Daniela Couto: “Não é só nos EUA que se fazem startups de sucesso”

Foi uma das co-fundadoras da Cell2B, startup que investigava um tratamento para salvar a vida de doentes transplantados. A falta de financiamento obrigou a Cell2B a procurar outros caminhos e Daniela Couto fez o mesmo. Hoje a empreendedora integra um fundo que investe precisamente em startups na área das ciências da vida.

Daniela Couto

Conheci Daniela Couto em 2013 quando foi falar sobre a sua experiência de empreendedora no Energia de Portugal, uma iniciativa que procurava identificar e lançar empreendedores com ideias de negócio com pernas para andar. A sua juventude, o percurso e, sobretudo, a paixão com que falava sobre o que fazia captou imediatamente a minha atenção. A Cell2B, a startup 100% portuguesa na área da biotecnologia, que co-fundara com mais três empreendedores, parecia cada vez mais perto de desenvolver uma solução que ainda não existia em nenhuma parte do mundo. Com formação em Engenharia Biomédica, a missão de Daniela e dos colegas era a de descobrir uma terapia inovadora que ajudasse a prevenir e combater os sinais de rejeição em pacientes com órgãos transplantados.

Neste encontro com aspirantes a empreendedores, Daniela explicou como a Cell2B tinha acabado de conseguir um financiamento de 600 mil euros, mas que precisava de muito mais para poder financiar a fase de testes e ensaios clínicos que tinha pela frente. Entrevistei-a, mas depois perdi-lhe o rasto e por isso não percebi que dois anos depois a Cell2B e Daniela Couto seguiram caminhos separados, porque afinal a startup não conseguira o financiamento de que precisava. Recentemente, redescobri Daniela como associada sénior da BioGeneration Ventures, fundo holandês, que acabou de captar 66 milhões de euros para investir em startups na área de life science. Ou seja, Daniela Couto mudou-se para o lado do investidor e hoje a sua missão é procurar startups promissoras, como foi a sua, para as financiar e assim ajudá-las a crescer.

O seu primeiro projeto como empreendedora foi a Cell2B, onde estava profundamente empenhada em desenvolver produtos para salvar vidas. Agora está ligada a um fundo que apoia empresas nesta área de life science. O que provocou esta mudança e que alterações ela implicou na sua vida?
A Cell2B foi o meu primeiro “bebé”. Um projeto que comecei a trabalhar juntamente com outros três co-fundadores (o David Braga Malta, o Pedro Andrade e o Francisco Santos) em 2010 e em que estive até 2015. Foi um período longo e muito intenso. A nossa indicação principal era a doença do enxerto contra hospedeiro, uma doença difícil e com taxas de mortalidade muito elevadas para os casos que são resistentes à primeira linha de tratamento. Uma causa nobre, penso eu. Em 2015 estávamos concentrados em avançar para a próxima fase de validação clínica e para tal era preciso uma grande ronda de capital. Infelizmente, não a conseguimos fechar, mas estivemos muito perto. Enfim… o processo é doloroso. Com esta batalha perdida, a Cell2B continuou, mas em moldes distintos, e eu decidi mudar-me para a Holanda por motivos pessoais. As alterações na minha vida foram profundas, mas a meu ver necessárias para tomar um novo fôlego e abraçar um novo projeto.

Comecei a trabalhar com o fundo e tivemos logo a primeira saída. E uns meses depois, o negócio da Acerta foi a maior “saída” (compra) privada de sempre no sector de biotecnologia na Europa.

