Dora Moita: “No futuro, a INCM poderá competir a nível internacional”

A experiência de duas décadas numa grande consultora, onde esteve sempre ligada a projetos no setor público, fez de Dora Moita a pessoa certa para ajudar a modernizar e internacionalizar a Imprensa Nacional - Casa da Moeda.

Dora Moita vogal do Conselho de Administração da Imprensa Nacional – Casa da Moeda (INCM).

Quando começou a trabalhar como consultora na Accenture, Dora Moita, vogal do Conselho de Administração da Imprensa Nacional – Casa da Moeda (INCM) percebeu, desde logo, que “as soft skills eram muito mais importantes do que o saber técnico de qualquer pessoa”. Explica que esse conhecimento inicial foi fundamental, porque a fez deixar de estar por detrás do computador, e passar a olhar e falar com as pessoas. “É algo que nos desenvolve, quer queiramos ou não”, explica.

O trabalho de consultora, que desempenhou durante muitos anos, “é feito sem rede”. Isso contribuiu para sentir que sabia sempre pouco, de cada vez que voltava à estaca zero quando mudava de cliente e de equipas. Foi algo que marcou a sua postura e a forma como encara os desafios. Sobretudo, contribuiu para se tornar mais humilde.

“Deixamos de ter a arrogância de considerarmos que sabemos tudo e estamos em qualquer ambiente como peixes na água”. Mesmo hoje, depois de mais um ano a desempenhar o cargo actual na INCM, sente que ainda há muita coisa que não sabe. “É preciso investir na aprendizagem, pois temos de estudar sempre para andar para a frente, sem nunca deixar de olhar em volta, pois há sempre alguém que nos pode ensinar”, defende.

Do setor privado para o público

Por trabalhar com o sector público há muitos anos, Dora Moita entende que “há um estereótipo no que respeita aos sectores público e privado que não é, de todo, correto”. Entre as diferenças principais salienta que no setor público há mais respeito pelo equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, e cuidado com o cumprimento dos horários e aquilo que cada um tem para fazer.

Para a gestora, o mais difícil com a entrada no sector público foi superar a formalidade das interacções entre pessoas. Vinha de um mundo “onde toda a gente se trata por tu, porque não é isso que faz com que nos tenham, ou deixem de ter, respeito”, conta. Defende que o respeito se conquista por aquilo que se faz e não pelos títulos académicos, e por isso na INCM segue a regra de tratar todos por tu, “a não ser que alguém me indique que se sente ofendido com isso”.

Diz que essa foi uma das primeiras mudanças que introduziu na instituição, bem como a do acesso direto. Os colaboradores que trabalham mais diretamente consigo ou que estão envolvidos em projectos em fase crítica não precisam de passar pela sua assistente. “Se a casa está a arder, é pegar no telefone e entrar em contacto”.

Para Dora Moita a principal qualidade que um gestor deve ter é saber ouvir. É também fundamental ter sempre presente o que quer e capacidade para decidir rapidamente, delegando. Defende que é preciso saber orientar, mas fazer as coisas acontecerem através dos outros, resistindo à atitude de dizer: “deixa lá que eu faço”.

Contribuir para a mudança

Ao longo da sua carreira, liderou projectos em organizações e institutos da administração pública e sector postal. Isso permitiu-lhe constatar a dimensão do salto que Portugal deu em termos de modernização administrativa. De entre os que participou, destaca o da Reforma Tributária. “Na época, chegou a ser pioneiro alguém poder fazer a sua declaração totalmente através da internet”. Depois foi a Reforma dos Registos e Notariado, onde participou no projecto desde a sua génese.

Quando entrou na INCM, a instituição estava em fase de mudança. “E eu, ou passava este mandato em status quo, sem fazer grande coisa, ou tentava contribuir para as pessoas comemorem os 500 anos da Casa da Moeda, daqui a 250 anos”, diz Dora Moita.

Os produtos tradicionais da instituição estão a acabar. É o caso do impresso do IRS e outros ligados com as Finanças e serviços tributários. “Ou seja, aqueles que nos davam maior margem e segurança e são mais fáceis de produzir, estão todos os anos a desaparecer, e bem”, devido à chegada da era digital. Era preciso mudar e é o que a empresa está a fazer.

Dora Moita está a ajudar a Casa da Moeda a adaptar-se aos novos tempos.

