comunhão destas experiências levou-nos a desenvolver a Paco, através da qual poderíamos resolver tantas dessas questões, às vezes fáceis outras vezes não, de forma eficiente e eficaz. Os proprietários de empresas podem facilmente cair numa mentalidade de nunca deixar de trabalhar, e o excesso de trabalho é comum. A ideia foi fornecer um serviço que apoiasse empreendedores com as suas listas de tarefas, para que tivessem mais tempo para se concentrar no que realmente importava – seja mais tempo para a família, para o surf ou para fazer o negócio crescer. Percebi que não me estava a dar permissão emocional para trabalhar em coisas hoje que poderiam dar-me tempo amanhã. A Paco, com a nossa equipa de assistentes pessoais prontos para trabalhar no terreno, oferece uma solução acessível para multiplicar o tempo. Os nossos clientes variam. Podem ser empresários ou pais ocupados. É gratificante ver como somos capazes de causar um grande  impacto no bem-estar dos nossos membros.

Do seu ponto de vista, o que trouxe para a gestão da PACO?

Eu sou, se posso dizê-lo, uma pessoa de pessoas, enquanto o meu sócio e co-fundador da PACO está mais confortável a trabalhar no back-end da empresa. Com esta inclinação por pessoas, sou uma vendedora nata da empresa. Em termos de gestão interna, promovo um ambiente de comunicação aberta e positiva entre a nossa equipa.

Portugal Vs. Inglaterra

O que mais gosta em Portugal?

Odeio responder um clichê, mas o clima é a resposta mais óbvia. Mas também gosto da sua autenticidade e da celebração da sua cultura.

O que menos gosta em Portugal?

Tendo vivido em Londres e no seu ambiente acelerado, a natureza descontraída do país pode por vezes ser frustrante. Mas é dessa frustração que nasceu a Paco, então isso também tem um lado bom.

O que é melhor em Portugal do que noutro local?

A variedade do país e o seu tamanho, que torna tudo tão acessível. Em Lisboa em particular, a combinação de bom tempo durante todo o ano com todos os estilos de vida dos arredores, como Sintra, Arrábida e Ericeira, tornam-na bastante especial.

Que rotinas adquiriu em Portugal que não tinha anteriormente?

Todas as semanas como o meu peso em pasteis de nata, o que antes não acontecia. Mas tornei-me mais regrada em relação aos meus dias e objetivos. Embora isso seja parte da responsabilidade de construir um negócio, mais do que necessariamente por estar em Portugal.

O que mais gosta em Inglaterra?

Gosto do countryside de Inglaterra, que pode ser dramático, misterioso e bonito ao mesmo tempo. Com os seus castelos e mansões, situados no meio de uma paisagem verdejante.

O que menos gosta em Inglaterra?

Londres pode ser uma rat race (competição desenfreada). E embora eu goste da vibração e da atividade que existe numa cidade enorme, às vezes ela pode ser opressora e claustrofóbica.

O que é melhor na Inglaterra do que em outro lugar?

Ainda não encontrei outro lugar no mundo que fosse melhor ou tão bom quanto a Inglaterra quando se trata de fish and chips (peixe com batatas fritas) ou Sunday roast (carne assada no forno com batatas e Yorkshire pudding, tradicionalmente servida aos domingos).

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