Norberto Amaral: Como comunicar em público

Norberto Amaral, formador e coach de oratória, organizador do TEDxPorto e autor do livro Impacto - Como comunicar em público revela os segredos das apresentações eficazes.

Norberto Amaral é managing partner na Cultiv, formador e coach de oratória, organizador do TEDxPorto. e autor do livro "Impacto – Como Comunicar em Público".

Já todos assistimos a apresentações que ficaram muito aquém das nossas expectativas. A mensagem não passou, não nos sentimos envolvidos, e o tédio, a distração e até o sono apoderaram-se de nós. São imensas as oportunidades perdidas e que não voltam a repetir-se.

Comunicar em público é fundamental para o nosso sucesso pessoal e profissional – seja em contexto empresarial, académico ou associativo, e desde simples apresentações para partilha de informação à divulgação de novas ideias e conceitos, da criação de parcerias à procura de investimento de risco.

A verdade é que falar em público não é natural e a grande maioria das pessoas sente imensa dificuldade em fazê-lo. Muitas acreditam que não nasceram para falar em público e nem sequer consideram preparar-se por crerem ser inútil e que nunca conseguirão aprender nem ultrapassar essa dificuldade. Trabalham para a perfeição e se acharem que não chegam lá, não chegam a dar o primeiro passo. E quando veem uma pessoa que admiram por o conseguir, acreditam que nasceram para falar em público e que não precisam de esforço nem de preparação.

Falar em público não é um talento que se tem ou não se tem. É uma qualificação que pode ser aprendida e trabalhada.

Esta não passa de uma racionalização para justificar o pouco à vontade em palco e não ter de realizar o esforço necessário a algo que sentem que não lhes é fácil nem natural. Mas falar em público não é um talento que se tem ou não se tem. É uma qualificação que pode ser aprendida e trabalhada e para nos capacitarmos precisamos de evoluir esta forma de pensamento e atuação.

Não será por isso novidade para ninguém que a grande maioria das apresentações a que assistimos são altamente insatisfatórias. Inicialmente sentimos interesse e curiosidade, mas à medida que a apresentação avança perdemos todo o nosso entusiasmo. Procuramos distrações que ajudem a passar o tempo (a verdadeira grande razão da popularidade dos smartphones) e ansiamos por um fim rápido e indolor!

Não existe uma causa única para este fenómeno, mas a origem é comum: o orador. Ou a oradora. Estas têm a oportunidade, interesse e obrigação de preparar e realizar apresentações arrebatadoras, com conteúdos e argumentos simultaneamente sólidos e impactantes, mas na maioria dos casos não o fazem. Em vez disso jogam pelo seguro e refugiam-se em pensamentos fatalistas e incapacitantes. É uma promessa não cumprida, aos outros e a si mesmas, e deve-se a nada menos do que à falta de interesse em, usando as palavras de Alvin Toffler, escritor, pensador e futurista norte-americano, desaprender e voltar a aprender tudo o que sabe sobre fazer comunicação em público.

Contentamo-nos com o q.b. na forma como falamos e compensamos com um dilúvio de informação.

Com um foco quase exclusivo na mensagem, praticamente todos os outros aspetos importantes das apresentações são descurados. Sabendo que não conseguimos ser perfeitos, e sob a capa de uma obrigação profissional, contentamo-nos com o q.b. na forma como falamos e compensamos com um dilúvio de informação que achamos por bem transmitir em vez de nos preocuparmos com a receção dessa informação por parte de quem nos ouve. E em vez de imprimir um tom mais entusiasmante e marcante à apresentação, dando maior vivacidade à sua voz e criando slides visualmente fortes, a maioria das pessoas prefere o tom monocórdico e aborrecido. A sua credibilidade está em jogo porque não podem correr o risco de parecerem umas palhaças aos olhos do público!

De facto, é a credibilidade que está em jogo, mas não como a maioria das pessoas julga. Quando uma apresentação não associa paixão e entusiasmo ao conteúdo, quem sofre as repercussões é o orador – sempre depois do público, esse sofre sempre em primeiro lugar. As ideias não serão bem recebidas. Aquela proposta para aquele projeto em que tantos recursos foram despendidos para ver a luz do dia não sairá do mundo virtual de um ficheiro no seu computador. Quando somado à escala da empresa e do país o impacto económico é gigantesco, quanto mais não seja porque as decisões que as apresentações pretendem incentivar são adiadas em vez de serem tomadas mais rapidamente – é o chamado custo de oportunidade. Isto tem um grave impacto na reputação profissional do orador, nas organizações, na produtividade.

Partilhe histórias, ideias e experiências.

A mensagem deve ser centrada não no orador, mas no público e nas suas necessidades. Se focar apenas em si será mais difícil criar uma ligação com o público; no entanto, se tiver as necessidades do público em conta este sentir-se-á mais próximo de si e recompensá-la-á com toda a sua atenção. Partilhe histórias, ideias e experiências. Seja bem-humorada, usando um pouco de humor autodepreciativo aqui e ali, e verá que isso faz maravilhas na aceitação do público!

Sempre que transmitir uma ideia não se limite a fazer apenas isso: explique ao público a razão da importância dessa ideia – por que razão se deverá importar com ela! E, por fim, quando tal fizer sentido, dê a conhecer ao público o que este poderá fazer em relação a essa ideia, tal como investir, juntar-se à equipa, criar uma comunidade, realizar uma parceria ou comprar um produto. Seja o que for, diga-o!

As pessoas querem uma pessoa de carne e osso e não slides frios.

