Céline Abecassis-Moedas: “É importante as mulheres ganharem visibilidade”

Céline Abecassis-Moedas tem feito a sua carreira conciliando o mundo académico com o corporativo, acreditando na mais-valia que esta dupla experiência tem para ambos. Nesta entrevista, chama a atenção para a importância de as mulheres ganharem mais visibilidade participando nos foruns certos.

Céline Abecasis-Moedas assumiu recentemente a direção do Center for Technological Innovation and Entrepreneurship, da Católica Lisbon.

Céline Abecassis-Moedas licenciou-se em Economia e Gestão, fez o mestrado em Métodos Científicos de Gestão e o doutoramento em Estratégia Empresarial, em França, onde nasceu há 47 anos. Começou a carreira pelas empresas – France Telecom, em Paris, Lectra em Nova Iorque, e AT Kearney em Londres -, mas rapidamente cedeu ao apelo da academia, que tem sido, nos últimos 15 anos, o principal foco da sua atividade profissional, mas que tem conciliado com cargos empresariais. A viver em Portugal desde 2004, onde chegou já com os 3 filhos, Céline Abecassis-Moedas é professora associada na Católica Lisbon e professora afiliada na ESCP Europe.

Confessa que gosta da liberdade intelectual que a academia lhe proporciona, mas reconhecendo a mais-valia de juntar a sua experiência académica à empresarial e a importância de alargar os fóruns em que se move, em 2012, estreou-se como administradora não executiva na Europac, e em 2016 integrou a administração da José de Mello Saúde e dos CTT, onde se mantém. Desde maio, acumula todas as suas funções académicas e empresariais com o cargo de diretora académica do CTI&E – Center for Technological Innovation & Entrepreneurship, da Católica Lisbon School of Business and Economics.

A sua carreira tem-se dividido entre a academia e as empresas. Foi uma opção ou aconteceu por acaso?
Depois de terminar o doutoramento decidi trabalhar na indústria e não diretamente no mundo académico. Desde o início, senti que podia ser uma ponte entre o meio académico e o meio empresarial.

Trabalhei na Lectra, uma empresa de tecnologia francesa em Nova Iorque, especializada na indústria da moda, e para a consultora estratégica AT Kearney, em Londres. Depois de três anos de experiência empresarial, decidi voltar à vida académica. Quando comecei a constituir família houve um “chamamento” para a componente da educação e investigação, que sempre foi uma paixão, e então dei início ao meu percurso académico, com consciência da exigência que isso implicava. Aprecio muito a liberdade intelectual duma carreira académica, pois posso decidir os meus tópicos de investigação, com quem trabalho e o ritmo de trabalho. É um meio muito exigente mas com muita flexibilidade e liberdade.

Sou melhor professora e investigadora por causa do meu conhecimento do mundo empresarial e sou melhor administradora pela minha experiência académica na área de inovação.

Qual tem sido a sua mais-valia pelo facto de conseguir conciliar a perspetiva da academia com a do mundo real das empresas?
Estando nas empresas percebo de facto a realidade de uma forma mais próxima e concreta, com tudo o que daí advém. Consigo antecipar tendências, que integro na componente do ensino universitário, o que promove a relação entre as duas realidades que se querem de braço dado. Por outro lado, também dou um contributo às empresas complementado por um saber académico e de investigação e uma prática mais empírica nas áreas de inovação e criatividade.

Em suma, acredito que os meus alunos serão mais bem preparados para o mundo real e que as empresas estarão a par dos talentos do futuro.

Desses dois papéis qual o que mais a apaixona?
O da Academia, que é o meu papel principal, mas já não o concebo separado da vida empresarial onde mais recentemente também passei a ter um papel mais forte, como administradora não executiva.

Sou melhor professora e investigadora por causa do meu conhecimento do mundo empresarial e sou melhor administradora pela minha experiência académica na área de inovação.

Em qual dessas duas áreas viveu o seu maior desafio profissional e de que forma ele influenciou o seu percurso profissional?
O meu maior desafio é sempre o último a que me proponho, neste caso é a fundação e liderança do CTIE que está na fronteira destas duas áreas. O CTI&E – Center for Technological Innovation & Entrepreneurship, da Católica Lisbon, é um elo entre o mundo académico (estudantes, docentes, investigadores) e o ecossistema de empreendedorismo e inovação (nacional e internacional).

O Centro tem atividades em três pilares na área de Inovação Tecnológica e Empreendedorismo:

  • Excelência em investigação através do programa de bolsas de estudo, publicações de trabalhos de investigação e conferências académicas. O CTI&E promove a visibilidade das investigações dos seus membros, em Portugal e internacionalmente.
  • Liderança na educação em licenciaturas, mestrados e programas executivos. O CTI&E promove métodos e conteúdos de ensino inovadores.
  • Disseminação do conhecimento académico para a sociedade civil como um todo, através da comunicação institucional (revistas especializadas, livros, artigos, etc.) e eventos (conferências que reúnem académicos, profissionais e estudantes).

A minha dupla experiência é muito útil na liderança deste Centro.

A visibilidade exige participação, por isso nunca devem desistir de participar nos fóruns certos e nos debates.

Onde se vê daqui a 10 anos e como se está preparar para lá chegar?
Daqui a dez anos vejo-me a trabalhar com o mesmo afinco de hoje e a olhar para um mundo que será muito diferente, tendo em consideração a acelerada mudança que caracteriza a nossa sociedade atual. Espero ver muitas das minhas antigas alunas em posições de liderança!

Em que podem as portuguesas melhorar “para estarem mais visíveis” quando é preciso preencher um cargo de topo?
A visibilidade exige participação, por isso nunca devem desistir de participar nos fóruns certos e nos debates.

Que fatores podem acelerar a mudança dos cargos de liderança para composições mais equilibradas?
Já se começou a percorrer um caminho que, estando-se ao não de acordo, tem tido o seu impacto, acredito que positivo, mas é um processo que leva o seu tempo. Não sei se podemos falar de fatores, mas sei que a estrutura da sociedade, em especial os apoios às famílias bem como as mentalidades estão a mudar, e isso é um bom sinal.

Mas falando dos fatores, há três que considero fundamentais. É essencial haver mais role models femininos – as mulheres em posições de liderança existem, mas temos que torná-las mais visíveis. Apostar mais no mentoring, formal ou informalmente, e no networking. É muito importante ganhar visibilidade e passar mais tempo fora do escritório para perceber o que acontece “out there”.

As alunas de licenciatura ou de mestrado (sem experiência profissional) não têm a noção que nas carreiras delas vão enfrentar dificuldades diferentes dos homens.

Que conselhos dá às suas alunas que têm ambição de ocupar um cargo de liderança?
As alunas de licenciatura ou de mestrado (sem experiência profissional) não têm a noção que nas carreiras delas vão enfrentar dificuldades diferentes dos homens. Como alunas não sentem diferenças, e no recrutamento também não.

O meus conselhos são:

  • Ganhar consciência da dificuldade
  • Não sair da carreira (é preferível reduzir a quantidade de trabalho, mas ficar dentro do sistema)
  • Aprender a fazer networking mais cedo (eu aprendi muito tarde)
  • Arranjar role models e mentores (ou mentoras)
  • Procurar ter ajuda para a família.