Cristina Amaro: “como escapei ao burnout”

A autora e apresentadora do programa Imagens de Marca, da Sic Notícias, é também empresária, fundadora da produtora I'm in Motion, entre outras atividades e responsabilidades. O estado de exaustão a que chegou obrigou-a a mudar. Agora que está de regresso ao trabalho, partilha com as leitoras da Executiva como aqui chegou, o que fez e o que mudou.

Cristina Amaro partilha um momento difícil que atravessou, como alerta para outras profissionais que possam estar à beira do burnout.

A I’M in Motion é a marca umbrela de duas empresas: a olhoazul, conteúdos com visão (projetos editoriais), e a Contents for Bizz (dedicada ao branded & corporate contents), lançada há mais de uma década para produzir aquele que se tornaria num dos programas com maior longevidade em antena televisiva, o Imagens de Marca. A fundadora Cristina Amaro, mais conhecida pela apresentação do programa, é também uma empresária de sucesso, com 22 colaboradores e mais de 50 clientes.

Licenciada em Publicidade e Marketing pela Escola Superior de Comunicação Social, pós-graduada em Gestão de Imagem pela Universidade Nova de Lisboa e Complutense de Madrid e com uma especialização em Marketing pela Universidade Católica Portuguesa, o seu percurso profissional iniciou-se nos anos 1990 na área da publicidade, de onde transitou para o jornalismo, tendo passado pela revista Exame e por vários títulos ligados à economia e à tecnologia, até que em 2003 decidiu criar a sua empresa, da qual é CEO.

Com tamanhas responsabilidades e o corpo a dar sinais de exaustão decidiu fazer uma pausa para cuidar de si e se recompor. Agora que está de regresso ao trabalho, com energias renovadas, deixa o seu testemunho e explica as suas motivações ao fazê-lo:. “Partilhar um momento tão meu e tão delicado… espero fazer a diferença na vida de alguém”.

 

Como chegou ao estado de esgotamento?

Prefiro falar de cansaço e exposição prolongada ao stress do que de esgotamento. Eu sabia desde Dezembro que tinha de parar para recuperar da exaustão que o corpo estava a manifestar, mas fui adiando por colocar sempre as muitas responsabilidades que tenho na minha vida pessoal e profissional como prioridade. Em nenhum momento tive sintomas de depressão, de esgotamento emocional…felizmente! O burnout em que estava a entrar tinha forma de ser recuperado com a pausa que os médicos me aconselharam e a prova é que este mês de afastamento das responsabilidades, da agenda, das preocupações, das obrigações do dia a dia me permitiram regularizar o sono, voltar a encontrar a tranquilidade interior e sentir-me novamente no meu “estado normal de atividade”.

Chegar aqui não é difícil quando temos muitos focos de atenção, muito trabalho, muitas frentes…e eu, apesar de publicamente ser (o que parece apenas…) o rosto do Imagens de Marca e a autora do blogue CristinaAmaro.pt, sou (em primeiro lugar) uma empresária com responsabilidades sobre 22 pessoas que emprego e sobre duas empresas que formam o grupo I´M in Motion, a responsável pelo Advisory Board do Imagens de Marca composta por mais de 20 líderes de empresas e/ou diretores de primeira linha de grandes marcas nacionais e internacionais e ainda a fundadora e responsável por um projeto que estamos a fazer nascer, a Empower Brands Community que é altamente exigente nesta fase.

Dei por mim a dormir uma média de 4 horas por noite. De Dezembro a Fevereiro vivi permanentemente em desconforto. De dia e de noite.

