Precisamos de mais e mais rápido

Carolina Almeida, diretora de marketing da Uniplaces, aponta o dedo ao que falta para que mais mulheres cheguem a cargos de liderança nas empresas.

Carolina Almeida é Chief Marketing Officer na Uniplaces.

Carolina Almeida é mãe e diretora de marketing na Uniplaces. Formada em Gestão e mestre em Finanças, viveu em 4 países nos últimos 10 anos. Começou a sua carreira em mercados financeiros, mas descobriu a sua paixão pelo marketing digital quando começou a trabalhar com startups no Brasil há 6 anos. Voltou para Portugal há 3 anos e trabalha na Uniplaces desde então.

 

“A minha filha ainda não lê, mas já lhe conto histórias de mulheres incríveis nas suas áreas como Frida Khalo, Amelia Earhart, Malala Yousafzai, Coco Chanel, Maya Angelou, entre tantas outras. Afinal, representatividade é fundamental. Mas representatividade vai além de histórias para crianças. Precisamos de mais e mais rápido.

Tenho, como a maior parte das mulheres, uma lista grande de situações profissionais em que senti o machismo muito de perto. Entre comentários e atitudes machistas, as mulheres muitas vezes calam-se para poder pertencer a esse mundo dos homens. A verdade é que embora as situações se multipliquem em todas as carreiras e a todos os níveis salariais, o machismo vai ficando cada vez mais presente à medida que se sobe a escada corporativa.

Uma vez, um antigo chefe perguntou-me se eu tinha planos de ter filhos no curto prazo porque não lhe dava muito jeito. Eu respondi prontamente que não, que estava 100% focada na minha carreira e por isso não havia tempo para filhos. Durante muito tempo achei que ser mãe e ter uma carreira de sucesso era algo que não podia ser conjugado. A verdade é que para muitas mulheres essa ainda é a realidade. Basta olharmos para alguns números: Em Portugal, a disparidade salarial entre homens e mulheres ainda está nos 16,2%, acima da média da UE (14,8%)*. Há várias razões para esta disparidade, sendo uma delas o número bem inferior de mulheres a ocupar cargos de topo. Outra razão prende-se com o facto das mulheres ocuparem mais cargos a tempo parcial por terem filhos pequenos ou serem as cuidadoras principais de familiares. Outra razão ainda é a disparidade salarial entre homens e mulheres que ocupam cargos semelhantes.

Durante muito tempo achei que ser mãe e ter uma carreira de sucesso era algo que não podia ser conjugado.

Portanto, quando vejo que se criam quotas para mulheres em empresas aplaudo, mas sei que está longe de ser suficiente. De acordo com um relatório do World Economic Forum, há apenas 16% de mulheres nos conselhos de administração em Portugal. Um número bem mais próximo dos níveis da Índia (13,8%) ou Brasil (8.4%) do que da França (43.4%) ou Noruega (42.1%). Porque diversidade sem inclusão não é suficiente. Porque sem inclusão vamos continuar a ter uma grande percentagem de mulheres em cargos baixos ou intermediários (mid-manager, team leaders). Porque sem licenças de parentalidade partilhadas de igual para igual, a maior parte das mulheres vai estagnar na carreira no momento que decidir ter filhos. Porque sem maiores apoios do estado, ou medidas decisivas, continuaremos a ter mulheres a trabalhar menos horas ou a aceitar cargos que pagam menos para cuidar de filhos pequenos. Falo na falta de creches ou mesmo na falta de creches dentro de empresas.

Então sim, precisamos de muito mais e muito mais rápido. Precisamos exigir das empresas condições para as mulheres subirem a escada corporativa e chegarem a cargos de liderança. Precisamos que as mulheres sejam ouvidas e que ajudem na tomada de decisão. Precisamos expor empresas que paguem menos a mulheres do que a homens em cargos semelhantes ou que não tenham mulheres em cargos de liderança. Precisamos de mais mulheres na política a decidir sobre leis que impactam outras mulheres. Precisamos de um esforço das universidades e escolas para acabar com o conceito de carreiras para homens e atrair mulheres para áreas onde há ainda um gap grande entre mulheres e homens, como é o caso da tecnologia, engenharia e matemática. Por fim precisamos de nos unir e nos aplaudir. E ganhar voz. Porque cada vez que não nos calamos quando sentimos o machismo, cada vez que não criticamos uma mulher que chega ao topo por “se comportar como um homem” estamos a dar um passo em frente.”

 

*Fonte: Eurostat, dados de 2018