Dos negócios com alma e da alma dos investidores

No seu 5º evento, o ciclo de palestras de empreendedorismo WE Talk by WomenWinWin trouxe as histórias da empreendedora Sofia Zagari e do seu negócio de moda de luxo em 2ª mão, e da business angel Isabel Neves, que também deixou conselhos às empreendedoras.

Manon Rosenboom Alves, coordenadora das We Talk by WomenWinWin, com a business angel Isabel Neves e a empresária Sofia Zagari.

Os testemunhos da business angel Isabel Neves — uma das muito poucas mulheres a prosseguir esta atividade em Portugal — e de Sofia Zagari, uma mãe de 4 filhos que decidiu abrir o seu negócio de moda vintage 10 anos depois de estar afastada do mercado de trabalho, marcaram o 5º evento WE Talk by WomenWinWin, no auditório da Abreu Advogados, em Lisboa, no passado dia 26 de outubro. Neste ciclo de palestras de empreendedorismo feminino, organizado pela associação WomenWinWin, duas empresárias que se tornaram referências nos seus setores de atividade têm vindo a partilhar, a cada sessão, o seu percurso no mundo dos negócios, falam dos obstáculos com que se depararam e da forma que encontraram para os ultrapassar.

“Os meus obstáculos foram oportunidades de negócio”

Aos 30 anos, Sofia Zagari já tinha uma carreira internacional na Banca, “com algum sucesso”, trabalhando para o Citibank em Itália. Mas a vida trocou-lhe as voltas: a banca entrou numa fase difícil, Sofia apaixonou-se por um italiano, casou e teve 4 filhos. “Dei por mim 10 anos depois, fora do mercado do trabalho e obsoleta. Ninguém queria dar-me emprego.”

Um dia, com uma amiga, olhou para o seu armário com a missão de fazer a triagem de todas as peças de roupa de marcas de renome que já não usava e que podiam servir para montar um negócio de moda em 2ª mão — prefere o conceito de “pre loved”, diz. “Roupa usada por alguém com muito amor, mas que é exclusiva e única. Foi assim que começou, sem business plan ou grande projetos. Muitas vezes, a ideia está dentro de nós sem sabermos.”

Inicialmente, levou o negócio em frente com a amiga e sócia em lojas abertas ao publico, que foram mudando de endereço, mas acabou por seguir a solo com a sua ideia original e montar um conceito que se adapta ao seu público alvo e aos obstáculos que precisou vencer. Um dos principais foi a matéria-prima. “Em Portugal não há assim tanta gente com roupa de marcas de luxo, sobretudo vintage. Por isso, ofereço-me para ir a casa das pessoas, escolho com elas, mando limpar e arranjar, se for necessário. Penso nos obstáculos que me foram aparecendo como oportunidades de negócio, porque me permitiram chegar ao conceito atual.”

“Quando comecei este projeto, a minha ideia era que não pesasse no orçamento familiar, sem empatar capital.”

Assim nasceu a MIA Luxury Vintage. Sofia fica com as peças à consignação, ou seja, se não forem vendidas são devolvidas aos respetivos donos. “Quando comecei este projeto, a minha ideia era que não pesasse no orçamento familiar, sem empatar capital.”

Hoje recebe as suas clientes num apartamento pombalino, apenas por marcação. “As pessoas procuram cada vez a shopping experience, uma experiência de compra diferenciada. O que lhes ofereço é uma casa onde são bem acolhidas, onde conversam e bebem um chá num serviço vintage da Vista Alegre.” Para além de clientes portugueses, já conta com marcações de estrangeiros que procuram na Internet por lojas vintage em Lisboa. Paralelamente, está também a apostar no mercado online, que vive atualmente um momento de expansão em todo o mundo. Além do seu próprio site, tem as suas peças em plataformas internacionais reconhecidas neste segmento.

A outra vantagem deste conceito de negócio é o facto de lhe permitir conciliá-lo com um acompanhamento mais próximo dos filhos. “Os negócios têm que ter alma, têm que ser feitos passo a passo, para não entrarmos em rutura com a nossa vida pessoal. Estou muito realizada profissionalmente, acima de tudo.”

