Carmo Palma: “A transformação digital é necessária em todos os setores”

Carmo Palma é managing director na Axians Portugal, uma das empresas que tem estado na linha da frente para acelerar a transformação digital em tempos de pandemia. Nesta entrevista fala sobre os desafios do seu setor, igualdade de género e os skills que a conduziram ao lugar que hoje ocupa.

Carmo Palma é managing director na Axians Portugal.

Carmo Palma é managing director da Axians Portugal, desde janeiro de 2020, onde lidera uma equipa de cerca de 500 colaboradores, que desenvolvem um ecossistema criativo capaz de combinar competências digitais e humanas com diversos tipos de inteligência para ajudar a transformar os negócios dos clientes, bem como dos setores em que atuam.

Licenciada em Engenharia Informática, pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova, fez formação complementar em Design Thinking, na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, e em Gestão, na Nova SBE. A sua trajetória profissional inclui 10 anos na Deloitte e 15 anos na Novabase, onde ocupou os cargos de senior manager e diretora executiva, respetivamente. Em 27 anos de carreira tem-se dedicado à transformação digital em diferentes setores de atividade, nomeadamente, Administração Pública, Transportes e Energia, em Portugal e no estrangeiro.

Quais os principais desafios e oportunidades que o seu setor vive atualmente, não só no contexto da pandemia?

Um dos principais desafios é conseguir apoiar a transformação digital dos nossos clientes, num contexto tão incerto e com mudanças tão aceleradas, como o que vivemos. O contexto de pandemia é um exemplo da imprevisibilidade que temos de ser capazes de endereçar enquanto organização e enquanto profissionais. Outro desafio que destaco é o da atração e retenção de talento, no contexto remoto e global. Recrutar e reter profissionais num mercado de trabalho global, e desenvolver uma cultura empresarial e humana num contexto remoto, requer novas abordagens.

Por outro lado, as oportunidades neste setor são imensas. A transformação digital é necessária em todos os setores de atividade. E é necessária de forma holística, isto é, trazendo valor para os clientes dos nossos clientes, valor para a empresa e com soluções sustentáveis para o planeta. Há um grande sentido de propósito e relevância em cada solução, construída em conjunto com os nossos clientes, e isso é muito gratificante.

Na Axians os critérios utilizados para o recrutamento, promoção, revisão salarial, entre outros, são associados ao mérito.

Na área das tecnologias há falta de talento, sobretudo, de talento feminino, e ainda mais ao nível da liderança. Que leitura faz desta realidade e como procura atrair e reter mais mulheres nas suas equipas?

Há falta de talento feminino na área das tecnologias e isso tem várias causas e cada uma delas deve ser endereçada para que ao longo do tempo se equilibre a situação. Na sociedade ainda há a tendência para se associar a tecnologia a uma área para rapazes e isso influencia o percurso académico dos jovens. Nas faculdades, as turmas destes cursos ainda são maioritariamente masculinas o que dificulta às empresas o recrutamento de mulheres para estas áreas. No percurso profissional, ainda há mais casos de mulheres a dedicarem-se à família em sacrifício da carreira, do que homens.

Na Axians os critérios utilizados para o recrutamento, promoção, revisão salarial, entre outros, são associados ao mérito. As oportunidades existem independentemente do género e temos mecanismos internos que promovem a igualdade, a diversidade e sensibilização contra a discriminação entre colaboradores.

No seu caso, o género não foi um impedimento para chegar a funções de liderança nesta área ainda predominantemente masculina. Que comportamentos e atitudes têm sido determinantes no seu percurso?

Destaco dois. Empatia e ambição. Empatia porque nos cruzamos com muitas pessoas. O nosso percurso profissional, independentemente da profissão, não é um caminho solitário. Precisamos do contributo de várias pessoas e que têm muitas vezes visões diferentes da nossa ou interesses diferentes. É muito valioso entendermos o outro lado e construirmos em cima disso. E isto é um exercício muito complexo de fazer. Porque temos as nossas convicções. Porque determinados comportamentos ou pontos de vista nos frustram. Desenvolver esta competência implica trabalharmos muito em nós próprios.

Ambição é termos o estímulo para querer fazer mais e melhor. É o que nos dá energia para ultrapassarmos obstáculos. Termos iniciativa, arriscarmos e sonharmos. A ambição por vezes tem uma conotação negativa, e é associada ao desejo pelo poder ou glória. Para mim ambição é aspiração e é um comportamento que considero muito importante termos.

É um exercício extremamente difícil assumir que a nossa experiência e convicções fortes nos podem estar a limitar na construção de um futuro melhor.

Quais considera que são os traços de personalidade e as características de um bom líder nos tempos que vivemos?

Juntava à empatia e ambição, a transparência e humildade. Com transparência criamos relações de confiança com quem trabalhamos e que são tão importantes para se atingir resultados!

Humildade porque cada vez mais é necessário reconhecer que o que sabemos tem valor mas não nos deve condicionar. É um exercício extremamente difícil assumir que a nossa experiência e convicções fortes nos podem estar a limitar na construção de um futuro melhor.

Que conselho deixaria a uma jovem executiva que tenha ambições de alcançar uma posição de topo na sua área?

Diria a todas as jovens que tenham confiança em si próprias e que se foquem na obra e nos resultados. Quando me perguntam se alguma vez fui tratada de forma diferente por ser mulher, eu costumo responder que não. Mas honestamente não sei se não fui tratada de forma diferente ou se sou eu que não me preocupo em perceber se sou tratada de forma diferente… Talvez porque tenho a firme convicção de que o mérito ou a competência dependem essencialmente da nossa matriz de valores, aplicada no dia a dia, em todas as ações ou decisões. Empowerment, responsabilidade, empreendedorismo, confiança e solidariedade, não conhecem género.

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