Elena Durán: a fundadora da plataforma 55+

A espanhola Elena Durán lançou em Portugal o projeto de empreendedorismo social 55+, que junta pessoas com mais de 55 anos que pretendem manter-se ativas e que podem prestar serviços de qualidade a outras pessoas.

Elena Duran fundou a 55+, depois de ter trabalhado em Gestão, Marketing, Vendas e Estratégia na Unilever, em Portugal, durante 8 anos.

Depois de 30 anos como diretor de uma escola primária, quando o pai se reformou, aos 60 anos, Elena Durán e o irmão perceberam como seria difícil garantir que mantivesse uma vida ativa. A 55+ surgiu para colmatar esta necessidade. Trata-se de uma plataforma online onde qualquer pessoa pode adquirir serviços úteis para o dia-a-dia, como comida ao domicílio, babysitting ou petsitting. Neste momento, conta com mais de 100 inscritos para prestar serviços, apenas na área de Lisboa. Para a fundadora, este é um modelo em que todos saem a ganhar. “Quem oferece garante uma vida mais saudável, ativa e integrada na comunidade, com uma remuneração extra. Quem procura encontra o apoio de especialistas com anos de experiência em diversas áreas para as tarefas do dia a dia, para além de contribuir para uma causa tão importante e necessária para a sociedade.”

Elena Durán é licenciada em Gestão de Marketing e Comunicação pela Universidade de Málaga e estudou também na European Business School, tendo trabalhado durante 8 anos em Gestão, Marketing, Vendas e Estratégia na Unilever, em Portugal. Recentemente, decidiu fundar e dedicar-se a um projeto próprio, de economia social, um momento de viragem da sua carreira.

Quais os momentos mais marcantes do seu percurso profissional?
Destaco três momentos marcantes na minha carreira: em primeiro lugar o momento em que troquei Espanha por Portugal para vir trabalhar numa multinacional de consumo (a Unilever), o segundo momento quando, através desta mesma empresa, fui promovida para a headquarter na Holanda, onde tive possibilidade de trabalhar com a equipa que definia a estratégia europeia para diferentes marcas do grupo; por fim, e talvez o momento mais marcante de todos, aquele em que decidi lançar a organização social 55+.

Assim que cheguei a Lisboa, em 2009, apaixonei-me pela cidade, pelas pessoas e nunca mais parti.

Quando e porquê decidiu vir para a Unilever em Portugal?
O interesse em viajar e conhecer outros países e culturas surge logo após terminar a minha licenciatura na Universidade de Málaga. Após a concretização dos meus estudos, rumei a Inglaterra a uma pequena cidade a Sudoeste de Londres. Vivi em Exeter durante pouco mais de um ano e, apesar de ter sido uma experiência difícil (sobretudo no início), adorei a sensação de superação, de adaptação e de me conhecer melhor a mim própria.

Depois, voltei a estudar e concluí o mestrado em Marketing na Universidade de Salamanca tendo sido convidada para ir trabalhar para uma empresa especializada em Customer Relationship Management em Madrid. Passados dois anos, sentia que me faltava aquela sensação de aventura e acima de tudo não me sentia “em casa” em Madrid, fui então à procura de oportunidades fora de Espanha. Através de um programa de estágios internacionais consegui vir para Portugal e começar um novo desafio em Lisboa. Assim que cheguei a Lisboa, em 2009, apaixonei-me pela cidade, pelas pessoas e nunca mais parti.

A cultura portuguesa é muito parecida com a espanhola e neste campo a adaptação foi bastante pacífica.

Como é que se adaptou a uma equipa que não conhecia, num país também desconhecido?
No início, o principal desafio foi sem dúvida a língua. Quando cheguei não conhecia mais de meia dúzia de palavras em português e parecia-me que todos falavam rapidíssimo. Principalmente a minha chefe nessa altura. No entanto, foi graças à paciência e disponibilidade de toda a equipa em me apoiarem que rapidamente consegui superar as barreiras linguísticas e sentir-me totalmente integrada. Do ponto de vista de adaptação cultural não tive qualquer dificuldade, acho que, embora com algumas diferenças, a cultura portuguesa é muito parecida com a espanhola e neste campo a adaptação foi bastante pacífica.

A cultura e a forma de trabalhar em Portugal é muito diferente dos outros mercados em que trabalhou antes?
Trabalhei em quatro países diferentes (Reino Unido, Espanha, Holanda e Portugal) e diria que claramente há uma diferença cultural na forma de trabalhar entre os países do Sul da Europa (Portugal e Espanha) e os outros. Penso que não há uma cultura melhor do que outra, cada uma tem os seus pontos fortes e as suas limitações. Penso que poderei destacar a capacidade de improviso e adaptação a um problema inesperado como um dos pontos fortes das culturas do Sul da Europa, contrastando com o rigor, pragmatismo e organização das culturas mais a Norte.