Por ter tantas pastas abertas em simultâneo, que se estendem naturalmente pela minha vida pessoal, fui-me esquecendo de mim, deixando para amanhã os momentos que devia ter para me cuidar. Da mente, do corpo, da alimentação, do sono… dei por mim a dormir uma média de 4 horas por noite. Claro que o corpo passou do sinal laranja para o vermelho e eu tive de parar antes que tivesse problemas mais sérios. O alerta começou com dois desmaios em Dezembro, que me levaram para o hospital numa ambulância do 112 para despiste de ataque cardíaco, e depois em Janeiro com nova situação que me fez mesmo parar para pensar. Reduzi mas não parei e em Março, perante os exames que evidenciavam stress, decidi cuidar de mim e colocar-me em primeiro lugar. É um facto que só quando estas bem consegues fazer bem. E eu preciso de estar bem para conseguir assumir todos os papéis que desempenho: como rosto do trabalho de uma equipa, como jornalista que conduz emissões especiais numa antena televisiva premium, como empresária e como líder. Foi o melhor que fiz! Esta pausa de um mês permitiu-me deixar para trás os sintomas que podiam ser dramáticos se continuasse a ignorar o que o corpo estava a pedir: descanso.

Quais os sintomas que apresentava?

Ansiedade; insónias; tonturas; memória fraca, vontade de comer alimentos pouco saudáveis (doces, fritos, hidratos, coisas que por norma não como ou como pouco), aumento de peso e de volume, muito cansaço físico e muitas dores no corpo. Em todo o corpo, como se tivesse uma gripe violenta permanente.  De Dezembro a Fevereiro vivi permanentemente em desconforto. De dia e de noite.

Há momentos em que uma pausa é mais eficaz do que a produtividade que resulta do cansaço.

Como lidou com isso?

Procurei os meus médicos entre Novembro e Dezembro e comecei por fazer exames gerais. Um check up que não fazia há anos e que nos permitiu perceber que os meus níveis de stress eram talvez a maior preocupação. Primeiro recusei que o meu cansaço precisava de uma pausa de algumas semanas. Fiz uma ligeira, de dias, mas de computador no colo sem desligar a cabeça. Foi preciso os três médicos mais importantes na minha vida, de especialidades diferentes, me dizerem que eu só precisava mesmo era de uma pausa para estar comigo. Um deles aconselhou-me a fazer um retiro de um mês. E foi aí que disse a mim mesma que talvez fosse melhor ouvir o que eles me estavam a dizer. Os desmaios não eram bem vindos, novamente. E seria, na verdade, irresponsabilidade minha não parar. Por vezes é preciso inverter a pirâmide e perceber que há momentos em que uma pausa é mais eficaz do que a produtividade que resulta do cansaço. Precisei do meu tempo para aceitar que podia ter problemas irreversíveis no futuro. Parar agora era um sinal de inteligência uma vez que era recuperável todo o cansaço que manifestava. Bastava ter tempo para mim.

Qual foi o momento de viragem, em que percebeu que tinha de mudar algo?

Claramente quando estava sozinha em casa e acordei de madrugada com os mesmos sintomas que tinha tido em Dezembro e que acabaram por nos obrigar a chamar o 112. Nesse dia não tinha apoio nem forças para chamar ninguém. Tive de lutar sozinha para não deixar o corpo ceder… foi muito difícil esse momento. E foi depois disso que me mentalizei que a minha cabeça queria fazer mas o meu corpo não respondia. Eu sou uma pessoa muito empreendedora e criativa, e isso tem tanto de bom quanto de menos bom.  Há momentos que temos de parar para recuperar energias. E esse era o momento de o fazer. Já tinha a casa arrumada, o aniversário dos 15 anos do IM tinha sido nessa noite, e talvez tivesse sido uma descarga de adrenalina que me provocou novo limite. Ouvir dos médicos em quem confio que o meu corpo precisava de recuperar e que eu tinha de ter um pouco de calma, fez-me acender a luz e dizer que ia parar o tempo que me aconselhavam e fazer o que eles achavam melhor. E assim foi.

Ser dona do seu tempo, enquanto empresária, permite maior flexibilidade no trabalho.

Que medidas tomou para poder recuperar?

