De colaboradora a empreendedora: a sua mente está preparada?

Antes mesmo de ter o investimento necessário ou uma ideia de negócio original, há toda uma mudança a ser feita em direção a uma mentalidade empreendedora. Descubra as diferenças.

Para se tornar empreendedora precisa de uma moldura mental diferente, capaz de testar, arriscar, sair da “caixinha” para reescrever as normas, agora nos seus termos.

Entre 2007 e 2015 foram constituídas em Portugal 309.550 empresas e outras organizações, uma média de 34 mil startups a nascerem todos os anos, segundo dados da Informa D&B. Os números expressam bem como estas novas empresas são importantes no universo empresarial português e como o nosso país está cheio de gente empreendedora. Mas nem todos os novos empresários conseguem mudar o seu padrão mental quando fundam os seus negócios — e isso é crucial para o sucesso.

A transição da mentalidade de empregada para a de empreendedora não é imediata e implica abandonar anos de dogmas enraizados, mudar completamente o chip e entrar num processo de autodescoberta. Mais do que trocar um salário certo pela insegurança financeira, é deixar de depender da orientação e aprovação de colegas e chefes para tomar a dianteira no processo de tomada de decisão, assumir muito mais responsabilidades, confiar nos seus instintos para fazer crescer o seu negócio e a sua carreira.

O modo como vê as coisas pode (e deve) mudar radicalmente de uma realidade para a outra:

Sabe que tudo depende apenas de si

Se, enquanto colaboradora, é responsável apenas pelo seu trabalho — ou por um conjunto específico de responsabilidades, quando assume um cargo de direção — enquanto empreendedora todas as decisões da sua empresa recaem sobre si: da escolha da equipa, à dos seus parceiros de negócio; da contabilidade à estratégia de mercado. Não pode esperar que as grandes oportunidades lhe aterrem no colo ou que alguém lhe diga o que fazer e como: é você que tem de fazer as coisas acontecer. E, muitas vezes, a única pessoa de quem poderá depender para lhe dar motivação é de si própria.

Começa também a ter a noção de que timing é tudo e que as oportunidades de mercado, às vezes, são pequenas brechas que é preciso aproveitar urgentemente. A insegurança é o catalisador da ação, porque tudo depende só de si, e a forma como encara os seus receios é o ponto de partida para começar a ultrapassar obstáculos: “como posso fazer para que isto resulte?”

A sua mente não pica ponto

Enquanto empreendedora, não ficará obrigatoriamente presa ao escritório durante todo o horário de expediente, até porque terá outras responsabilidades fora da empresa. Mas o seu trabalho e o seu negócio também não ficam no escritório, ao fim da tarde, quando voltar a casa. Prepare-se para pensar neles constantemente  — o que vai bem, o que pode melhorar, como o contexto económico está a mudar, que novos competidores terá de enfrentar — e para fazer muitas horas extra sem se aperceber disso.

A juntar a isto existe ainda o facto de passar a sentir-se responsável pela vida dos seus colaboradores (se os tiver). No fim do mês há que ter dinheiro em caixa para pagar salários. Além disso, para o seu negócio crescer há saber motivar a equipa, cativar e fixar os melhores talentos.

Pensa “fora da caixa”

Numa carreira corporativa, muitas vezes o grande medo é não corresponder às expetativas e objetivos da empresa. É ele que nos faz conformar até com as regras e decisões com que nem sempre concordamos. Mas não há espaço para esse conformismo quando está por sua conta e risco: é preciso testar, arriscar, reescrever as normas, agora sob os seus cânones; sair da “caixinha” que até agora, enquanto colaboradora, moldou a sua forma de agir. Vai ser preciso resistir ao ceticismo e à rejeição com uma dose ainda maior de resiliência.

Precisa de visão a curto e longo prazo…

Enquanto trabalha para outros, na maioria dos casos tem de se preocupar em cumprir os prazos que as chefias ou a administração delinearam. Enquanto nova empresária, terá de tomar decisões rapidamente, muitas vezes baseada em incertezas. Além de assegurar o trabalho que tem de ser feito já para obter resultados imediatos, tem de aprender a projetar o pensamento no futuro, prevendo as consequências que as suas decisões poderão ter no trimestre seguinte ou mesmo daqui a um, dois, cinco anos.

… e de aprender a correr riscos calculados

Esqueça a noção de segurança como a entendia até agora. Se, enquanto empregada de uma empresa, pensava que ela estava em não correr riscos, agora está em aprender a corrê-los de forma calculada. Aliás: só vai conseguir crescer aprendendo a fazê-lo. Fazer um bom planeamento, conhecer muito bem o seu mercado — os seus clientes e a sua competição — estruturar bem o seu negócio, são noções essenciais para poder arriscar de forma sensata, tentando minimizar os riscos de que as coisas corram mal através de um bom reconhecimento do novo terreno em que se move.

Vê os números como os seus melhores amigos

Se já tem mais do que a sua dose de estatísticas e números enquanto colaboradora de uma empresa, quando tiver o seu negócio vai precisar de os tratar por tu e de os conhecer a todos, a um nível nunca antes experimentado: despesas, receitas, lucros, perdas, estatísticas de mercado, todos eles vão ser essenciais para planear o seu negócio a curto e longo prazo. Se não lidava com essas realidades quantitativas, vai ter que aprender tudo sobre elas rapidamente: disso depende a sobrevivência financeira da sua empresa.

Prepara-se para ser a última a receber

Quer se sentisse bem ou mal paga, enquanto colaboradora de uma empresa, o seu salário caía na conta a casa dia 30 ou 31 de cada mês. Mas prepare-se, porque isso pode não acontecer nos primeiros tempos da sua nova empresa. Por melhor que ela vá e por mais alto que seja o valor do contrato que acabou de fechar, quando finalmente o dinheiro entrar em caixa — e em Portugal isso pode demorar mais do que pensava, já que temos a segunda pior média europeia de pagamentos feitos dentro dos prazos, apenas 19,5% — primeiro ainda há impostos, salários, despesas fixas e custos de produção a pagar. Depois, muitas vezes no fim da linha, está você, como o capitão do navio.

Encara os erros como ponto de partida para o sucesso

Cometer erros não é, geralmente, nem muito bem visto nem muito tolerado no mundo corporativo. Encaramos as falhas como algo que pode mesmo custar-nos o emprego e desencadear respostas punitivas. Passar a empreendedora implica encarar o erro sob uma luz mais positiva e aprender a valorizá-lo como parte inevitável da aprendizagem: mais um passo no caminho para o sucesso. Ou, nas palavras de Ortega y Gasset, “todo o erro é uma propriedade que acresce o nosso haver. Em vez de chorar sobre ele, convém apressar-se a aproveitá-lo.”

Abandona a ideia de que tem de ser a melhor

Por causa da competição (mais ou menos agressiva) que vinga em muitas culturas corporativas, muitos colaboradores desenvolvem uma espécie de ansiedade de terem de provar constantemente que são os mais inteligentes e os melhores naquilo que fazem. Um peso que os empreendedores mais bem-sucedidos aprendem depressa a deixar para trás: o importante é rodear-se dos melhores, seja na forma de colaboradores, mentores ou fornecedores; gente com aptidões, soft skills ou produtos diferenciados, que completem ou até melhorem os seus conhecimentos e performance.