A inovação na INCM

Primeiro, pela via da inovação. A de mais sucesso foi a criação do Unicode, marca que atesta a autenticidade dos produtos. Vai integrar o novo selo do tabaco e dos vinhos e poderá ser aplicado em roupa e nos objectos de merchandising. “Aproveitamos, assim, as nossas capacidades gráficas, dado que o Unicode utiliza um logotipo, que pode ser impresso com determinadas características de segurança, como pequenas marcas ou o brilho do holograma, e permite, através de um programa de leitura, avaliar a autenticidade do produto”, explica a administradora do INCM. Basta um telemóvel para isso. “Este é o nosso produto estrela actual, mas temos vários outros na área da inovação”.

A empresa apostou também em eficiência fabril. Desde Maio, a sua unidade industrial passou a dispor de um robô com capacidade de locomoção, que transporta cartões de cidadão e passaportes, por exemplo, colocando-os num armazém de expedição inteligente, para que sejam enviados numa só leva, para todos os cantos do mundo onde existem portugueses. As cadeias de produção dos passaportes e dos cartões de cidadão são diferentes e a existência deste robô permite que o serviço de envio para determinada embaixada seja feito de uma só vez, mesmo que os pedidos sejam realizados em dias diferentes.

Os passos para a internacionalização

Para além da gráfica de segurança, que representa a maior fatia do negócio, porque produz documentos de identificação como passaportes, cartões de cidadão e cartas de condução, a INCM integra uma unidade de segurança digital. Gere, por exemplo, a plataforma dos pki, que inclui a assinatura digital dos documentos. Exemplo disso é aquela que é possível fazer com o cartão de cidadão, que implica a combinação de uma chave pública com a privada de cada um de nós, que está integrada no chip do cartão.

Há, também, uma pequena área de holografia e a unidade editorial e de cultura, “pois também temos a função de promover a cultura e língua portuguesa”, explica Dora Moita. “Por isso, para além de alguns eventos culturais, faz parte da nossa missão editar livros de forma supletiva em relação às editoras mercantis”. São aqueles que não são comerciais e nunca serão livros de massas, mas têm qualidade reconhecida pelo conselho editorial da INCM. “Depois temos ainda a edição e publicação do Diário da República, já completamente electrónico, e as contrastarias, a marca do toque de metais preciosos”, acrescenta.

Para além da inovação e da eficiência fabril, outro dos eixos de desenvolvimento da Imprensa Nacional – Casa da Moeda é a internacionalização de produtos como os cartões de identificação, que já fabrica para Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe, e de outros que resultam dos projectos de investigação em curso na empresa, como o Unicode.

Dora Moita está, hoje optimista em relação ao futuro da sua casa. “Pelos indícios que temos, as apostas que fizemos em inovação foram acertadas”, explica a gestora, que acredita que, “num futuro não muito longínquo, a INCM poderá competir a nível internacional”.

DORA MOITA EM DISCURSO DIRETO

Como licenciada em Matemática Aplicada, como vê a reduzida presença de mulheres nas STEM?
Na INCM há grande equilíbrio no que diz respeito à presença de mulheres, e há muito tempo, e Portugal está muito bem nesta matéria. A empregabilidade é de 50%, claramente acima da média europeia.

Os primeiros anos de carreira são extraordinariamente exigentes, sobretudo nas áreas de Ciência, Informática, Matemática e Engenharia. Na realidade, não é um período fácil para mulheres que querem acompanhar os filhos. Não há horários, há coisas que são executadas à noite, por vezes as mudanças têm de decorrer ao fim de semana e não é fácil, para uma mulher no limiar dos 30 anos, cumprir estas exigências.

Aquilo que me parece é que há cada vez mais licenciadas a sair das universidades, e há mais mulheres do que homens licenciados. Isso leva a que haja muitas mulheres nos primeiros anos de trabalho. Mas quando começam a constituir família e a ter filhos, o número decresce. Algumas voltam, mas outras perdem o comboio.

Também me parece que o mercado nacional não está preparado para o teletrabalho. Eu tinha isso na Accenture, e essa foi uma das medidas com mais sucesso na empresa porque, em determinados dias e para determinadas funções, podíamos trabalhar a partir de casa. De uma forma muito empírica penso que é uma área que ainda não está muito desenvolvida em Portugal.

A possibilidade de haver flexibilidade nos horários, de trabalhar em part-time, conjugada com o teletrabalho iria contribuir de forma positiva para as coisas mudarem. Cruzei-me com pessoas que assumiam preferir ter um part-time durante três ou quatro anos, para não perder o vínculo e o contacto com o mundo empresarial e, ao mesmo tempo tratar dos filhos. É algo que se consegue perfeitamente.

Que conselho deixaria a uma jovem que está a dar os primeiros passos na carreira?
Para mim, a chave é a confiança em nós próprios. Não podemos nunca deixar de acreditar em nós e, ao mesmo tempo, nunca podemos deixar de ser genuínos.