Reuni as minhas equipas, de apoio em casa e na empresa, e distribui pastas, tarefas e responsabilidades. Escolhi um local que conhecia e que sabia que ali iria cuidar do meu corpo, da minha alimentação e da minha mente. Precisava de água salgada e de mãos que me libertassem o stress acumulado; de uma desintoxicação para voltar a respirar melhor e de silêncio para acalmar a minha inquietude. O Algarve tem uma energia especial para mim e por isso me entreguei de corpo e alma a quem sabe cuidar de nós de forma integrada. Não estava doente. Estava cansada. Precisava de mimos, de tratamentos que me devolvessem o bem-estar e a tranquilidade. Fiz uma semana de desintoxicação, três dias de dieta líquida, uma sessão de ozonoterapia, vários tratamentos ao corpo com água do mar aquecida, troquei as tecnologias por livros, as notícias por filmes inspiradores. Fiz muitos passeios pela natureza, fotografia e contemplação…. por vezes ficava o tempo que me apetecia a ouvir o som dos pássaros e das rãs a cantar no lago em frente ao meu quarto.

Fiquei comigo, sem agenda, sem horas, sem preocupações e com liberdade para fazer somente o que me apetecia, durante duas semanas inteiras para que me reencontrasse. Para que dormisse. Para quem me equilibrasse outra vez.

Uma das coisas que me faz sentir mais diferença é fechar o dia com um livro em vez de ser com o telemóvel.

Passei a fazer passeios com o meu cão para caminhar, quando regressei a Lisboa, a ter mais cuidados com lanchinhos saudáveis, a respeitar horas de trabalho e de descanso, embora quem trabalhe com criatividade não tenha horários. Quando tenho um momento de inspiração de madrugada levanto-me e escrevo mas em vez de ficar acordada desde as 2H da manhã ou das 4H da manhã e ir trabalhar como se fosse um dia normal, hoje dou espaço a mim mesma para recuperar desse esforço. Se me apetecer dormir a partir das 7H e até às 9H ou às 10H, faço-o.

Uma das coisas que me faz sentir mais diferença é fechar o dia com um livro em vez de ser com o telemóvel. E neste regresso, já institui um conjunto de regras internamente para que a organização da minha agenda me permita respeitar mais os meus tempos.  A sexta feira à tarde por exemplo passou a ser um momento meu. Para cuidar de mim. Passei a ter chás e águas aromatizadas na minha secretaria, fruta fresca para comer a meio da manhã ou da tarde, mais rigor nas interrupções, telemóvel em silêncio quando estou a escrever ou em reunião. O meu mail passou a ser filtrado pela minha assistente (tinha dias com mais de 500 mails para abrir) e coloquei a minha vida pessoal como a minha prioridade.

Tenho muita sorte de ser “dona do meu próprio emprego” mas não deixei de respeitar ninguém e não deixo nunca ninguém prejudicado por causa dos meus timings. Apenas distribui melhor as tarefas e dei às pessoas a prova que precisavam para se sentirem à altura dos nossos desafios. Ninguém falhou. Estamos todos mais equilibrados e temos todos mais noção do nosso valor!

Este período termina com uma viagem que já estava planeada e calhou muito bem associar a tudo isto novos ambientes, novas culturas e o sol quentinho da Tailândia.

Nada justifica nos esquecermos de nós, não nos colocarmos em primeiro plano.

Que lições retira desta fase?

A principal é que somos muito frágeis e NUNCA insubstituíveis. Isso foi a base para criar novos hábitos e desenhar o coração da mudança que desenhei e que vou guardar comigo para me lembrar das pausas que vou querer fazer mais vezes ao longo do ano, do que quero fazer no dia a dia para me libertar do stress, dos novos hábitos alimentares e de tratamentos do corpo e da mente, como o espaço para meditar, para ouvir o meu silêncio interior… Nada justifica nos esquecermos de nós, não nos colocarmos em primeiro plano. Não se trata de sermos egoístas. Trata-se de somente ser possível cuidarmos dos outros quando nós estamos bem. Vinha muitas vezes à minha cabeça a imagem da perda de pressão das cabines dos aviões: quando caem as máscaras, a quem colocamos primeiro? É simples. Quando estamos bem os outros também poderão estar. Portanto, primeiro temos de cuidar de nós.