Carla Rebelo: Ready, aim, fire!

Carla Rebelo, diretora-geral do Adecco Group em Portugal, sobre a aplicação dos fundos europeus que se avizinham.

Carla Rebelo é diretora-geral do Adecco Group em Portugal.

Nunca como antes na nossa história estivemos tão próximo de receber subsídios e financiamentos monumentais como aqueles que receberemos em breve com a famigerada bazuca.  Este tema é suficientemente importante para nos tirar o sono. É que, sem saber como será operacionalizada, escrutinada e avaliada a utilização desses fundos, podemos estar a desenhar a passos largos o nosso prolongado declínio. Gostava de ver publicado e discutido uma espécie de “livro branco de uma bazuca” para me dar algum otimismo e segurança….

De um passado regado a subsídios europeus desperdiçados, muitos dos quais errada e desonestamente utilizados, com certeza que conseguiríamos compilar uma lista de do´s & dont´s, o que funcionou bem e quais foram os erros e lições aprendidas para que esta nova oportunidade pudesse começar, à partida, de forma mais promissora. Mais importante do que ter dinheiro para gastar é saber como investi-lo e disso a máquina central não tem “a good trackrecord”.

Não partilhar informação sobre os erros nunca contribui para uma sociedade que aprende. Mesmo que exista visão, ela de nada serve se não existir a execução. E é na execução que Portugal tem um histórico de monótonos insucessos quanto à aplicação de dinheiro público, e de ações de transformação, umas vezes por falta de preparação, outras por falta de um ambiente de controlo adequado.

Tal como se faz nas empresas, é preciso desenhar uma estrutura organizacional, simples, prática, funcional e transparente com gestores experientes e não, como é hábito em Portugal, apenas com quadros políticos.

Quero acreditar que nenhum dinheiro começará a ser distribuído sem que a estrutura de Governance esteja decidida e testada, mas esperaria como mínimo que fossem criadas equipas de trabalho com experiência em avaliação de investimentos, funções de aconselhamento e supervisão de negócios e que, tal como se faz na gestão privada exista um sistema de monitorização periódica, com prestação de contas e consequentes planos de ação para correção de desvios. Ou, no mínimo, a base para um “comply or explain” português.

São uníssonas as vozes dos mais respeitados economistas, políticos e comentadores nacionais quando dizem que esta é a nossa última oportunidade e que, uma vez perdida condicionará a vida do nosso País pelos próximos séculos.  A questão que não quer calar é: como garantir que desta vez é diferente?

Tal como se faz nas empresas, é preciso desenhar uma estrutura organizacional, simples, prática, funcional e transparente com gestores experientes e não, como é hábito em Portugal, apenas com quadros políticos.

Outra das ferramentas que julgo indispensável neste contexto pré-bazuca é um exercício famoso e muito útil celebrizado por Gary Klein em 2007, chamado de premortem, que consiste em imaginar que o projeto ou organização falhou, refletindo através de um brainstorming com as equipas em modo retrospetivo, até chegar ao que potencialmente pode estar na génese do fracasso. Deste modo, facilita-se a identificação dos riscos e ameaças que devem ser considerados e tratados.  Note-se que um premortem não é uma autópsia pois pretende exatamente evitar a morte, mas exige abertura, conhecimento, profundidade e sinceridade dos seus participantes.

Quando se tem apenas uma oportunidade de tiro disponível a abordagem estratégica clássica “we should ready before we aim and aim before we fire” é a aposta mais segura.

 

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