Muitas apresentações são acompanhadas de slides mas a oradora esquece-se que ninguém a vai ver apenas para ver os slides. Se assim fosse, bastar-lhe-ia partilhar um documento por email e nunca seria necessário fazer uma apresentação em público. Seria tão mais simples!

Mas, na verdade, nada é assim tão simples. As pessoas querem ouvi-la, querem poder interagir, confirmar ou refutar as suas ideias, em suma, querem uma pessoa de carne e osso e não slides frios. Por isso, em primeiro lugar, considere se de facto é necessário usar slides na sua apresentação. Perdi a conta ao número de apresentações que presenciei que não só não era necessário um único slide como a sua utilização causou danos na apresentação.

Se tiver bullet points considere trocar essa enumeração, que aborrecerá o seu público, por uma narrativa, que o atrairá

Se decidir que é mesmo fundamental utilizar slides na sua apresentação pergunte a si mesma, para cada slide e para cada elemento de texto ou gráfico nos slides, se são de facto necessários. Muitas vezes colocamos informação a mais para nos protegermos quando o efeito real é criar uma barreira enorme à compreensão por parte do público. Retire por isso todos os elementos a mais e mantenha apenas os que são fundamentais permanecerem. Simplifique, simplifique e volte a simplificar. Se tiver demasiada informação num slide, divida-a em vários slides. Se tiver bullet points considere trocar essa enumeração, que aborrecerá o seu público, por uma narrativa, que o atrairá!

A transmissão de informação sem qualquer sentimento ou emoção dificilmente entusiasmará o seu público. Como conseguirá entusiasmar se você própria não transmite qualquer emoção? Assim é difícil, não é? Se sentir paixão pelo tema da sua apresentação, demonstre-o, e não peça desculpa a ninguém por isso! Será muito mais facilmente lembrada do que se aprimorar apenas o conteúdo – recorde-se de uma situação habitualmente atribuída a Maya Angelou: “As pessoas esquecer-se-ão do que disse, mas nunca se esquecerão de como as fez sentir!” (Se não sentir paixão pelo tema da sua apresentação, permita-me que lhe pergunte: porquê? O que está a fazer nesse trabalho? A sua energia e entusiasmo não seria melhor empregues noutra causa? Mas isso é outro assunto, certo?)

Seja autêntica e genuína.

Nas suas apresentações seja autêntica e genuína. Isto refletir-se-á imediatamente na forma como as suas ideias são recebidas. Caso contrário, o seu público desconfiará imediatamente de si, pensando que tem mais em conta os seus próprios interesses do que os do público. Quando faz uma apresentação já é o centro das atenções e não precisa de fazer mais por isso. Dê lugar às ideias e não se enalteça face ao público.

Para os melhores resultados possíveis, cultive a sua presença em palco. Mantenha contacto visual ao longo de toda a apresentação, mesmo quando procura recordar-se das palavras que vai dizer de seguida. Imagino que ninguém gosta de estar a falar com outra pessoa e essa outra pessoa não nos olha nos olhos. Em apresentações aplica-se o mesmo princípio. Não fixe o seu olhar numa única pessoa – permaneça alguns segundos com uma pessoa e mude com suavidade para outra à medida que fala. Faça como se estivesse com um grupo de amigos, da forma mais natural possível.

Peça a amigos e colegas para a ouvir, e contar as vezes que usa muletas verbais como “hã”.

A grande maioria das pessoas usa “muletas verbais” e, arrisco a dizer, a leitora também. Se assim for, elimine-as radicalmente. Todos os “hãs”, os “digamos assim”, os “bocadinhos”, os “verdadeiramente”, estalidos de língua e qualquer outra expressão repetida e sem conteúdo conduz à distração do público da sua mensagem, que começa a preocupar-se mais com a contagem destas repetições do que com o que diz. E nos casos mais extremos conduz ao descrédito. Peça a amigos e colegas para a ouvir, e apontar e dizer-lhe as vezes que usa estas muletas.

Tenha ainda em atenção aos seus gestos e à forma como se movimenta. Todo e qualquer gesto ou movimento repetitivo é causa de distração no público. Tem cabelo comprido? Não sucumba à tentação de estar sempre a colocá-lo atrás da orelha. Não gesticule em demasia e sempre com os mesmos movimentos. Varie, e movimente mãos e braços de forma assimétrica. A melhor forma de estar em palco é com os pés firmes no chão, sem caminhar em excesso. Tome atenção às formas de demonstração de nervosismo, tal como cruzar as pernas quando está de pé ou se costuma colocar o peso ora sobre uma perna ora sobre a outra – estes comportamentos farão com que perca facilmente a credibilidade perante o público e o seu equilíbrio físico.

Por fim, é natural que se sinta nervosa ao falar em público. Este sentimento é muito comum mas não tem de ser paralisante. Verá que se ensaiar bastante, não em frente ao espelho mas com colegas e amigos, não só conseguirá ser mais natural como receberá precioso feedback destas pessoas. E como não há ninguém melhor para transmitir as suas ideias, vai deixá-las morrer sem as apresentar? Verá que, mesmo sentindo esses receios, com coragem conseguirá ultrapassá-los, assim como a eventuais desejos de perfecionismo e assim conseguirá ter um impacto fortíssimo nas suas apresentações!

 

Norberto Amaral é managing partner na Cultiv, formador e coach de oratória junto de inúmeras empresas e outras instituições, e organizador do TEDxPorto. O seu livro, Impacto – Como Comunicar em Público, foi publicado em junho de 2019 pela Penguin Random House sob a chancela Arena e será apresentado na Fnac do Centro Comercial Colombo no dia 27 de Junho, pelas 18h 30m.