Céline de Azevedo,
designer de cor

Apaixonou-se pelas cores em criança e isso pintou-lhe o futuro. É a única na sua profissão em Portugal e trabalha em exclusivo para a CIN há 10 anos. Quando lhe perguntamos quantas cores criou, já só consegue responder: "Muitas!".

Céline de Azevedo trabalhou cinco anos no projeto Chroma Guide

Descoberta a vocação em menina, rapidamente traçou o caminho. Formou-se em Design de Cor e começou por trabalhar com Jean Philippe Lenclos, mestre e pioneiro na prática da cor. Desde 2004 que tem a responsabilidade de criar cores para o grupo CIN e já perdeu a conta a quantas criou. A propósito da apresentação do ChromaGuide, em que a CIN apresenta 1650 novas cores, entrevistámos Céline de Azevedo para nos falar sobre os desafios da sua profissão.

Quando descobriu que queria ser designer de cor?
Quando era criança passava horas a desenhar, colorir, pintar, criar objetos… Nasceu naturalmente um interesse forte e uma paixão pela arte, pela criação a todos os níveis, da pintura ao design, passando pela arquitetura e pelo cinema. Especializei-me em Design de Cor na Universidade de Toulouse, em França e comecei a trabalhar em 2003 no Atelier 3D Couleur, em Paris, dirigido por Jean Philippe Lenclos, mestre internacional e pioneiro na prática da cor. Desde 2004 sou responsável pelo design de cor do Grupo CIN, onde me dedico às mais diversas ações neste âmbito: criação de novas cores, conceção de catálogos, desenvolvimento de tendências de cor, formações de cor, entre outros.

Pode criar-se uma cor num dia, numa semana ou em várias. Depende da complexidade do projeto.

O que é preciso para criar uma cor?
Pode criar-se uma cor num dia, numa semana ou em várias semanas. Depende muito da complexidade do projeto. O Chroma Guide, composto por 1650 cores, contou com vários anos de desenvolvimento. Já as Tendências de Cor abarcam cerca de um ano de criação. É um trabalho diário, a respirar “l’air du temps”. A visita a feiras internacionais, a participação em workshops com líderes de opinião em tendências de cor, a consulta da imprensa e das edições especializadas nesta área e a análise da evolução dos estilos de vida, ajudam-nos a definir as necessidades dos consumidores e, consequentemente, quais serão as cores do futuro para a casa. São fases essenciais no trabalho de criação e perceção da evolução das tendências de cor. Depois, reunimos toda a informação cromática e inspiracional acumulada durante o ano, e segue-se um trabalho de atelier onde construímos e criamos as coleções para o próximo ano. Existe a posteriori um trabalho rigoroso de desenvolvimento nos laboratórios da CIN onde as cores são estudadas na nossa ampla gama de produtos, para além da conceção do design do catálogo e da produção dos materiais de cor para os pontos de venda.

Quantas cores já criou?
Há uns anos já me fizeram esta pergunta e respondi, pelo menos, umas 500. A verdade é que agora já não conto, por isso respondo: muitas!

E quantas cria, em média, para cada catálogo?
Estou na CIN há 10 anos e cada catálogo é diferente mas, em média, serão umas 100 cores.

Que tipo de empresas contratam o seu trabalho?
Trabalho em exclusivo para a CIN, mas para todas as marcas do grupo. Ou seja, desenvolvo também catálogos específicos para cada mercado em que está presente, para cada marca, para diferentes tipos de produtos e de aplicações. Por exemplo, acabo de finalizar um catálogo para a CIN Indústria que é específico de cores para tintas em pó. São cores utilizadas e aplicadas em estruturas metálicas para a arquitetura.

Qual o trabalho mais desafiante que já fez na sua carreira?
O mais desafiante foi, sem dúvida, o Chroma Guide. É um grande projeto no qual trabalhei durante mais de cinco anos e que envolveu um grande investimento tanto financeiro como humano. 1650 cores novas numa gama de 10 produtos premium, não é todos os dias que se lançam…

A cada ano recebemos chamadas e emails a perguntar: “Quando saem as tendências?”, e isto é muito bom…

E qual aquele de que mais se orgulha?
O que mais me orgulha é o projeto Tendências de Cor, que lançámos há 15 anos. Todos os anos é um novo desafio porque temos que nos renovar e inovar. A CIN foi pioneira no lançamento anual de novas cores e o orgulho advém do sucesso anual que são as nossas Tendências de Cor! Orgulho por ser um projeto que se tornou uma referência no mercado e que é indissociável da marca. Cada ano recebemos chamadas e emails a perguntar: “Quando saem as tendências?”, e isto é muito bom…

Acha que os portugueses são arriscados na cor?
Há uma tendência natural, na maioria das culturas, para as pessoas procurarem cores mais claras. Na CIN, os brancos, os neutros e os cremes são best-sellers. Contudo, nos últimos anos, assistimos a um aumento na preferência por cores diferentes, mais arrojadas e personalizadas. O português tem hoje um gosto enorme em decorar a casa, em pintar uma parede de uma cor diferente… Jogar com a cor entrou nos hábitos da decoração. O consumidor sente mais segurança em arriscar utilizar cores diferentes do habitual.

Qual é a sua cor preferida?
É o verde. Esta sempre foi para mim uma cor inspiradora, tanto pela riqueza e variedade de tons que oferece na natureza como pelo seu simbolismo e história. É uma cor que “me acompanhou” sempre nos meus projetos. Não há um verde em particular que me agrade mais, nem um especifico criado por mim, gosto de todos.

Concorda que as cores influenciam os estados de alma?
Obviamente que concordo, é o poder da cor! A cor está presente a cada segundo da nossa vida e tem este poder fantástico de agir sobre o nosso estado de espírito, ela ajuda-nos a progredir no meio em que nos inserimos enquanto seres humanos. Todos os aspectos da cor são indissociáveis da vida (aspectos físicos e químicos, funcionais, culturais, sociais, artísticos, históricos, biológicos…).
Utilizar a cor na decoração contribui para nos sentirmos melhor nas nossas casas e nas nossas vidas. A cor ajuda a melhorar o quadro de vida e a embelezar os espaços. A verdade é que foi sempre assim, já na pré-história os nossos antepassados tinham sensibilidade para isso e decoravam as suas casas com pinturas rupestres.

 Tenho um estilo muito neutro que privilegia o conforto. Não me visto, nem a minha casa se parece com um arco-íris. Preciso de alguma neutralidade para trabalhar.

Usa a cor para transmitir uma determinada imagem?
Pessoalmente, tenho um estilo muito neutro que privilegia o conforto. Não me visto, nem a minha casa se parece com um arco-íris. Aliás, preciso de alguma neutralidade para trabalhar. No entanto, quando encontro uma cor que gosto mesmo muito, compro, e claro, ela acaba por representar sempre um pouco a minha personalidade e os meus gostos. Mas não utilizo nada, quando se trata de mim enquanto pessoa, de forma estratégica. A verdade é que as minhas escolhas passam sempre pelo lado emocional, o que é bem mais simpático e agradável.

 

QUAL O EDIFÍCIO A QUE GOSTARIA DE MUDAR A COR?

Tantos! Mas gostava muito de ter o poder não só de mudar a cor, mas de reabilitar, manter, conservar, assim, de um momento para o outro, tal como uma feiticeira, muitos edifícios do Porto, a minha cidade há 10 anos. A cidade tem muitos edifícios arquitetonicamente fabulosos que precisavam de ser reabilitados e conservados antes que acabem por desaparecer por completo, infelizmente.