A carta de apresentação ainda faz sentido?

Na era do LinkedIn e das plataformas digitais que tornam os processos de recrutamento cada vez mais rápidos e fáceis, ainda faz sentido enviar o currículo com a tradicional carta de apresentação? E se assim for, como deve ela estar escrita?

Na carta de apresentação saliente os seus pontos fortes e como pode ser uma mais-valia para as funções a que se candidata e para a empresa.

As formas de recrutamento têm vindo a mudar muito. Hoje, são as plataformas digitais como o LinkedIn que ganham a dianteira nos processos de recrutamento e para quem está à procura de novas oportunidades de trabalho. É no cabeçalho da nossa página naquela rede social que nos esmeramos a descrever o nosso perfil profissional da forma mais apelativa possível.

Hoje, as candidaturas espontâneas ou respostas a anúncios de trabalho vêm, em grande parte dos casos, num simples email de duas ou três linhas que remete para um currículo em anexo. Os mais empenhados juntam um parágrafo breve a descrever a sua experiência e vontade em poder vir a trabalhar com aquela empresa. Mas será será que os recrutadores leem mesmo esta apresentação, ou vão diretos ao currículo para não perderem mais tempo? Estará a carta de apresentação moribunda?

Alguém as lê, ainda?

Tracy Saunders é uma recrutadora experiente que já trabalhou com empresas como a Google ou a Amazon e fundou a Women’s Job Search Network, plataforma em que ajuda as mulheres com as ferramentas para encontrarem emprego. Num artigo para a Ellevate, Saunders explica como a dúvida sobre este tema a levou fazer um inquérito informal a mais de 10 mil colegas, no qual quis saber se, de facto, liam cartas de apresentação e se achavam que elas continuavam a ser relevante.

As respostas que obteve foram algo desconcertantes: 61% responderam que ela não interessava e que não a liam; 31% diziam ler e os restantes mostraram-se indiferentes.

A própria Tracy admite que, enquanto trabalhou como recrutadora para empresas de tecnologia não tinha o hábito de ler cartas de apresentação, uma vez que “as páginas dos candidatos no LinkedIn, ou os seus códigos no GitHub [plataforma onde os programadores divulgam o seu trabalho] davam toda a informação de que precisava”. Mas em outro tipo de áreas, como os setores financeiros, comerciais ou de recursos humanos, os recrutadores querem saber como é que o candidato comunica, o que continua a tornar a carta de apresentação uma ferramenta útil. E os modelos mais comuns de currículo, que se querem abreviados e práticos, pouco ou nada revelam sobre isso.

“É importante que, a par da experiência profissional demonstrada num CV, haja algo paralelo que nos indique o carácter mais pessoal do candidato.” Margarida Calado, Leadership & Talent Manager na Ikea

Por cá, a carta de apresentação continua a ser importante para os processos de seleção de candidatos, conforme nos conta Margarida Calado, Leadership & Talent Manager na Ikea. “Damos uma extrema importância ao processo de recrutamento, porque sabemos que as pessoas são a base do nosso negócio. Assim, é importante que, a par da experiência profissional demonstrada num CV, haja algo paralelo que nos indique o carácter mais pessoal do candidato. Estes dois elementos são cruciais e quanto mais refletirem a personalidade e forma de estar de cada um, melhor. Como procuramos os melhores candidatos e aqueles que, acima de tudo, partilhem os nossos valores enquanto empresa, dC. No entanto, isto é apenas o início do processo. Dependendo da função ou vaga em causa, as dinâmicas individuais e em grupo dão-nos respostas muito mais concretas sobre os candidatos e os seus perfis.”

Qual a melhor forma de a escrever, então?

“Uma carta de apresentação bem escrita, que fornece detalhes e se dirige pessoalmente ao recrutador,pode fazer a diferença. Pode conseguir uma marcação de entrevista mais rápida e ajudar a reduzir a lista de candidatos no processo de contratação”, observa Tracy Sauders.

Num artigo para a Forbes a respeito deste tema, o coach de carreira, John M. O’Connor, revela as opiniões que muitos profissionais de recursos humanos partilham consigo. “As cartas de apresentação são quase todas fotocópias umas das outras; não costumo lê-las.” O’Connor percebe bem o porquê do criticismo, mas acredita que a forma como ainda as vemos hoje está errada e desatualizada: “Nunca devem ser encaradas como um mero apêndice do CV, mas como uma ferramenta única que pode diferenciá-lo imediatamente de outro candidato, aos olhos do empregador.”

— Personalize e seja original: Esta é a sua oportunidade para, em menos de uma página, prender a atenção de quem lê e criar a narrativa pessoal que os modelos mais comuns de currículo não permitem, observa John O’Connor. Conte a sua história, não escreva algo igual ao que os outros 200 candidatos vão escrever. Ela continua a ter de ser concisa e clara, mas também deve causar o máximo de impacto, agora mais do que nunca.

Outra dica interessante é não a começar com um cinzentão e impessoal “Exmo. Sr./Sr.ª Diretor/a de Recursos Humanos”, aconselha Tracy Saunders, que cita um dos recrutadores que respondeu ao seu inquérito. “Se a carta começar desta forma, normalmente o currículo não é o melhor fit para a vaga. O meu nome e detalhes profissionais são públicos, por isso não sei porque não se dirigem a mim pessoalmente.”

— Mostre a sua motivação: “Promova os seus pontos fortes e dê uma visão sobre as suas motivações e movimentações de carreira (ou seja, porque quer mudar)”, lembra Tracy Saunders.
Deve deixar sempre bem claro porque acha que é a melhor candidata para a vaga ou porque tem as características certas para os desafios que as funções acarretam, onde é que os seus valores ou objetivos se alinham com os da empresa ou, como observa John O’Connor, o valor que pode trazer à organização. Isto implica alguma investigação preliminar sobre a história e cultura da organização, mas este é um passo necessário a qualquer candidato a emprego, atualmente. Por isso, não faça uma carta de apresentação igual para todas as vagas de emprego e empresas a que se candidata, sobretudo se estiver em pleno processo de procura de trabalho — os recrutadores percebem-no imediatamente e isso não vai jogar a seu favor.

— Aproveite para mostrar os seus dotes de comunicação: A carta de apresentação continua a ser uma montra para os seus talentos de comunicação, para a forma como escreve, a clareza do seu raciocínio, a sua noção de valor e autoestima profissional, a capacidade de construir uma narrativa apelativa sobre si. E esta é uma das aptidões pessoais mais procuradas atualmente em áreas como os serviços, em comunicação e marketing ou os departamentos comerciais e de apoio ao cliente. John O’Connor dá uma dica: “Para a pôr à prova, leia a carta depois, em voz alta, a uma ou duas pessoas. Finalize com algo forte. Este é o seu discurso e só tem cerca de um minuto para o fazer. Aproveite-o bem.”