“O mundo dos business angels ainda é muito masculino”

Isabel Neves foi a primeira mulher a criar um clube de business angels em Portugal, o Clube de Business Angels de Lisboa, e é também, atualmente, vice-presidente da Federação Nacional de Business Angels. O grande público conheceu-a como uma das investidoras do programa televisivo “Shark Tank”. Filha, sobrinha e neta de empresários, ainda muito jovem entrou numa associação de empresárias e foi-se apaixonando por projetos de desenvolvimento de empreendedorismo, pelo mentoring e pelo aconselhamento estratégico. Este seu percurso, que desenvolve a par da sua atividade enquanto advogada, já conta com mais de 20 anos de experiência.

Um dia apresentaram-lhe o conceito de business angel: alguém que, como ela já fazia, emprestava todo o seu conhecimento e rede de contactos ao serviço de um projeto de negócio viável, mas investindo capital, sozinha ou em grupo. Atualmente, revela, 90% do financiamento para novas empresas em todo o mundo é garantido por business angels.

“Os homens pensam muito em projetos de milhões, sobretudo tecnológicos, que lhes permitam ter êxito rapidamente, valorizando mais o seu investimento. Eu queria apostar em negócios mais tradicionais, desde que tivessem elevado poder de inovação.”

Sem quantias de capital avultadas que a lançassem como grande investidora, Isabel procurou outras pessoas interessadas em fazer negócios escalar. Não foi uma tarefa fácil. “Isto é capital de risco informal e os portugueses, sobretudo as mulheres, são muito avessos ao risco.” Sabia que não queria fundar uma associação a pensar apenas em negócios femininos. No processo de fazer germinar a ideia de um clube começou ir às reuniões de outros grupos de business angels. “Percebi que este é um mundo muito masculino. Hoje já existem mais mulheres, ainda muito poucas, mas nessa altura eu era a única. A verdade é que os homens pensam muito em projetos de milhões, sobretudo tecnológicos, que lhes permitam ter êxito rapidamente, valorizando mais o seu investimento. Eu queria apostar em negócios mais tradicionais, desde que tivessem elevado poder de inovação.”

Para Isabel Neves — que será oradora na conferência ‘Let’s Talk About Money’, organizada pela Executiva, e que acontece já no próximo dia 5 de novembro — há que desmistificar a ideia de que os business angels só investem na ordem dos milhões. “Em negócios mais tradicionais, o investimento é muito mais baixo, mas um grupo de 10 pessoas com 10 mil euros cada para investir consegue fazer arrancar 2 ou 3 negócios.” No fim da sua intervenção, deixou alguns conselhos às empreendedoras, com base na sua experiência de investidora e mentora de negócios:

Encontre a oportunidade: “Muitas vezes, as boas ideias não têm resposta nem mercado. Em Portugal, a recetividade é muito mais lenta a alguns negócios do que em outros países. Há que perceber se temos mercado para a ideia que tivemos.”

É importante testar o mercado: Este passo pode implicar pôr promotores em locais estratégicos da cidade, oferecendo o produto de modo a registarem a reação do consumidor, ou vendendo-o, para perceberem como reagem ao seu preço.

Escolha muito bem a sua equipa: A empreendedora precisa de identificar as suas áreas de maior fragilidade e a necessidade de contratar pessoas que assegurem essas áreas de forma competente. Uma equipa coesa, em que cada elemento tem uma área de intervenção e especialização, é um dos pontos que os investidores mais valorizam.

Não tenha medo de falhar: Há que adaptar o nosso negócio continuamente, por tentativa e erro. “Temos que lutar contra este horror que temos ao falhanço. Só aprendemos falhando. Vamos cometer outros erros, mas aquele nunca mais faremos.”

Não vale a pena fazer nada sem paixão: “O caminho dos empreendedores e dos empresários é muito solitário, muito doloroso. Vamos deixar muita coisa para trás no caminho para a realização do nosso sonho, muitas vezes até as pessoas que escolhemos para viver. Nem todas as pessoas têm a resiliência, capacidade e perfil para serem empreendedores. Mas vão atrás dos vossos sonhos com paixão, porque se o fizerem, eles vão-se realizar.”