Qual é a grande ambição da BioGeneration Ventures?
Ter um ou vários casos de sucesso tal como vi quando cá cheguei. Empresas que são bem sucedidas a desenvolver novas terapias para as mais variadas áreas, como oncologia e cardiologia, e são compradas por grandes farmacêuticas que têm a infraestrutura necessária para levar estes produtos para o mercado. Comecei a trabalhar com o fundo e tivemos logo a primeira saída, a Dezima Pharma, comprada pela Amgen por 1.55 mil milhões de dólares. Uns meses depois, a Acerta Pharma foi comprada pela AstraZeneca por um total de 4 mil milhões de dólares (com opção de pagar mais 3 mil milhões pelo resto da empresa). O negócio da Acerta foi a maior “saída” (compra) privada de sempre no sector de biotecnologia na Europa.

Que tipo de projetos procuram?
Procuramos novas terapias (medicamentos) ou dispositivos médicos que sejam realmente inovadores e que possam revolucionar a vida dos doentes. Claro que somos uma organização com fins lucrativos e no final do dia temos de dar retorno aos nossos investidores. No entanto, neste sector só é possível ter sucesso financeiro com um medicamento se tiverem um impacto significativo na vida dos doentes, caso contrário ninguém está disposto a pagar pelo produto. Para além da tecnologia inovadora, a equipa também é muito importante e o plano de desenvolvimento que foi desenhado por esta equipa.

Ainda não [investimos em projetos em Portugal], mas gostava imenso, e temos sempre as portas abertas a novos projetos na área de ciências da vida.

Qual o projeto mais promissor em que a BioGeneration investiu?
Os exemplos mencionados são dois dos maiores sucessos. A Acerta está muito próxima do mercado, os resultados nas últimas fases de ensaios clínicos são fantásticos para doentes na área oncológica. Foram realizados mais de 20 ensaios com o Acalabrutinib (medicamento da Acerta). É absolutamente fantástico ver doentes que não respondiam às terapias existentes e com o Acalabrutinib as respostas são muito melhores.

Já investiram em algum projeto em Portugal ou em que estejam envolvidos cientistas portugueses?
Ainda não, mas gostava imenso, e temos sempre as portas abertas a novos projetos na área de ciências da vida.

O meu trabalho de investigação anterior permite-me avaliar, investir e apoiar projetos na área de ciências da vida e saúde que podem ter um impacte real na vida de muitos doentes.

Acabaram de receber fechar um fundo com 66 milhões de euros. Qual o impacte que esta operação vai ter na vossa atividade?
É o terceiro fundo da BioGeneration Ventures ao longo de 10 anos de vida. A BioGeneration sempre se focou em empresas em fases iniciais de desenvolvimento, com capital semente (seed capital), mas temos agora maior capacidade financeira para acompanhar as empresas até fases mais avançadas e rondas de capital maiores. O fundo tem um track record muito bom, uma equipa forte que cresceu nos últimos dois anos e estamos agora no início do ciclo de vida deste novo fundo – preparados para fazer muitos e bons investimentos!

Quando a escutei pela primeira vez, em 2013, falava apaixonadamente sobre o seu trabalho de investigação e sobre as potencialidades que ele tinha para salvar vidas, Qual é hoje a parte mais desafiante do seu trabalho?
Exatamente o mesmo. O meu trabalho de investigação anterior permite-me avaliar, investir e apoiar projetos na área de ciências da vida e saúde que podem ter um impacte real na vida de muitos doentes. Participo agora do lado do investidor que acompanha e apoia ativamente a empresa no seu desenvolvimento.

O que diria a uma jovem que está a terminar a universidade e tenha o sonho de criar uma startup para desenvolver soluções terapêuticas que salvem vidas?
Estudem e especializem-se o máximo da área tecnológica porque nesta área das ciências da vida e da saúde a tecnologia é o cerne da startup. Em paralelo, interessem-se por saber mais sobre registo de patentes, desenvolvimento clínico e ensaios clínicos, processo de produção – estes são alguns dos fatores mais importantes e discutidos com investidores para financiar a pequena empresa. Não é só nos Estados Unidos que se podem fazer startups com sucesso nesta área. Em Portugal também podemos e eu acredito que temos cada vez mais recursos para o fazer.