Existem, atualmente, em Portugal três milhões e meio de pessoas com mais de 55 anos, dos quais dois milhões e meio estão inativas.

Porque razão decidiu fundar a 55+ e qual a sua missão?
A 55+é uma plataforma online que conecta pessoas com mais de 55 anos que querem estar mais ativos e que, pela sua experiência, podem prestar serviços de qualidade para outras pessoas de qualquer idade que precisam de estes mesmos serviços. Esta plataforma surgiu da necessidade de colmatar uma falha existente na sociedade para com a população com mais de 55 anos. Existem, atualmente, em Portugal três milhões e meio de pessoas com mais de 55 anos, dos quais dois milhões e meio estão inativas. O “envelhecimento da população”, o problema da inatividade e solidão das pessoas de mais idade é uma realidade muito presente na nossa sociedade e existem poucos projetos que, de uma forma inovadora e adequada, ofereçam uma solução para este novo paradigma da sociedade.

Quando o meu pai se reformou aos 60 anos, e após 30 anos como diretor de uma escola primária, eu e o meu irmão apercebemo-nos de que seria um grande desafio garantir que o nosso pai mantivesse uma vida ativa de forma a continuar saudável e integrado na comunidade em que vive. Foi então que comecei a pensar sobre uma solução que fosse ao encontro desta necessidade. A reforma não é sinónima de paragem, existem muitas pessoas esquecidas que querem e podem tirar partido das suas competências e valências de forma a contribuir para a comunidade. A missão da 55+ é mesmo essa, a de dar uma oportunidade a todas estas pessoas, para que continuem ativas, saudáveis, a fazer algo que gostam, com outro ritmo, mas de forma integrada e sendo valorizados pela sociedade.

A maior mudança sente-se no fim de cada dia de trabalho. É o forte sentimento de realização pessoal.

O que mudou na sua rotina diária desde que se tornou empreendedora social?
Tudo mudou na minha rotina, a começar pelas pessoas com quem e para quem trabalho, passando pelos desafios que tenho para resolver e superar, mas acima de tudo a maior mudança sente-se no fim de cada dia de trabalho. É o forte sentimento de realização pessoal que provem da possibilidade de contribuir todos os dias para que a vida de mais pessoas possa ser melhor, mais ativa e mais feliz. Essa é a grande mudança que identifico na minha rotina diária.

Quais os principais desafios de liderar uma empresa social?
Sem dúvida que o principal desafio é garantir a sustentabilidade económica sem descurar aquele que é o foco principal: o impacto social e o propósito que originou a sua criação. Por outro lado, é também um grande desafio encontrar os parceiros certos, que acreditem no projeto e que contribuam para o seu desenvolvimento.

Grande parte das empresas deveriam ter em consideração o chamado “consumidor socialmente responsável”

Que conselho deixaria a uma jovem executiva sobre o empreendedorismo social?
No meu entender, o empreendedorismo social é um setor tão ou mais atrativo para empreender quando comparado com atividades económicas sem fins necessariamente sociais. Na minha visão, num futuro próximo, grande parte das empresas deveriam ter em consideração o chamado “consumidor socialmente responsável” e deveriam ter em conta o seu perfil na definição da sua estratégia e dos seus planos de negócio. Tem-se verificado uma mudança no tipo de consumo/consumidor: cada vez mais assistimos a uma maior preocupação social por parte daquele que despende de dinheiro para adquirir um produto ou um serviço, neste sentido acredito que qualquer executiva das mais variadas áreas da economia portuguesa, deverá ponderar esta mudança e a deverá ver refletida na sua atividade.

No caso da 55+, fizemos um pequeno inquérito de satisfação aos nossos clientes de forma a os conhecermos melhor e no final deste inquérito pudemos identificar o seu perfil e concluímos que, além dos valores competitivos e da qualidade dos serviços prestados, uma das principais razões pela qual tinham recorrido à 55+ prendia-se com a consciência social e com o facto de se identificarem com a missão deste projecto.

O que mais gosta e menos gosta no nosso país?
O que mais gosto em Portugal é a sua autenticidade. Portugal é um país autêntico, com gente genuína, dono de uma natureza alucinante, em frente ao mar plantado. Relativamente a Lisboa, que é onde vivo, é uma capital europeia com tudo o que de bom tem qualquer uma das suas homólogas europeias, no entanto não é grande ao ponto de se tornar uma cidade impessoal, tornando-se a cidade perfeita para mim. Aqui sinto-me em casa.
Aquilo que menos gosto é o facto de estar longe da minha família, mas também não é nada que não se resolva como uma escapadela para matar saudades a Jaén (Andaluzia), a minha cidade natal.
O que é melhor em Portugal do que em outro lado qualquer?
A qualidade de vida e as pessoas.